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Acidente multilador

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 3 min

Trabalhador reafirma versão de acidente

Texto: Marcos Zibordi

Trabalhador rural que teve os órgãos genitais decepados num acidente com trator presta 1º depoimento do inquérito

Começou a tomada de depoimentos no inquérito instaurado na delegacia Seccional de Bauru sobre o acidente de trabalho que decepou os genitais do trabalhador rural Alcir José de Paula, 48 anos. Anteontem, o delegado Clementino Sobral, que preside o inquérito, foi até Pirajuí ouvir o trabalhador.

Num depoimento demorado, segundo o delegado, mas tranqüilo, segundo a advogada de Alcir, ele declarou que por volta de 18 horas do dia 31 de outubro de 99, já terminado o trabalho de reparo na tubulação da mina d'água e de ter dado sal ao gado, retornava com o trator em direção

à casa.

No trajeto, vedando a passagem, existem duas porteiras de arame. As duas estavam em terreno plano porém, bem próximo da porteira, existia uma pequena inclinação. Aproximando-se da porteira, o declarante parou o trator e como estava sozinho, desceu para abrí-la. O trator ficou funcionando. Alcir abriu a porteira e quando virou-se para retornar ao trator este vinha descendo. Alcir declarou que estava com o sapatão molhado na grama e que não conseguiu escapar do choque com o trator, tendo o bico do pára-choque atingido seus genitais ficando o pênis e o saco escrotal presos pela pele e os testículos pelos cordões. O trator teria ainda, segundo declarou, descido cerca de 60 metros e parado na represa de água. Alcir disse que o local do acidente foi modificado, tendo a grama sido arrancada e o terreno aplainado. O trator estaria sem freio há quatro meses, mas o patrão nunca teria se preocupado em providenciar o conserto.

O acidente ocorreu a cerca de 400 metros da casa. Aldecir Eugênio de Paula, irmão de Alcir, e mais uma amigo de nome Paulão, encontraram o acidentado no chão, após 40 minutos de agonia hemorrágica.

O carro usado para transportar Alcir até a Santa Casa de Pirajuí teria sido um Scort vermelho, mas a vítima não sabe a hora da entrada no Pronto Socorro porque estava inconsciente. A vítima acredita ter recobrado os sentidos por volta de 20h30.

Após ficar 17 dias internado, sendo quatro deles na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base de Bauru, Alcir ficou cerca de 20 dias parado. Ele declarou que depois voltou a trabalhar normalmente, embora estivesse portando uma sonda e não tinha condições de trabalho. Declarou ainda que continuou trabalhando porque o patrão mandava e tinha medo de ser despedido.

Em 31 de dezembro passado, outro acidente, desta vez com gado, acabou quebrando o dedo anelar da mão direita de Alcir. Ele disse também que trabalhou até 2 de janeiro deste ano tendo sido encaminhado para Bauru no outro dia pois corria o risco de perder o rim. Foi então colocada outra sonda e no dia 24 de janeiro ele foi encaminhado para São Paulo para cirurgia.

Por fim, a vítima afirmou em depoimento que na Santa Casa de Pirajuí pediram-lhe um requerimento do advogado ou da delegacia para que os documentos referentes a sua internação fossem liberados.

Agora Alcir está recebendo R$ 130 do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), menos que os R$ 260 que recebia. Ele alega que as dificuldades aumentaram face a diminuição da renda, mas que muitas pessoas na cidade de Pirajuí estão sensibilizadas com a sua situação, alguns doando até remédios.

Domingo à noite, Alcir viaja novamente para São Paulo, para fazer outra cirurgia. A intervenção está sendo feita na uretra, pois ainda não se conseguiu resolver a melhor forma de Alcir urinar, o que ainda está sendo feito com sonda.

Os próximos ouvidos no inquérito serão o patrão e os médicos que atenderam Alcir.

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