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Gel para cárie

Ana Maria Ferreira
| Tempo de leitura: 7 min

Pesquisadora bauruense é pioneira no uso do gel para retirada da cárie

Texto: Ana Maria Ferreira

O produto desenvolvido na Suécia facilita a retirada da cárie com menor traumatismo e rapidez. É indicado para pacientes que adquiriram medo de dentista, crianças e pessoas especiais

A equipe de pesquisadores suecos, liderada pelo professor Dr Dan Ericson, do Departamento de Cariologia da Faculdade de Odontologia de Malmo da LUND University, na Suécia, desenvolveu uma substância gelatinosa de cor avermelhada que dissolve a cárie do dente, sem que haja a necessidade do uso de motorzinho. O produto batizado com o sugestivo nome de carisolv age somente no tecido "doente" deixando intacto a parte saudável do dente, sem o menor risco para o paciente. O gel leva aproximadamente 30 segundos para fazer efeito, mudando de coloração, do vermelho para o marron, indício de que a cárie já está pronta para ser retirada. Nessa hora entram em ação as hábeis mãos do dentista, utilizando-se de curetas

(instrumento indicado para remoção da cárie) especialmente projetadas pela equipe do Dr Dan Ericson, com vistas a causar o menor desgaste possível do dente.

Aqui, do outro lado do mundo, o carisolv vem sendo utilizado pela professora e pesquisadora Graziela Almeida Prado P. Marafiotti, da Universidade do Sagrado Coração, que desde 1998 integrou o gel no desenvolvimento de seu trabalho de pesquisa sobre tratamento atraumático, na área de saúde coletiva. Graziela desenvolveu técnicas que permitem efetuar o tratamento dentário sem o uso de energia elétrica, no que a presença do Carisolv só vem a colaborar como facilitador do tratamento.

A pesquisadora conta como conheceu o Dr Dan Ericson e o carisolv e como ele acabou se tornando seu orientador no mestrado.

Jornal da Cidade - Como foi que você conheceu o professor Dan Ericson e o carisolv?

Profª Graziela Almeida Prado P. Marafiotti

- Em 1997 estive na Suécia para aprender a utilizar o Carisolv, depois de participar de um congresso onde o professor Dan Ericson apresentou o produto que veio de encontro ao meu projeto de pesquisa na área de saúde coletiva. Faço um trabalho denominado "tratamento restaurador atraumático", que consiste na retirada da cárie e restauração o dente sem o uso de energia elétrica, só com o apoio de material instrumental, justamente para beneficiar as pessoas das regiões menos assistidas. Eu mostrei meu projeto a ele e foi empatia instantânea pelo tema, tanto que ele se tornou meu orientador no mestrado. O gel tem a vantagem de facilitar o atendimento dos pacientes fora da clínica: favelados, tribos indígenas, crianças especiais.

JC - Qual a importância da descoberta do carisolv?

Profª Graziela - O carislov não é a decretação do fim do uso do motorzinho. O profissional deve saber discernir quando é o melhor momento para utilizá-lo. Por exemplo, existem pacientes que têm medo, e o gel é a opção para a efetivação do tratamento. Se o dentista tem que se deslocar até um hospital psiquiátrico, para fazer o atendimento de uma criança especial, e pode usar o gel evitando a anestesia e o motor, é muito melhor. Mas existe a indicação certa, não acredito que seja para todos os casos.

Trabalhamos com crianças entre 3 a 4 anos que tem todos os dentes cariados e é normal que elas sintam medo do tratamento. Nesses casos, a gente pode começar o trabalho com o Carisolv, removendo a cárie e mostrando que isso não é um bicho papão.

JC - O gel pode ser utilizado em qualquer tipo de cárie? Há alguma restrição de uso?

Profª Graziela - Isso ainda está em discussão, já chegamos a tratar cavidades médias, mas pode acontecer do profissional estar em área de campo ou diante de uma emergência e é possível utilizar o carisolv numa cavidade profunda no caso de não haver outra opção, no meu ponto de vista. Eu só indico e procuro trabalhar em cavidades médias, porque em cavidades profundas toma-se outros cuidados, principalmente com relação a canal. No ano passado, durante um encontro de tratamento autramáutico, na FOB, pude contactar um profissional da Tailândia que usa o carisolv em cavidades profundas, devido a falta de condições das pessoas para terem um tratamento, pior que no Brasil.Não há restrição de uso, atendemos até um grupo de bebês .

JC- Você vê alguma desvantagem no uso do carisolv? O tempo de tratamento

é maior do que o método tradicional, segundo reportagem publicada recentemente ?

Profª Graziela - Pelo contrário, não é esse resultado que tenho encontrado na minha pesquisa. Como trabalho fora do ambiente clínico preciso de agilidade e rapidez, o que no consultório também é indicado, e o carisolv não leva mais que 30 segundos para amolecer o tecido cariado.

JC - Qual

é o custo do carisolv ? O paciente pagaria muito mais pelo uso do produto?

Profª Graziela - Estamos discutindo em conjunto, porque nem mesmo o professor Dan Ericson tem idéia de quanto seria o custo final do produto no Brasil. Tenho informações de profissionais que participaram de um congresso de odontologia onde o kit do produto estava sendo vendido em três parcelas de R$ 300,00, mas não tenho certeza sobre isso.

Agora, com relação ao custo-benefício para o paciente, só o fato do tempo de tratamento ser menor, a ansiedade reduzida, no final no custo compensaria.

JC - O que contém o kit do produto?

Profª Graziela - Basicamente ampolas, com 5 ml cada, de hipoclorito de sódio e uma outra de amino-ácidos, que misturadas resultam no gel de cor avermelhada, e mais quatro instrumentos que chamamos de curetas, que são aquelas hastes com gancho na ponta, especialmente desenhadas para esse fim. Esse é o kit do carisolv que foi desenvolvido, em todas as suas etapas, pela equipe do professor Dr. Dan Ericson. Para o profissional utilizar o kit ele precisa antes se credenciar a passar por treinamento.

JC - O kit é suficiente para atender a quantos pacientes em média?

Profª Graziela - Na minha pesquisa também estou analisando isso, assim como o tempo de trabalho, a sensibilidade, mas ainda não fizemos a tabulação dos dados estatísticos, e portanto não temos os números corretos para apresentar. Dentro de algum tempo tudo estará pronto. O que dá para saber é que a mistura das ampolas não pode ser guardado, deve ser totalmente utilizado ou descartado. Desse modo, procuramos utilizá-lo em série, quando temos quatro ou cinco crianças, por exemplo, sendo atendidas juntas. A parte de cada uma é dividida e assim o uso do carisolv é otimizado.

JC - Você acredita que o gel deva ser usado em larga escala?

Profª Graziela - Pelo que tenho observado junto aos pacientes acho que o trtamento vai ser muito bem-vindo. O que não podemos é deixar a critério do paciente a escolha, senão ninguém mais vai querer o tratamento tradicional, e sim o laser.

JC - Poderíamos comparar o carisolv com o laser?

Profª Graziela - Em relação a ansiedade do paciente acho que os dois são excelentes, mas no âmbito da saúde pública, por exemplo, não daria para levar o laser até um local sem energia. Do ponto de vista da aceitação, da praticidade de trabalho, depois que você domina a técnica e conhece o material que está utilizando, os dois são eficientes, cada um na sua especialidade. Isso não significa que todos os dentes de todos os pacientes possam ser trabalhados como carisolv ou com o laser, tem que se levar em consideração o paciente, o dente, a extensão da cárie para se decidir sobre o melhor tratamento. É mais uma opção, principalmente para os pacientes que tem receio de dentista.

JC- Nos congressos dos quais você participa, principalmente internacionais, qual é a imagem do Brasil? Ainda somos considerados um país de banguelas?

Profª Graziela - A nossa imagem não é mais a de um país de banguelas, mas sim de que temos cárie, que é uma doença infecto-contagiosa. Então, se os pais têm cárie automaticamente os filhos também terão. Essas descobertas na área preventiva nos ajudam atingir a meta da OMS, que é de uma população de 6 anos de idade com índice zero de cárie, em 2010. Temos que falar em vários fatores para a erradicação da cárie, higiene, educação, prevenção e outros, mas nos confrontamos diretamente com a realidade, onde nossas crianças não tem pasta e escova. O projeto Sorri Bauru custa R$ 2,00 por ano para cada criança e, mesmo assim, não conseguimos dar pasta e escova para todas.

É um custo insignificante diante do ganho em saúde.

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