Geral

Abertura do comércio

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 9 min

Horário do comércio gera polêmica em Bauru

Texto: Patrícia Zamboni

O resultado da votação dos trabalhadores do comércio em geral, que decidiram por maioria (785 contra 269) pela não abertura das lojas do centro todos os sábados até as 17 horas este ano, está causando polêmica na cidade. Como o Jornal da Cidade já havia adiantado na edição de ontem, o Sindicato do Comércio Varejista de Bauru - SinComércio (patronal) vai agir juridicamente com o objetivo de reverter essa situação e fazer com que o comércio central da cidade volte a atuar no mesmo sistema dos últimos dois anos. Com o resultado da votação desta segunda-feira, a partir do dia 1º de março o comércio passa a funcionar até as 17 horas apenas no sábado após o quinto dia útil do mês. Nos outros sábados, o atendimento será até as 13 horas.

De acordo com o presidente do SinComércio, Walace Sampaio, o sindicato patronal "não vai desistir da abertura

(do comércio) todos os sábados até as 17 horas". "Isso é prejudicial a Bauru e nós vamos buscar todos os caminhos legais para obter a reversão dessa situação", afirma Sampaio. Segundo ele, a diretoria do SinComércio tem a preocupação de agilizar a prática dessa intervenção do departamento jurídico da entidade porque o acordo feito com os trabalhadores expira no dia 28 deste mês. "Estamos preocupados com o prazo, porque se não conseguirmos uma solução até a primeira semana de março, no dia 4, que é um sábado, o comércio já não vai funcionar até as 17 horas. Então, nós temos um problema imediato para resolver e eu estou aqui em São Paulo colhendo elementos para isso", diz Sampaio. Segundo o presidente do SinComércio, está programada para hoje à noite uma reunião com o departamento jurídico da entidade com o objetivo de definir os rumos que serão tomados no sentido de reverter o resultado atual.

Na opinião de Walace Sampaio, que considera "lamentável" e "inadmissível" o resultado dessa votação, estima-se que o comércio central de Bauru apresente uma perda no volume de arrecadação da ordem de 10% a 15% ao mês. "Para as empresas que abrem todos os sábados

à tarde, já que não são todas que fazem isso, o sábado é o melhor dia de vendas da semana. Por isso, a perda será significativa com essa mudança de horário. E a pressa que temos em resolver isso não

é apenas pelo lado do faturamento. Tem um outro lado que foi esquecido, que é o do desemprego. Com essa redução de vendas e as lojas ficando abertas menos horas, o lojista terá menos problemas de rodízio (de funcionários), portanto, vai haver uma adequação de empregos a partir de março com a redução do número de vagas no mercado. Nós não queremos isso", ressalta Walace Sampaio. Com a rejeição da proposta feita pelo sindicato patronal aos trabalhadores, eles deixam de receber uma cesta básica mensalmente e alimentação

(almoço) em todos os sábados a partir de março. Vale lembrar que no próximo dia 11 o comércio abrirá até as 17 horas, pois será o primeiro sábado após o quinto dia útil do mês.

Para Walace Sampaio, a falta de informação dos trabalhadores do comércio influenciou no resultado da votação.

"Nós respeitamos o resultado, mas houve um nível de desinformação muito grande. Inclusive ontem (segunda-feira) circulou um panfleto, de autoria do vereador Paulo Agostinho, no centro da cidade incitando o comerciário a votar não porque a proposta que estava sendo apresentada iria acabar permitindo o comércio abrir à noite e aos domingos. Então, o nível de desinformação chegou a esse ponto. O resultado disso é que o acordo que vinha sendo renovado há três anos não teve aprovação este ano", observa Sampaio.

O vereador Paulo Agostinho se defende dizendo ter certeza de que os panfletos não influenciaram no resultado da votação e que sua intenção foi informar melhor os trabalhadores.

"O Sindicato dos Comerciários publicou o edital de forma legal, mas a categoria tem uma certa dificuldade de acesso ao jornal. Então, eu tirei algumas xerox do edital e distribuí para que eles ficassem bem informados a respeito do que estava acontecendo. A partir daí, os próprios comerciários formaram sua opinião e votaram da maneira que acharam melhor. Eu não acredito que eu tenha influenciado no resultado da votação", diz o vereador.

De acordo com Agostinho, o resultado da votação

é o reflexo da situação em que se encontram os trabalhadores atualmente. "Esse resultado nada mais é do que o reflexo do próprio tratamento que vem sendo dado aos trabalhadores ao longo desses dois anos que o comércio abriu até as 17 horas todos os sábados. Os comerciários estão à disposição, mas precisam ter o seu valor reconhecido. Eu entendo que o valor da categoria não está sendo reconhecido. Se eles trabalham a mais, precisam receber algo por isso", analisa Paulo Agostinho.

Trabalhador não vê vantagem em trabalhar mais

Texto: Patrícia Zamboni

Para Edson Quintiliano Júnior, assessor de comunicação do Sindicato dos Empregados no Comércio de Bauru (SECB), o resultado da votação é o reflexo de uma série de motivos; não se deve apenas à rejeição da proposta que foi apresentada pelo SinComércio. "Em primeiro lugar, quando a proposta do comércio abrir todos os sábados até as 17 horas começou a vigorar, dizia-se que com o passar do tempo o consumidor iria se acostumar, e cada vez mais ia aumentar o movimento no centro. Ao mesmo tempo, seria necessária uma contratação maior de mão-de-obra e que haveria um maior volume de vendas. Pelo que nós verificamos conversando com os trabalhadores, isso não aconteceu. Eles dizem que não houve um aumento significativo nas vendas e que não houve aumento na contratação de empregados. Não temos instrumentos de medição para comprovar isso com exatidão. Mas ninguém melhor do que os trabalhadores para falarem sobre isso", diz Quintiliano Júnior.

De acordo com o assessor, segundo os trabalhadores eles também não tiveram aumento de salário. Ou seja, para eles não havia nada que justificasse o trabalho adicional de todos os sábados até as 17 horas, mesmo com o fornecimento de cesta básica e alimentação. "Diante desses fatores, a maioria dos trabalhadores diz que não existem elementos fortes que justifiquem para eles abrir mão do convívio com a família para trabalhar mais aos sábados. É claro que existem outras opiniões, mas a assembléia é justamente para isso, e o resultado foi que 74% disse não. Mesmo as ameaças de demissões não impediram esse resultado. Então, acho que a insatisfação por parte dos trabalhadores estava realmente grande", analisa Edson Quintiliano Júnior.

Na opinião do assessor de comunicação do SECB, baseada nas informações colhidas com os trabalhadores, grande parte dos envolvidos no trabalho do comércio central não acredita que haja um número considerável de demissões pelo fato de muitas lojas já estarem trabalhando com o mínimo de funcionários necessários.

"Desde o plano Collor está havendo um processo de enxugamento. Muitas lojas estão trabalhando no limite, ou seja, se diminuir o número de funcionários pode até prejudicar o atendimento e comprometer os comerciantes", comenta Quintiliano Júnior.

O presidente interino da Câmara dos Dirigentes Lojistas

(CDL), Sérgio Evandro do Amaral Motta, tem ainda outra opinião sobre o assunto. Ele, que também é contra o resultado da votação, diz que agora o comerciário vai trabalhar mais e ganhar menos. Ele faz as contas baseando-se no fato de que quando o comércio abria até as 17 horas todos os sábados, o trabalho iniciava-se às 9 horas. Agora, abrindo somente um sábado até esse horário, o comércio passará a iniciar as atividades às 8 horas da manhã. "Fazendo as contas, no horário novo os comerciários vão trabalhar cinco horas a mais por semana do que estarão trabalhando até o fim desse mês. No final de um mês, já serão 20 horas a mais contando só os dias de semana. Somando a isso o trabalho de três sábados até as 13 horas e um até as 17 horas, o total em um mês será superior a partir de março. Então, por quê eles vão ganhar menos? Pois agora eles perdem a cesta básica e também devem ganhar menos comissão, porque para a maioria das lojas, o sábado depois do almoço

é o melhor em vendas. Acho que ninguém percebeu isso para votar assim. Também gostaria de saber por quê só no horário do comércio da área central a Câmara dos Vereadores intervém dessa maneira? Ou todos os setores abrem ou todos fecham. Estamos voltando no tempo deixando de ter comércio todos os sábados até as 17 horas", opina e questiona Sérgio Motta.

Contramão da história

O titular da Secretaria de Desenvolvimento da Prefeitura Municipal de Bauru, Roberto Rufino, diz que "Bauru está andando na contramão da história". "O mundo inteiro está trabalhando à noite, aos sábados e aos domingos; isso é o resultado da globalização. Nós não podemos voltar no tempo. Uma cidade como Bauru, que é sede de região e tem posição privilegiada no centro do Estado, não pode ter uma definição arcaica como essa", diz Rufino, indignado.

O secretário fala também sobre a situação do empregado. "Eu também quero preservar os direitos de quem vai trabalhar todos os sábados até as 17 horas de ganhar o que merece. Ganhar uma cesta básica e almoço é ridículo. Então, tem que haver um concenso entre a classe que vai desempenhar o trabalho e a classe empregadora. Os comerciantes de Bauru têm que abrir um pouco mais a cabeça e pagar os funcionários de acordo com o que a lei exige. Isso é fundamental", diz Roberto Rufino.

Cidades da região não remuneram por horário especial

Algumas cidades da região de Bauru, de menor porte, têm funcionamento especial de comércio aos sábados mais amplo do que somente um deles até as 17 horas. Porém, os empregados não são remunerados por esse trabalho. De acordo com informações do presidente do sindicato dos empregados no comércio de Botucatu, Sérgio Ortis, há atividade comercial na região central da cidade até as 17 horas nos dois primeiros sábados do mês. Isso acontece desde o ano passado. Mas o único benefício que os trabalhadores recebem é a compensação no horário. "Eles trabalham 44 horas por semana. Ou seja, o que eles trabalharem a mais irão compensar descontando no horário de trabalho durante a semana", diz Ortis. Segundo ele, este é o esquema ideal para a cidade, pois se o comércio funcionasse todos os sábados no período da tarde, não haveria movimento.

Em Marília, o comércio central abre no primeiro e segundo sábado do mês após o quinto dia

útil. Porém, segundo informa Mário Herrera

(presidente do sindicato dos trabalhadores daquela cidade), se essa data cai na primeira semana do mês, só há atividade em um sábado. Isso já acontece há quatro anos, mas Herrera diz que não houve crescimento significativo nas vendas porque o poder aquisitivo da população não aumenta. "O pico de vendas é realmente depois do quinto dia útil", diz Herrera. Segundo ele, na semana que antecede o sábado que o comércio vai abrir até as 17 horas, as atividades são iniciadas

às 9 horas, e não às 8 horas. Em Marília os trabalhadores do comércio também não são remunerados por trabalharem até mais tarde aos sábados.

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