Afogamentos acontecem até em baldes
Texto: Sabrina Magalhães
Pequenos objetos soltos pelo chão podem causar acidentes graves. A criança tende a levá-los à boca, nariz ou ouvido
O afogamento é um tipo de acidente doméstico que quase sempre resulta em morte. Um problema que não acontece só em casas que têm piscina; Bauru já registrou casos de crianças que se afogaram em banheiras, tanques e até em baldes. Segundo o pediatra, isso acontece porque a criança costuma se debruçar sobre as coisas. Se perde o equilíbrio e cai com a cabeça dentro de um balde, bacia ou tanque, as perninhas não alcançam o chão para ela voltar. Não havendo alguém por perto para socorrer, ela vai se afogar.
Por isso, ao colocar uma roupa de molho, é necessário deixar o recipiente em um lugar alto. Na hora do banho, a criança não deve ficar sozinha dentro da banheira nem por um minutinho. Se for brincar na piscina, só com um adulto olhando bem de perto e, de preferência, usando bóias de braço.
"No verão, as crianças brincam mais com água, então os pais têm que tomar um pouco mais de cuidado. Tem piscina em casa? Tem que cobrir ou cercar. Porque mesmo que os seus filhos saibam nadar, não se pode esquecer que junto com o filho pode ter um amiguinho que não sabe nadar. Os que sabem pulam na piscina e aquele pula no embalo. Sem saber nadar, se afoga."
O médico ainda chama a atenção para o hábito de nadar em rios e lagoas: o fundo está cheio de mato,
árvores, lodo. E a pessoa pode se enroscar, ficar presa debaixo da água e, mesmo sabendo nadar, sem auxílio, vai morrer afogada.
Asfixia
Atrás das quedas e queimaduras, os casos de asfixia também movimentam o Pronto-Atendimento Infantil (PAI) em Bauru. Não raro surge um bebê que ficou sufocado entre cobertores, travesseiros e lençóis. Ou crianças que dormiam na cama com os pais e foram sufocadas por estes. Porém, os casos mais comuns de asfixia infantil são por leite e pequenos objetos.
A asfixia causada pelo leite é chamada de mecânica. Acontece quando a criança regurgita dormindo e o vômito fica parado na garganta, impedindo a passagem do ar. É um acidente que pode facilmente ser evitado, colocando-se a criança para arrotar depois de cada mamada e mantendo-a deitada de bruços no berço. Nesta posição, se o leite voltar, vai escorrer pela boca, deixando as vias respiratórias livres. Se estiver com a barriga para cima, a criança vai engasgar com o leite.
Brinquedos
"A asfixia por brinquedos também é outra coisa importante. São peças pequenininhas que os pais colocam para a criança brincar. Quando voltam, a criança engoliu um pedaço, uma peça do joguinho ou um botão. Isso pode ficar enroscado na garganta e sufocar", ressalta Felinto.
Ele lembra que todos os brinquedos têm discriminado na embalagem para qual faixa etária ele é indicado. Isso deve ser respeitado na hora da compra. Essa dica vale também para objetos deixados ao alcance da criança. Muitas vezes, um palito de fósforo deixado no chão; ou uma simples peça de roupa: a criança arranca um botão e engole, ou enfia no nariz, no ouvido. Ou um palito de fósforo deixado no chão.
Em qualquer situação, a brincadeira da criança precisa ser sempre vigiada, mesmo que disfarçadamente. Colocar um saco plástico na cabeça pode ser fatal. Esconder dentro de um armário pouco ventilado também.
Intoxicação
"Todo medicamento deve ser mantido fora do alcance de crianças"
é o que diz o rótulo de qualquer produto farmacêutico e químico. Mesmo assim, ainda há casos de intoxicação de crianças por remédios, produtos de limpeza e até venenos. Evitá-los é absolutamente possível mantendo-se todas essas substâncias em armários trancados ou em lugares bem altos.
"Esses acidentes não podem acontecer. A criança não vai colocar na boca uma coisa que está longe de seus olhos. Ela vai colocar na boca aquilo que ela achou pelo chão. O produto de limpeza que estava na garrafa de refrigerante que ela já conhece. Ou a planta que está ao seu alcance", comenta o médico. "É muito difícil uma criança colocar um banquinho, subir, para pegar uma coisa que esteja bem guardada. Ela pega o que está perto da mão."
Descuido ou negligência?
Como o próprio nome indica, um acidente não acontece porque alguém esteja planejando, claro. Porém, todo acidente pode ser evitado com uma boa dose de atenção e prudência, o que nem sempre é observado.
Na opinião da diretora clínica dos pronto-socorros municipais de Bauru, Maria Regina Trotta Pinheiro, um adulto negligente pode levar uma criança a um acidente. "Por exemplo, se deixar uma panela no fogo e uma criança sozinha na cozinha. Ou jogar álcool numa churrasqueira acesa havendo uma criança por perto. As pessoas precisam se preservar, mas não se esquecer de também preservar os outros."
Já o diretor do Pronto-Atendimento Infantil (PAI), Felinto dos Santos Neto, defende que há muitos casos de acidentes por simples descuidos. "A gente mesmo faz isso no dia-a-dia. Um pai que passa horas do dia sem ver o filho e quando vê, acaba permitindo que ele fique na frente no carro só para aproveitar sua companhia, desconsiderando os riscos."
Ele afirma que negligência seria saber que uma coisa vai acontecer e não fazer nada para impedir. Mas ressalta que há situações que ninguém acredita que possam existir, mas existem. "Por exemplo, se há uma panela no fogão e a mãe deixa a criança brincando ali no chão, é negligência. Mas supondo que a mãe não esteja na cozinha e a criança entre lá, mexa no fogão e a panela caia... aí não foi negligência, porque a mãe tinha que pôr a panela ali, mas por um descuido, a criança entrou."
E Felinto conclui: "Dá para evitar tudo? Não dá. Não tem como evitar todo tipo de acidente. São detalhes que você às vezes deixa passar e as coisas acabam acontecendo. O que os pais têm que entender é que quanto mais cuidado ele tomar, esse detalhe vai ser cada vez menor. Então, o acidente vai ser também cada vez menor. Ou seja, se seu filho colocar o dedo numa tomada e levar um choque, é muito melhor do que virar uma panela de água quente nele. São descuidos diferentes. É a seleção de acidentes. Você tem que evitar os mais graves. Assim, mesmo que o acidente aconteça - porque eles vão acontecer - as conseqüências vão ser menores."