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Plano diretor

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 11 min

Plano diretor de Bauru precisa ser reformulado

Texto: Patrícia Zamboni

O crescimento com qualidade de vida é característica inerente ao processo de desenvolvimento de Bauru. Como já foi relatado em matéria anterior dessa série de reportagens, isso se traduz em vantagens para os moradores, já que outras cidades que também apresentam uma expansão dinâmica não conseguiram atingir esse grau de evolução sem deixar a desejar em termos de qualidade para se viver. Porém, alguns ajustes precisam ser feitos para que esse ciclo caminhe em direção a um fechamento harmonioso e que resulte em benefícios futuros para os cidadãos. A reformulação do plano diretor da cidade é atitude urgente citada por arquitetos e empresários de Bauru.

Na opinião do arquiteto Émerson Crivelli, o plano diretor precisa ser repensado para que a cidade tenha um desenvolvimento mais ordenado. "O plano diretor não é uma coisa que traz conseqüências imediatas. Ele vai dizer o caminho da cidade no futuro. Isso é uma coisa que não garante votos, mas os políticos precisam se conscientizar da necessidade de investir nesse plano. Questões como os locais permitidos para a construção de prédios, fábricas, para que lado a cidade vai caminhar, o que é melhor para a cidade crescer sem causar mais enchentes não estão no plano diretor atual da cidade", avalia Crivelli.

Na seqüência desse pensamento, o arquiteto faz uma citação de grande importância e interesse para a população. Segundo ele, o plano diretor de uma cidade tem que ser desenvolvido democraticamente. "É necessário que este plano seja desenvolvido sob a ótica da democracia. Toda a comunidade deve opinar na elaboração do plano diretor. E isso tem que ser feito através das instituições, como associação dos engenheiros, dos arquitetos, dos professores universitários, do sindicato da construção civil, sindicato patronal, Ciesp, Fiesp, órgãos de classe, enfim, o maior número possível de entidades e associações devem participar do plano diretor. Essa é a forma de ter o maior número possível de pessoas representadas", afirma.

Como cidadão e dono de uma visão ampla sobre a realidade urbana no Brasil e no mundo, Crivelli diz que a partir de um plano diretor adequado é possível melhorar uma situação caótica que visita Bauru sempre que chove: as enchentes. De acordo com o arquiteto, esse plano inclui a questão de zoneamento, que por sua vez diz respeito à construção e aprovação de imóveis. Como arquiteto, Émerson Crivelli indica uma alternativa simples e de resultados generosos.

"Cada casa ou cada prédio, quando são construídos, podem ter um simples dreno, porque a casa impermeabiliza a área do lote, e a rua impermeabiliza a área da cidade como um todo. Então, se cada subdivisão urbana tiver um pequeno dreno, isso pode conter bastante água, pelo menos no primeiro impacto. O segundo impacto pode ser contido por represas", analisa o arquiteto.

Segundo Crivelli, Bauru teve apenas um projeto inicial quando foi fundada, e depois disso não houve mais nenhum planejamento. Ou seja, o município foi crescendo espontaneamente, assim como acontece em 99% das cidades brasileiras. Essa observação só vem reforçar a atitude inevitável de se rever o plano diretor de Bauru e incluir nele investimentos direcionados

às necessidades da cidade. As inundações constantes da avenida Nações Unidas são a prova do que pode causar a falta de planejamento urbano. "O problema da Nações é que todas as águas da parte alta da cidade se convergem lá. Conforme foi sendo feita a impermeabilização com as construções das ruas, o caminho das águas foi direcionado para lá. Então, aquilo vira uma grande enxurrada. O ponto crítico

é na parte baixa da avenida porque quase se iguala ao nível do rio", analisa. A alternativa para sanar esse problema

é prontamente informada pelo arquiteto. "Seria preciso ter uma grande lagoa do lado de lá da Nuno de Assis ou na baixada da Vila Santa Luzia, que suportasse uma quantidade bem grande de água para agüentar, pelo menos, uma hora de chuva intensa, e depois essa água poderia ser bombeada aos poucos novamente para o rio. Mas isso precisa ser feito com coragem e com tamanho. Fazer uma coisa pequena não adianta nada. Lugar para essa lagoa não falta", opina Crivelli.

A instalação de núcleos habitacionais ao redor da cidade criou uma certa "barreira" para a continuidade do crescimento urbano de Bauru. Com isso, de alguns anos para cá não restaram muitas áreas que pudessem ser o alvo da expansão da cidade. "Nós tivemos a cidade cercada por núcleos habitacionais, e para o crescimento mais recente sobrou só a faixa da zona sul, que é uma faixa estreita. O território do município também não é grande. Então, nós iremos romper a zona sul, o que já está acontecendo com a construção de um loteamento do lado de lá da rodovia Ipaussu. Para as outras direções, o crescimento irá além das vilas. Mas a tendência é de que o crescimento para além dos núcleos habitacionais seja sempre popular. A classe média sempre seguirá em direção ao lado sul", orienta o arquiteto Émerson Crivelli.

Neste momento, ele cita novamente a questão do plano diretor, dizendo que o rumo que a cidade está tomando em seu crescimento

é conseqüência de tendências naturais que não podem ser negadas. "Se o plano diretor respeitar essas tendências naturais, será muito mais feliz, bem sucedido. E essas tendências são novas. Por isso, o novo plano diretor de Bauru terá que incluir tudo isso", analisa.

Funções do aeroporto e da ferrovia são alvo de análise urbana

Texto: Patrícia Zamboni

A questão dos aeroportos - o atual e o futuro - de Bauru também é incluída pelo arquiteto Émerson Crivelli na discussão sobre a abrangência que se deve ter o plano diretor de uma cidade. "Temas que dizem respeito ao transporte também fazem parte do plano diretor. Na minha opinião, ao contrário do que muitas pessoas querem, não é viável extingüir as atividades do aeroporto dentro da cidade quando o outro for terminado. Provavelmente os aviões comerciais vão operar no novo aeroporto. O atual deveria continuar como aeroclube, sediando a escola de aviação que é tradicional da cidade e já teve ministro que aprendeu a voar aqui, servir para o trânsito de aviões executivos e para vôos de emergência. Por exemplo, se uma pessoa doente precisa ser levada para um hospital em São Paulo, se tiver que se dirigir até o novo aeroporto terá que trafegar 20 km pela estrada até lá. Então, a urgência tem que sair daqui", destaca o arquiteto, de posse de uma visão esclarecedora sobre o que deve ser o verdadeiro avanço de um município.

"Além disso, ficaria como um aeroporto alternativo. Se uma aeronave estiver vindo para Bauru e o novo aeroporto for fechado por alguma razão, como mau tempo ou acidente na pista, usa o alternativo dentro da cidade. Essas coisas precisam ser olhadas no plano diretor", afirma "Émerson Crivelli.

A estrada de ferro passando no centro da cidade é uma situação que se tornou desnecessária na opinião do arquiteto.

"Não tem mais razão para a estrada de ferro passar no centro da cidade. Vamos usar esse espaço para vias de circulação, área verde, área de lazer, área para conter enchentes, enfim, para o que for melhor à cidade". O sistema viário de Bauru

é outro aspecto citado por Crivelli que merece a atenção da municipalidade. Segundo ele, o número de um carro para cada três habitantes - que é o que acontece em Bauru

- tende a piorar os problemas de trânsito que a cidade já encontra, principalmente na região central. O contraste da realidade de se ter um aumento constante no número de carros transitando pela cidade e a não implantação de ruas e vias de acesso, geram um problema que só pode piorar com o tempo. "O projeto do Tidei, daquele viaduto,

é ótimo, faz parte do crescimento da cidade. Só que está parado. E isso também tem que ser pensado. Os prefeitos têm que começar coisas que eles possam acabar, e não começar dez obras e não terminar nenhuma delas. Isso causa o endividamento da cidade", observa.

Em relação ao centro da cidade, Crivelli diz que

é natural o fato da região central ficar, de certa forma, desvalorizada. Segundo ele, isso não é um prpblema específico de Bauru, é um problema comum de qualquer cidade brasileira. "As cidades vão crescendo em áreas e o centro não cresce junto. Não tem como manter aquele pequeno centro com a mesma pujança de antigamente com o aumento da população e com o crescimento do município. É natural que se criem novos centros, que é o que acontece em Bauru. O comércio está se expandindo para a zona sul, onde existe o shopping e vários centros comerciais. Assim como acontece em bairros afastados, como Mary Dota e Redentor, que precisam criar um núcleo próprio de comércio e de serviços para atender

à população local", afirma Crivelli. Porém, as melhorias que precisam ser feitas no centro da cidade para melhorar problemas como o trânsito caótico e a falta de vagas para estacionar, também precisam constar do plano diretor, segundo o arquiteto. "O centro precisa ser olhado como uma alternativa, e não como uma coisa única".

Desatualização x crescimento

Caio Coube, um dos maiores empresários de Bauru, tem a mesma opinião do arquiteto Émerson Crivelli no que confere à desatualização do plano diretor da cidade. Para ele, uma revisão sobre todos os pontos que constam e que deveriam constar desse planejamento, é urgente. "Acho que o ideal é que a cidade fosse dividida por setores organizados para proporcionar um crescimento ordenado, mas isso é muito difícil num processo de crescimento dinâmico, como é o de Bauru. O plano diretor da cidade está defasado, precisa ser revisto. É importante que se faça um diagnóstico da situação atual e talvez criar novos limites, novas diretrizes para organizar o processo de desenvolvimento da cidade. Bauru tem um viaduto que não tem função nenhuma porque não foi terminado, há muito tempo não se tem novas avenidas de interligação do centro aos bairros e inter-bairros, e a cidade também tem um grave problema de escassez de

área verde. Num lugar quente como Bauru, isso é essencial", observa o empresário.

Para ele, em muitos pontos - como na região central - é preciso adequar a cidade à nova realidade urbana que vive.

"O centro da cidade era ótimo em outra fase, numa outra realidade urbana de Bauru. Hoje Bauru é uma cidade grande e espalhada, o que torna mais difícil para o setor público atender às demandas de todos os bairros. Mas por outro lado, em Bauru o setor público está devendo. Maringá, por exemplo, que é uma cidade bem mais nova que Bauru (52 anos), tem estádio de futebol, teatro municipal, ginásio municipal, entre vários outros equipamentos que estão sendo usufruidos pela população. Nós não temos nada disso aqui. Eu acho que Bauru ficou muito tempo sem receber investimentos, e agora é preciso correr atrás disso", analisa.

Na opinião do empresário Caio Coube, a administração municipal precisaria investir também em campanhas de conscientização junto à população. O problema da falta de limpeza, dos maus hábitos de um grande número de pessoas jogar lixo nas ruas, precisaria merecer uma atenção especial. "No Brasil, de uma maneira geral, não existe essa preocupação com a limpeza das cidades. Em Bauru o descaso da população em relação a isso está demais. Existe toda uma geração que está crescendo vendo os pais jogarem lixo pela janela do carro, e eles vão fazer igual. Uma campanha de conscientização seria fundamental", avalia Caio Coube.

A necessidade urgente de uma política de desenvolvimento também é o ponto de partida citado pelo arquiteto Maurício Costa para que Bauru tenha um crescimento ordenado.

"Precisa ser esclarecida uma política de desenvolvimento para se ter uma definição de crescimento e as diretrizes desse crescimento. Para que lado a cidade vai crescer, como vai crescer, quais são as leis que vão direcionar esse crescimento, tudo isso precisa ser definido. O centro da cidade, por exemplo, está totalmente deteriorado. É preciso ter uma nova leitura sobre o centro e uma revitalização de uso dessa área", aponta o arquiteto.

Para ele, outro grande problema é o crescimento desordenado dos núcleos habitacionais que foram surgindo em Bauru.

"Existe uma falta de postura urbanística muito grande nesses bairros que foram surgindo. Por exemplo, pelo número de pessoas que moram no Mary Dota, aquele bairro merecia ter um centro de prestação serviços e dar condições das instituições servirem ao bairro e às redondezas. Isso não acontece aqui", observa. A falta de uma malha viária que faça a ligação entre os bairros é outra grande deficiência da cidade apontada pelo arquiteto.

"Numa visão macro, uma política honesta também

é necessária para barrar algumas coisas que acontecem na cidade e que são em detrimento só de alguns, atrapalhando os interesses gerais. Existem muitos favorecimentos que impedem o desenvolvimento da cidade", alfineta o arquiteto.

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