Sexo seguro
Texto: Gustavo Cândido
A pílula anticoncepcional, desde que foi criada, é celebrada como um símbolo da emancipação da mulher. Há mais de quarenta anos milhares de usuárias da pílulas vem repetindo o mesmo ritual de tomar o remédio por 21 dias seguidos, parar, menstruar e começar tudo de novo. Nesse espaço de tempo a pílula evoluiu, perdeu muitos de seus efeitos colaterais, continuando sempre simples e segura. Mas mesmo com essa história toda, não existe uma mulher que não concorde que ter de ficar tomando a pílula todos os dias é uma tarefa das mais chatas.
A situação, às vezes chega a ser constrangedora: quantas vezes no meio de um descontraído papo em uma festa, de repente você olhou para o relógio e se lembrou que ainda não havia tomado a sua pílula? E quantas vezes não se esqueceu de tomá-la, depois de ter chegado cansada em casa e ido dormir direto? Para a mulher adulta essas situações são comuns e até corriqueiras mas para as adolescentes muitas vezes são desesperadoras, como conta a estudante E. C. M., de 17 anos: "fiquei desesperada o dia que esqueci de tomar a pílula pela primeira vez. Não tinha feito nada mas mesmo assim deu medo".
É para se livrar dessas situações e do ritual chatíssimo da pílula que um número cada vez maior de mulheres está trocando a velha cartelinha com as bolinhas brancas, por outros métodos contraceptivos tão seguros quanto. Um deles são os anticoncepcionais injetáveis, que segundo a revista Veja, tiveram 4 milhões de unidades vendidas em 1999. Tratam-se de injeções que evitam a gravidez, que antes precisavam ser tomadas uma vez por mês mas que agora já podem ser aplicadas a cada três meses.
A outra alternativa, embora eficiente, não deve ser usada de uma maneira contínua. É a chamada pílula do dia seguinte que, em apenas seis meses de comercialização nas farmácias brasileiras, já totalizou 230.000 caixas vendidas, segundo a Veja.
Sem menstruação
Apesar dos números, a posição de número um do ranking ainda pertence à pílula tradicional, da qual foram vendidas 60 milhões de caixas em 99. O detalhe
é que, enquanto esse número vem caindo nos últimos três anos, o das concorrentes aumenta sem parar. Em Bauru a pílula ainda reina, "vende muito mais do que os injetáveis", diz o gerente de uma drogaria do centro da cidade, "mas os novo métodos também têm suas consumidoras fiéis", garante.
Existe uma série de medicamentos anticoncepcionais injetáveis no mercado, como o Cicloruvar, Cyclofemina, Mesigyna, Uniciclo, Depo-Provera e Perlutan. O último, segundo o gerente da drogaria é o mais vendido. Mas o grande destaque desta lista fica com o Depo-Provera que pode ser vendido em uma dose pequena (50mg), que garante a mulher por um mês, ou numa maior (150mg), com efeito por três meses. Trata-se de um remédio composto de progesterona sintética que suspende a ovulação da mulher por noventa dias.
Se forem tomadas sempre uma após a outra, as doses mensais
(ou trimestrais) acabam abolindo a menstruação, muitas vezes um grande incômodo para a mulher. "Para mim essa foi a maior descoberta que podia ser feita, não sou obrigada a tomar pílula todo dia, como vinha fazendo e ainda por cima me livrei de cólicas horríveis", diz a dona de casa Lúcia Helena Sanches, de 36 anos.
Deixar de menstruar ainda é um assunto polêmico, sobre o qual ainda não existe nenhum estudo aprofundado. Muitos médicos e mulheres defendem esta prática dizendo que com ela a vida se torna mais fácil e menos dolorida, enquanto outro grupo (a maioria) segue acreditando que a menstruação é uma coisa natural da mulher. Contra esse argumento, o mais famoso defensor do fim da menstruação no Brasil, o médico baiano Elsimar Coutinho, autor do livro
"Menstruação, a Sangria Inútil", tem uma boa resposta: "menstruar é um fenômeno não natural. Natural é a gravidez".
Em seu livro, Coutinho lista os anticoncepcionais injetáveis como um método eficaz de suprimir a menstruação,
"o sucesso dos injetáveis em suprimir a menstruação
é superior a 70% e sua eficiência anticoncepcional
é, sem dúvida, a maior entre todos os métodos contraceptivos, igualando-se à contracepção cirúrgica", diz. O médico lembra que o efeito desse método é reversível, podendo ser usado por pacientes jovens que desejam ser mães um dia.
Como todo anticoncepcional, porém, os injetáveis também têm seus defeitos: podem engordar e causar depressão em alguns casos. Também podem diminuir a captação de cálcio do organismo e por isso não devem ser usados por adolescentes em fase de crescimento.
Salvação de bolso
As mulheres mais jovens têm sido as maiores consumidoras de outro tipo de pílula no Brasil. É o Postinor-2, a pílula do dia seguinte, que é um método barato e muito eficiente para quem não quer correr o risco de engravidar após uma relação sexual sem contraceptivos.
Segundo o ginecologista Malcolm Montgomery, discípulo de Coutinho no que diz respeito ao fim da menstruação e autor do livro "Mulher", que mais tarde acabou virando série de televisão, explica que esse tipo de medicamento só deve ser usado no caso de uma relação desprotegida, seja porque não houve preocupação na hora do sexo ou por algum acidente, como uma camisinha estourada, por exemplo.
A pílula do dia seguinte deve ser ingerida até 72 horas após a relação sexual (quanto mais rápido melhor) e foi criada para evitar a gravidez indesejada em casos de estupro, de acordo com Montgomery. Ela atua em todas as fases da concepção, dificultando a movimentação dos espermatozóides, a ovulação e a fecundação. Caso esta última tenha ocorrido, a pílula não deixa o óvulo fecundado se fixar no útero.
"É importante que se divulgue a capacidade dessa pílula como método de evitar uma gravidez indesejada", afirma Montgomery. Mas o ginecologista alerta que a pílula do dia seguinte é um método de emergência e não deve ser usada constantemente, pois pode desestabilizar o funcionamento hormonal, irregularizar o ciclo menstrual e "bagunçar tudo", como resumiu o médico. Outros efeitos colaterais desagradáveis para quem usar a Postinor-2 sempre podem ser náuseas, tontura e dor de cabeça, por isso seu uso não deve ser rotineiro.