Números aumentam durante as férias
Texto: Sabrina Magalhães
Metade dos atendimentos de urgência no Pronto-Atendimento Infantil é por algum acidente doméstico
A combinação de verão e férias é responsável, anualmente, por um aumento considerável nos casos de acidente doméstico. Neste período, as crianças passam mais tempo brincando, estão quase sempre soltas no quintal ou na rua e, por tudo isso, mais expostas ao perigo. Evidentemente, é impossível eliminar todos esses riscos, mas um olhar mais atento dos pais e responsáveis a determinados detalhes sugeridos por especialistas pode, se não evitar, pelo menos amenizar as conseqüências de um acidente. De acordo com o pediatra Felinto dos Santos Neto, diretor do Pronto-Atendimento Infantil (PAI) em Bauru, os acidentes domésticos mais comuns com crianças são as quedas. Nos primeiros meses de vida, os pais devem ter cuidado de não deixar o bebê sozinho em camas, sofás ou trocadores. Ele ainda não anda, mas pode virar-se e cair. Quando começa a engatinhar e andar, a atenção dos adultos deve estar voltada, principalmente, para degraus e escadas. As janelas também são uma ameaça constante: é preciso manter banquinhos, sofás, mesas e cadeiras bem longe delas. A tendência é a criança arrastar esses móveis até a janela para subir e olhar para fora. Só que ela pode se debruçar sobre o peitoril e cair. Por isso, o ideal é adaptar grades e redes de proteção nestes locais. Síndrome do tanque
"Outra coisa que a gente vê bastante são as síndromes do tanque e do fogão. É quando a criança vai subir no tanque e o próprio tanque ou fogão cai em cima dela. Este é um acidente muito comum, principalmente nas casas de periferia, onde o tanque fica solto da parede. A criança vai subir e ele vira. E aí o tanque ou o fogão caem exatamente em cima do abdômen e causam um trauma muito grande, podem gerar uma lesão importante. Pode matar se houver um rompimento de vísceras, um baço ou fígado. A criança corre o risco de sofrer uma hemorragia, entrar em choque e morrer." Esse acidente não acontece só com tanques e fogões, mas também com estantes, armários, bicicletas e qualquer outro móvel que possa despertar na criança a vontade de "escalar" para descobrir o que há lá em cima. Vale lembrar que a criança é curiosa e inocente. Que ela pode puxar a ponta de uma toalha de mesa, por exemplo, e derrubar um vaso sobre si mesma. Ou puxar um cadarço no armário e levar uma sapatada no rosto. Quando se levam em conta todos esses detalhes, previnem-se vários acidentes domésticos. Choque elétrico
Questionado a respeito dos acidentes envolvendo energia elétrica, o pediatra lembra que é muito comum a criança levar um choque dentro de casa, seja por colocar o dedo numa tomada, seja por puxar um fio que esteja ligado à tomada. Ele lembra que usar protetores de tomada é um excelente recurso. E que raramente um choque doméstico tem conseqüências sérias. "Não é nada grave, como acontece quando o choque acontece em fios de alta tensão. O choque doméstico é um acidente de momento, não tem muito o que fazer depois." Queimadura deixa seqüelas
Na opinião de Felinto, as queimaduras são acidentes domésticos mais complexos que as quedas. Isso porque a criança que cai pode bater a cabeça ou fraturar um membro, mas geralmente tudo não passa de um grande susto. Já uma queimadura quase sempre deixa seqüelas por toda a vida. Sem contar a dor, que se prolonga por vários dias.
"Além da queimadura que acontece porque a criança estava brincando com fogo, usando fósforos, acendendo uma fogueira ou soltando bombinhas, existem as queimaduras acidentais mesmo, da criança que vai mexer no fogão e uma panela de água quente vira sobre ela." Portanto, o primeiro passo para se evitar que uma criança se queime é afastá-la do fogo. Proibi-la de brincar com fósforos ou perto de churrasqueiras e fogões. Uma criança que está começando a andar costuma se apoiar em qualquer coisa para levantar e pode, por exemplo, colocar a mão na porta de um forno que está quente, ou nas laterais de uma churrasqueira em brasas. Acima de tudo, é necessário mudar a forma como se usa o fogão numa residência. Quando ele estiver sendo usado, a porta da cozinha deve permanecer fechada. Se isso não for possível, as panelas devem preferencialmente estar na parte de trás do fogão e com os cabos todos virados para a parede. Lembrando ainda que, na cozinha, não é só o fogo que oferece perigo, mas facas, garfos, copos, louças e muitos outros objetos. Por isso, o melhor seria que a criança só tivesse acesso a este cômodo da casa no horário das refeições. Atropelamentos dobram nas férias
De acordo com o pediatra Felinto dos Santos Neto, o número de atropelamentos registrados no PAI chega a dobrar no período das férias. Ele ressalta que não são muitos os casos, mas se em média são registrados um ou dois casos por semana em períodos de aula, nas férias isso aumenta para três ou quatro. Isso porque, segundo ele, nas férias as crianças passam mais tempo brincando nas ruas, saem de bicicleta, vão jogar bola com os amigos. Uma boa orientação quanto aos cuidados no trânsito pode ajudar a diminuir esses índices. Questionado sobre o número de casos de acidentes domésticos atendidos no PAI, o médico salienta que não chega a 1% do total de pacientes. "Mas se formos considerar só os casos de urgência que chegam ao pronto-socorro, então esse número pula para 50%. Quer dizer, muitas crianças são levadas ao PAI para tratar doenças que poderiam ser tratadas em consultório. Das crianças que nos chegam em situação de urgência, metade é vítima de acidente doméstico."