Padre organiza escola de samba em Santa Cruz
Texto: Fábio Grellet
A idéia surgiu às vésperas do Carnaval do ano passado; grupo cresceu e já conta com quase mil fiéis-foliões
A cidade de Santa Cruz do Rio Pardo assiste, pelo segundo ano consecutivo, a um desfile carnavalesco organizado por um padre. O pároco Esdras de Moraes Freire é responsável pela Paróquia de São Benedito e, desde o ano passado, organiza também a Escola de Samba Unidos de São Benedito, que este ano já ganhou a adesão de 970 foliões.
O padre explica que a idéia surgiu quando, às vésperas do Carnaval de 1999, ele ouvia um compact-disc gravado por um grupo musical católico chamado Banda Êxodo. No CD, o grupo gravou um samba-enredo que discorria sobre a co-redenção de Maria. Empolgado com a música, o padre decidiu organizar um bloco carnavalesco que a utilizasse durante um desfile. Assim foi feito, e a idéia foi adotada por aproximadamente 350 foliões, que desfilaram ao som do samba-enredo gravado pela Banda Êxodo, executada por um carro de som.
Neste ano, o grupo cresceu consideravelmente: com quase mil pessoas, a escola de samba desenvolveu um enredo sobre as dez pragas do Egito. São sete alas e três carros alegóricos, além da bateria - esta, composta por 110 instrumentistas. As fantasias, conforme frisa o padre, são desenhadas pelo grupo que auxilia o padre - ao todo, 56 pessoas - e nada têm de libidinoso.
A comissão de frente, nas cores dos cinco continentes, representa pombas e simboliza o Jubileu 2000. A primeira ala trata da primeira praga: "Da Água da Vida ao Sangue da Morte". A ala seguinte trata da segunda praga: "As rãs que se lançam das águas e se espalham pelo Egito". Segue o primeiro carro alegórico, que simboliza a corte do Faraó. A ala seguinte trata da terceira e quarta pragas
- o pó da terra, que foi convertido em mosquitos a infestar todo o Egito, e depois as moscas, que invadem as casas. Seguem o casal de mestre-sala e porta-bandeira, Fátima e Júlio.
Depois, vem a bateria, composta por 110 ritmistas. Segue o segundo carro alegórico, que representa a quinta praga: "Mortandade dos animais". A quarta ala desfila em seguida, representando a sexta praga: "Gafanhotos que comem todas as plantações". A quinta ala simboliza as trevas que cobrem o Egito. Atrás dela, o terceiro carro, que representa a Páscoa dos judeus e simboliza a alegria da libertação recebida através da décima praga, que é a morte dos primogênitos. Por fim, desfila a ala do Vai Quem Qué, composta por foliões que aderiram à escola na última hora e, por isso, não tiveram tempo de confeccionar suas fantasias.
Apoio
O padre Esdras diz ter recebido todo o apoio dos fiéis, embora no início muitos tenham estranhado a proposta de criar uma escola de samba: "Algumas pessoas questionaram a iniciativa, e então eu expliquei que o Carnaval é uma festa que nasceu na igreja. Na Itália, antes da quaresma, era realizada uma festa que simbolizava a despedida ao consumo de carne, proibido até o sábado de aleluia. Era o Adeus à Carne, ou Carne Vale, no dialeto usado em Milão, na época". O padre destaca que, da forma como é realizado atualmente, o Carnaval perdeu seu sentido inicial, mas, através da escola de samba, ele pretende mostrar que é possível resgatar o espírito com que foi criado o festejo, marcado pela alegria, respeito e moralidade.
A Escola de Samba Unidos de São Benedito vai desfilar hoje
à noite. Os foliões vão se concentrar em frente à Igreja Matriz de São Benedito, onde vai ser rezada uma missa. De lá, saem em direção ao Clube dos Vinte, onde vão se recolher até a terça-feira, num evento denominado Folia Cristã. Na terça-feira
à noite, realizam o desfile no sentido inverso, saindo do clube em direção à igreja.
Samba-enredo: "Os Prodígios de Moisés"
(Eu já falei)
Eu já falei escute bem
Vou repetir (vou repetir)
É Jesus Cristo
Quem comanda isso aqui (eu já falei)
Eu já falei escute bem
Vou repetir (vou repetir)
É Jesus Cristo
Quem comanda isso aqui (andando)
Andando nos anais da nossa história
Eu me deparei (me deparei)
Com Moisés no monte Hereb
Recebendo ordens de Deus
Moisés obedeceu a voz suprema
E foi ao Faraó, com Aarão
Faraó endureceu seu coração
E a Moisés não deu ouvido não (Deus falou)
Tira meu povo dali (dali do Egito)
Leva meu povo pra lá (pra Canaã)
Leva meu povo para me louvar
Aarão tomou o seu cajado,
E feriu as águas do rio
Foi a primeira praga
Água em sangue se tornou (Deus falou)
Tira meu povo dali (dali do Egito)
Leva meu povo pra lá (pra Canaã)
Leva meu povo para me louvar
Aarão ergueu a mão e o cajado
As águas do rio se encantaram
Assim foi a segunda praga
Contra o Egito rãs da água se lançaram
O pó em mosquitos convertido
Moscas confirmaram o veredicto
Morte, tristeza, gafanhotos
Trevas cobrem o Egito (Deus mandou)
Tira meu povo dali (dali do Egito)
Leva meu povo pra lá (pra Canaã)
Leva meu povo para me louvar
Morrerá todo o primogênito
Anunciou Moisés ao Faraó
Desde o filho do rei
Ao do escravo que faz girar a mó
Tira meu povo dali (dali do Egito)
Leva meu povo pra lá (pra Canaã)
Leva meu povo para me louvar
A Páscoa do Senhor aconteceu
Em todo o Egito fez-se um grande clamor
Entristecido Faraó diz a Moisés e Aarão
Ide com teu povo prestar culto ao Senhor
O povo de Senhor saiu, saiu do Egito
O povo de Deus foi pra Canaã orar
A vontade do Senhor prevaleceu
Moisés levou o povo para a Deus louvar.