Ele é todos nós
Texto: Ricardo Polettini
Zé Ramalho faz show hoje em Bauru, na Cervejaria dos Monges. "Eu Sou Todos Nós" traz músicas recentes e os grandes sucessos da carreira do cantor e compositor
Mitologia, alquimia, cinema, Salvador Dalí, Leonardo da Vinci, repentistas, cantadores e violeiros. Tudo isso vira inspiração para a música de Zé Ramalho, que faz show hoje em Bauru, na Cervejaria dos Monges.
O cantor e compositor paraibano mostra o show "Eu Sou Todos Nós", com suas músicas mais recentes e sucessos que o consagraram em mais de 20 anos de carreira. Empunhando seu violão, ele se apresenta com formação completa de sua inseparável Banda Z, com Gustavo Schoereter (bateria), Chico Guedes (contrabaixo e vocal), Dodô de Moraes (teclado), Zé Gomes (percussão e ritmos nordestinos) e Toti Cavalcante (saxofone e flauta).
Em entrevista ao JC Cultura, de sua casa, no Rio de Janeiro, sentido com o desastre ecológico da Baía de Guanabara, o alquímico e profético Zé Ramalho falou de seus novos projetos, de discos voadores e até de previsões para o futuro nas quais acredita.
JC Cultura - Você lançou o disco "Eu Sou Todos Nós" no começo do ano passado e agora está entrando em estúdio novamente. O que vem por aí?
Zé Ramalho - Estou acabando um disco novo que vai sair depois do Carnaval, em abril. E este disco vai se chamar
"Nação Nordestina", é um CD duplo, com músicas inéditas minhas e também só com autores nordestinos.
JC Cultura - Quem vai estar no disco?
Zé Ramalho - Tem desde Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Vale, os principais, até passando por compositores totalmente anônimos, desconhecidos, violeiros, cantadores, enfim, eu consegui reunir, dentro desse padrão, a minha ligação direta com a cultura do Nordeste, que foi quem me deu todo o início da minha carreira.
JC Cultura - Quais são suas principais influências dentro deste universo nordestino?
Zé Ramalho - São os cantadores, violeiros, isso tudo misturado com Luiz Gonzaga e um pouco da música pop dos anos 70, Beatles, Bob Dylan, isso tudo vem na minha trajetória, esse caldeirão todo.
JC Cultura - O novo disco tem alguma participação especial?
Zé Ramalho - Estamos trabalhando eu e o Robertinho do Recife, mas tem participações de músicos representativos, como o Hermeto Pascoal. Eu preparei uma música chamada "Violando com Hermeto". Eu preparei um bocado de ponteio de viola e mandei pra ele. O Hermeto chegou no estúdio, um mês depois, e eu disse a ele "se você não puder fazer por alguma razão, ela vai entrar de qualquer forma no disco, só que eu vou chamar de "Violando sem Hermeto" (risos). Tem também a participação de Naná Vasconcelos, a Elba, Fagner, Dominguinhos, guitarristas que entraram no meio dos forrós, como Pepeu Gomes, o Rick Werneck. Vai ser um trabalho, apesar de ligado com as raízes nordestinas é bastante contemporâneo e dentro desta visão futurista que eu tenho das coisas.
JC Cultura - No seu último disco, "Eu Sou Todos Nós", você gravou uma música do Jorge Ben, que fala da curiosidade dos homens de conhecer o espaço. A música foi tirada do disco "Tábua de Esmeraldas", no qual um dos conceitos é "o que está embaixo
é como o que está em cima". Numa de suas músicas você fala "Eu não sou eu, eu sou todos nós". Qual a relação do seu trabalho com essa idéia de Jorge Ben, de resgatar um dos princípios da alquimia?
Zé Ramalho - Nesse disco, eu quis reunir meu pensamento filosófico sobre este final de milênio, de que tanto se falou, o réveillon do ano 2000...
JC Cultura - O que você pensa sobre isso?
Zé Ramalho - Antigamente a gente achava, por causa daquele filme do Stanley Kubrick, o "2001 Uma Odisséia no Espaço", que essa data era tão difícil de se alcançar. Eu vi o filme na época, e foi um choque, eu não entendi nada (risos). Mas eu vi várias vezes, é um tratado filosófico profundo aquilo...
JC Cultura - E isso influenciou bastante sua música?
Zé Ramalho - Tudo isso, esse tipo de visão futurista, de investigação sobre de onde a gente vem, para onde a gente vai, óvnis, discos voadores, essas coisas todas me interessam. Essa coisa dos antigos alquimistas, pessoas como Da Vinci, Galileu, são quem me dão muita inspiração e artistas loucos como Salvador Dalí, Andy Warhol, esse povo todo, eu me informo dessas coisas e procuro nisso tudo formas estéticas de arte, mas que nem por isso deixam de me inspirar.
JC Cultura - Mesmo você tratando desses assuntos, seu trabalho é popular. O disco "Antologia" vendeu 700 mil cópias. Como isso acontece?
Zé Ramalho - É verdade, correndo por fora e comendo pelas beiradas... Isso é porque eu tenho que me desviar dos modismos da mídia, entre os axés, entre os românticos, entre os boleros, os bregas, enfim, dentro de todas as formas musicais que existem no Brasil, o tipo de trabalho que eu faço não é uma coisa que a mídia se interessa muito. Porque eu boto as pessoas para pensar e muitas vezes isso não interessa muito à mídia. E, ao mesmo tempo, é exatamente esse tipo de coisa que caracterizou o meu trabalho, essa coisa curiosa, eu gosto de lidar com palavras. A nossa língua é uma das mais ricas que existe e essa ambigüidade é mais rica ainda. E trabalhar com as palavras, despertar nas pessoas sentimentos, curiosidade, riso, choro, revolta, eu dedico toda a minha vida para isso. Se muitas vezes eu posso não conseguir, mas é o que eu estou querendo. A minha principal ferramenta são as palavras. Até palavras como "Avohai", que me apareceu num momento muito místico, numa revelação profunda, durante uma experiência alucinógena que eu tive na época. Essas palavras que não existem no dicionário... "Avohai", na minha concepção
é uma fórmula de você saber mais ou menos de onde a gente vem. Você tem seu pai, seu avô e eles também tiveram o pai deles, e você vai recuando, recuando, e a gente vai bater nos primeiros habitantes do planeta. E vai pra frente também. Eu já sou avô. E eu procuro me interessar por essas coisas e vejo que diante da mídia eu me sinto um pouco desprestigiado, mas ao mesmo tempo não me revolto, não culpo ninguém a não ser a própria. Num futuro, se alguém quiser culpar a mediocridade na cultura do nosso tempo, temos que culpar a mídia. Não há como fugir disso. Ela, absolutamente, descartou todos os grandes nomes da MPB, ninguém aparece. E pior ainda, é que tem cada vez mais gente interessada nesse tipo de coisa. Os shows que se apresentam estão sempre cheios. Mas Oswald de Andrade dizia que "um dia a massa há de comer do biscoito fino que fabrico". Eu vejo uma dificuldade imensa para os novos autores, cheios de sonhos, de esperança, gente como eu nos anos 70, que não tinha nem onde ficar. E pior, hoje em dia, só temos três grandes gravadoras dominando o mercado no Brasil
JC Cultura - Você acha que a Internet pode abrir algum caminho nesse sentido?
Zé Ramalho - É provável. O futuro desse lance aí é incerto, não existe nem sequer leis, ninguém nunca imaginou que surgiria alguma coisa como a Internet, as gravadoras vão ter que ver como
é que vão fazer para vender as coisas na rede. Eu sou um internauta consumidor. Eu compro discos que eu não encontro no Brasil pela Internet, coisa que me interessam e que jamais eu consigo aqui. E a gente percebe que a coisa funciona.
JC Cultura - Falando de tecnologia, você também critica, nas suas músicas, coisas como as indústrias, o descaso com a ecologia...
Zé Ramalho - Eu sofro muito com isso. Essa coisa agora da Baía de Guanabara é uma tristeza, um absurdo, uma estatal como a Petrobras não perceber o gigante que ela é e, quando dá uma vomitada dessas, não tem estrutura para conter ou sequer tomar providência. Tiveram que chamar pessoas da Inglaterra para cá, isso é uma vergonha, em se tratando do tamanho da empresa e da fortuna que envolve isso tudo. É uma loucura, o cartão postal do Brasil sempre será a Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar e Copacabana e está tudo melado de óleo. Falta romantismo aos homens da política. A política tende a implodir no futuro pela falta de romantismo, de piedade desses caras, são muito egoístas.
JC Cultura - Nas suas músicas, você cita passagens mitológicas, você é um estudioso do assunto?
Zé Ramalho - Eu gosto dessas coisas, principalmente essa questão dos discos voadores.
JC Cultura - Você acredita em disco voador?
Zé Ramalho - Não acredito, mas é uma questão da gente perceber que alguma coisa existe. Eu não sou um defensor de bandeirinha, mas dizem que a ciência do século 21 vai ser a ufologia, pela coisa que ela encerra, a estranhesa, a curiosidade, as possibilidades e perigos que ela envolve. Eu estou muito ligados às pessoas que lidam com isso no Brasil. Essa história dessa música do Jorge Benjor, eu penso exatamente aquilo, o nosso impulso de sondar o espaço, isso é fantástico. Nesse disco que eu estou fazendo, tem uma música de um violeiro chamado Oliveira de Panelas, um repente chamado "Esses Discos Voadores Me Preocupam Demais". Eu estou reproduzindo isso do meu jeito, e isso já tem uns 15 ou 20 anos, o cara é meio profético. E eu devo apresentar essa música no show de Bauru. Eu peguei bastante também o lado político desses compositores e me vi pensando bastante igual a eles.
JC Cultura - No disco mais recente, você dedica uma faixa aos sem-terra. Como você vê a questão agrária do País?
Zé Ramalho - O nosso país é muito grande e tem que haver alguma forma de distribuição disso, mas com ordem. Nada de sair invadindo as coisas e as pessoas matando, nem a polícia nem os fazendeiros. É uma responsabilidade muito grande que tem que haver organização e fiscalização. Os estados do Norte são muito grandes, só precisa saber se as pessoas vão querer ir para lá. Agora, é uma necessidade maior ainda, prevendo o futuro, um controle de natalidade.
JC Cultura - Você acha isso?
Zé Ramalho - Eu acredito. É a projeção do futuro, não só aqui no Brasil, no mundo todo, isso desde o Aldus Huxley, que fez o "Admirável Mundo Novo", nos anos 40. Essas projeções da explosão demográfica é uma coisa muito séria. De ano para ano, as pessoas vão dobrando e as oportunidades serão cada vez menores.
JC Cultura - Você acredita num fim do mundo?
Zé Ramalho - Não, não. Mas acredito, que num futuro muito distante ainda, nós teremos condições de estarmos evacuando a Terra e indo para outros planetas. As previsões de escritores dizem que a Terra, como qualquer planeta e qualquer estrela, tudo que nasce, vive, um dia fenecerá. Haverá um dia, daqui a bilhões de anos, eles têm até os cálculos, que a Terra vai fenecer, só que nesse momento já haverá uma evacuação para outro lugar. Aquele filme "Blade Runner" fala mais ou menos disso, a Terra está sendo evacuada e restam apenas os andróides. Esses pesquisadores que constróem as estações espaciais são cabeças privilegiadas.
JC Cultura - Você faria uma viagem espacial se já fosse possível?
Zé Ramalho - Olha cara, você não imagina a curiosidade e a vontade que eu tenho disso. É interessante que, ao lado disso, eu sou uma das pessoas que têm pavor de avião (risos). Eu viajo de avião há 20 anos e toda vez me arrependo.
Serviço
Zé Ramalho apresenta o show "Eu Sou Todos Nós" hoje, às 23 horas, na Cervejaria dos Monges (a casa abre a partir das 21 horas). Ingressos esgotados. Patrocínio: Cultura Inglesa e Caixa Econômica Federal. Apoio: SAT Engenharia, Saint Paul Residence, 96 FM e Jornal da Cidade. Avenida Getúlio Vargas, 7-50. Informações: 234-7773.