Geral

Jeitinho brasileiro

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Você já levou algum B.O.?

Texto: Gustavo Cândido

Estas duas letras impressionaram os brasileiros a alguns dias atrás pelo seu significado, no mínimo, peculiar. Segundo foi apurado na CPI dos Remédios, em Brasília, b.o., é uma gíria comum entre alguns vendedores de drogarias para designar aquele medicamento mais caro que vai ser empurrado para o cliente pouco informado, ou seja, o bom para otário. Não é de hoje que o brasileiro tem fama de querer sempre levar vantagem em tudo (a famosa "lei de Gerson") e de dar um jeitinho para qualquer problema, mas no caso dos medicamentos a situação passou dos limites. O Caderno Ser foi para as ruas para saber em que situação os bauruenses sentem que foram passados para trás ou, levaram um b.o..

"Ainda na semana passada, quando passava na Praça Rui Barbosa fui chamada por uma cigana e mesmo não acreditando, parei. Acabei dando dinheiro a ela. Pouco, mas dei. No minuto seguinte me senti uma otária", conta uma estudante universitária que preferiu não se identificar. "Também acho que 'levamos um b.o.', quando surgem esses flanelinhas para

'guardar' o nosso carro na rua. Já vi uma pessoa cujo carro foi roubado, na frente do cinema, no centro da cidade e o flanelinha nem tinha notado", acrescenta a estudante.

Não é difícil encontrar nas ruas pessoas com reclamações sobre como são passadas para trás no dia-a-dia. "Hoje mesmo 'levei um b.o.', enquanto esperava um ônibus no ponto. Acho que como estão faltando carros, eles trocaram algumas linhas só que não avisaram o público. Subi num ônibus que tinha a placa Geisel esperando que ele subisse a Rodrigues Alves e ele virou na Nações Unidas. Tive que descer no primeiro ponto que pude e subi a Rodrigues a pé, porque não tinha mais passe. Me senti um idiota", revela o aposentado Mário Sérgio Azevedo.

O auxiliar administrativo Pedro José da Silva diz que os b.o's. acontecem em muitos lugares, mas os que mais o irritam são os das companhias telefônicas. "É duro quando você quer fazer uma ligação e não tem linha, ou até quando o telefone está na caixa postal". O desenhista Gustavo Araújo também diz que se sente um otário por causa dos telefones: "o maior b.o. que eu levei foi comprar um telefone celular, além de ter pago um preço que depois de três meses caiu pela metade, sempre que estou falando o sinal some e a ligação cai", afirma.

A dona de casa Amélia Soares diz que já 'levou um b.o.' autêntico, na drogaria: "fui comprar um remédio sem receita, o menino que me atendeu disse que tinha uma pomada que era muito boa, que ia resolver meu problema na hora. Comprei e até hoje não fiquei boa", lamenta, contando que não voltou até a drogaria para reclamar, "não reclamei, mas também não compro mais lá", diz com firmeza.

Acomodação e falta de visão

"Acho que a gente engole muito sapo porque o brasileiro é acomodado e acostumado com as sacanagens dos outros", diz bem-humorada a vendedora ambulante Sônia Pires, "a gente tem preguiça de reclamar e brigar por nossos direitos, por isso que os outros montam em cima", explica.

De acordo com a psicóloga e psicodramatista, Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, essa postura de "passar para trás", do ser humano revela, além da falta de ética, a falta de uma visão completa da realidade, a visão holística, a visão do todo. "As pessoas precisam se conscientizar que fazem parte de uma sociedade que interage, em que um deve se preocupar com o outro", diz a psicóloga, que usa a ecologia como exemplo: "você não pode jogar lixo no rio não só porque vai prejudicar alguém, mas também porque isso, mais cedo ou mais tarde vai ser prejudicial para você também. Essa água poluída

é a que você vai beber amanhã. Se você engana alguém, pode ser enganado por outra pessoa".

Maria Regina Vanin acredita que as pessoas que aplicam b.o's., são produtos de uma sociedade individualista e materialista, onde o "ter", é mais importante do que o "ser",

"só que o indivíduo que faz isso é parte de uma engrenagem muito maior, que envolve uma questão de princípios e valores de toda uma cultura", salienta.

A crença na impunidade é outro fator apontado pela psicóloga como agravante, pois favorece os delitos. "A justiça muitas vezes é permissiva

demais e quem infringe as leis não teme as conseqüências dos seus atos e continua praticando", diz.

Questão de valores

"O fundamental são os valores que devem ser transmitidos para o indivíduo desde cedo", explica Maria Regina Vanin. Segundo ela, neste aspecto, é muito importante o papel da mídia, dos formadores de opinião, da família, escola e todas as instituições, porque a formação de indivíduos que se comportem honestamente, com responsabilidade e respeito ao seu semelhante, é de todos. A psicóloga

é otimista: "acredito que o ser humano do próximo milênio será mais preocupado com essas questões. Penso que, mesmo lentamente, estamos evoluindo a buscando novos valores", conclui.

Levando vantagem em tudo

O País passou por várias crises de identidade neste século. A pergunta "quem somos nós?" esteve em vários momentos permeando a produção de intelectualidade nacional. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter criado por Mário de Andrade, surge exatamente da necessidade de uma nova definição do que era ser brasileiro, tema pulsante na década de 20, quando os imigrantes contribuíam para um novo perfil de nação. A convicção era de que a mão-de-obra importada era muito melhor que a nacional. Alguns estudiosos defendiam que dos escravos havíamos herdado o horror ao trabalho e dos índios um talento especial para a preguiça.

É desse cenário que surge a compreensão da força da malandragem, uma espécie de contraponto ao exército de trabalhadores dedicados e produtivos, que primeiro a agricultura e depois a indústria tanto necessitaram para competir no mercado internacional. Os malandros passaram a fazer parte do imaginário de um país de alma escravista como uma espécie de resistência ao modelo europeu cheio de regras. Era astuto, esperto e vivia de "expediente", como se dizia na época, e, mais do que tudo, sabia dar um "jeitinho" em tudo. Ganhava dinheiro fora das formas oficiais, jogando bilhar, apostando em cavalos e, em alguns casos, sobrevivendo na gigolagem. Com o passar dos anos, o malandro despencou cada vez mais para a contravenção, mas o folclore do jeitinho já havia marcado definitivamente o caráter nacional. Sua expressão mais agressiva vai desembocar na década de 70, tendo como marco o comercial do cigarro Vila Rica. Era um momento em que se pensava o nacionalismo em parâmetros bem diferentes dos anos 20. Havia um orgulho verde-amarelo e uma megalomania alimentada pela ditadura. Nesse contexto, um herói nacional como o tricampeão Gerson solta sua frase mais famosa. "Você gosta de levar vantagem em tudo, certo?"

A propaganda não teve uma interpretação pejorativa na época, mas depois virou lei. "Para o período era um jargão superdifundido. A propaganda captou um elemento de identificação que estava no imaginário popular", acredita Maria Izilda Matos, historiadora e pesquisadora da boêmia. "A lei de Gerson funcionou como mais um elemento na definição da identidade nacional e o símbolo mais explícito da nossa ética ou falta de ética", completa a historiadora.

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