Jardim prega aliança com PDT, PT e PSB
Texto: Josefa Cunha
O presidente estadual do PPS, deputado estadual Arnaldo Jardim, afirmou ontem que o partido vai buscar alianças com o PDT, PT e PSB para as eleições municipais de outubro, embora estas legendas sejam oposição fechada ao governo Nilson Costa. O parlamentar explicou que a estratégia política do PPS é reproduzir o "diálogo nacional" - pacto de conversações e união firmado no âmbito nacional com os referidos partidos - em todos os municípios onde está organizado. A proposta
é ousada e pressupõe o apoio das legendas de centro-esquerda
à reeleição de Nilson, mas Jardim e as lideranças pepeessistas não parecem inibidas a partir para as conversações. O deputado está em Bauru para o I Encontro Estadual dos Detentores de Mandato do PPS, evento que será realizado hoje na Instituição Toledo de Ensino (ITE) e que reunirá suas principais lideranças, como o senador Roberto Freire, a bancada de deputados federais e estaduais e mais de 300 vereadores. A seguir, acompanhe entrevista concedida ao JC pelo líder do partido no Estado.
Jornal da Cidade - O PPS teve uma explosão com a entrada de Ciro Gomes no partido e de uma maneira muito rápida. Quais as expectativas do partido para consolidar esse crescimento a partir das eleições municipais?
Arnaldo Jardim - Você disse que o PPS teve uma explosão e realmente a palavra exata é essa mesmo. Apenas gostaria de precisar que a explosão ocorreu de fato no ano passado, quando não havia eleição para presidente e nem exposição do Ciro Gomes ou do partido na televisão, até por falta de quociente eleitoral. No início do segundo governo FHC, o Ciro estava com 10% da preferência e hoje já soma 20%. O PPS, em maio do ano passado, estava organizado em 150 municípios paulistas e hoje tem representação em 546, o que corresponde a 97% do eleitorado. Isso nos traz alegria, mas também nos preocupa, porque já assistimos a este filme antes. Já vimos partidos explodirem e depois não conseguir manter o crescimento. Para controlar isso, nosso compromisso é manter a coerência e o perfil do partido, porque não vamos medir o crescimento quantitativamente. Os demais partidos, aliás, precisam rever essa visão quantitativa e material. Os militantes do PPS eleitos, e desde já quero deixar avisado, vão ter que abrir mão de seus sigilos bancário e fiscal, numa forma de garantir a transparência administrativa. Esperamos ampliar muito, em prefeitos, a representatividade do partido neste ano 2000.
Jornal da Cidade - O senhor fala em coerência e perfil partidário, mas os atuais líderes do PPS não têm uma trajetória política afinada com a ideologia do partido, a exemplo do prefeito Nilson Costa, que nunca escondeu ser malufista. Mesmo o senhor já esteve longos anos ao lado do Quércia. Como explicar isso ao eleitorado?
Jardim - É realmente um desafio muito grande. O PPS tem experimentado um crescimento muito grande de vertentes políticas diferentes, mas os limites existem. A questão
ética e moral é o fundamental deles, extensivo a quem quer que seja ou de onde tenha vindo. Respeitado esse limite, nós achamos que o debate ideológico no Brasil nunca foi exatamente colocado e os partidos são muito mais uma conjunção de pessoas, de circunstâncias locais, do que de afinidades ideológicas. O PPS tem uma pregação social democrática; temos dentro do partido remanescentes que professam a ideologia marxista-leninista, enquanto o próprio Ciro não compartilha essa linha. Estabelecidos os limites
ético e moral, a unidade acaba em torno da ação política. A nossa visão, ao contrário do que faz o atual governo federal, é de um estado forte, interventor, fiscalizador e controlador.
Jornal da Cidade - O PPS é contra as privatizações?
Jardim - Somos a favor de que haja a concessão em atividades que o governo não tenha necessidade estratégica de mantê-las e da privatização de empresas com problemas estruturais de funcionamento. A privatização da Vasp, por exemplo, achamos que foi correta, mas somos contra a privatização do Banespa, pois não aceitamos a leitura que ele é uma instituição bancária inviável financeiramente. Também somos contrários
à privatização da Petrobrás, uma empresa estratégica para o Brasil, como também achamos uma irresponsabilidade a venda da Companhia Vale do Rio Doce.
Jornal da Cidade - Como está o relacionamento da bancada do PPS em relação aos governos Mário Covas e FHC? Parece que não há um posicionamento firme de oposição...
Jardim - Nós somos oposição na Câmara Federal, mas mantemos uma personalidade própria. Por exemplo, votamos a favor da Lei da Responsabilidade Fiscal, pois a julgamos muito correta. Nós temos buscado não só ter atitudes oposicionistas, mas propositivas. Já em relação ao governo do Estado, nossa postura tem sido de independência; quando achamos a matéria coerente, justa e boa, votamos a favor; quando não, votamos contra; quando temos dúvidas, partimos para a análise.
Jornal da Cidade - Como deve ser o direcionamento do PPS para coligações nas eleições deste ano?
Jardim - Nós temos uma preferência clara e a tese, que é o centro da nossa ação política, do diálogo nacional. Assim que as eleições de 1998 acabaram, o Ciro Gomes procurou o PT, o PDT e o PSB e propôs o diálogo nacional, começando a discutir em conjunto as questões nacionais em busca de soluções. O pacto passa pela escolha do candidato à Presidência na próxima eleição, que deverá ser aquele que estiver melhor. Nós estamos buscando reproduzir isso em cada município onde o PPS está organizado, priorizando a política de centro-esquerda. Há cidades que essa unidade pode variar, mas nossa busca política
é essa.
Jornal da Cidade - Bauru é uma dessas variantes. PDT, PSB e PT são oposição fechada ao prefeito Nilson Costa e até podem disputar as eleições unidos contra o PPS. Como fazer então?
Jardim - O que o partido está fazendo aqui, através do diretório e do prefeito Nilson Costa, é buscar também esse perfil. Não podemos reduzir a discussão ao que acontece no âmbito da Câmara Municipal. O Nilson assumiu a Prefeitura numa situação muito peculiar, numa circunstância de total descrédito, mas nem por isso buscou os métodos tradicionais de composição política dentro do Legislativo. Tanto é que hoje ele vive em dificuldade com os vereadores, numa posição isolada. Um pessoa que tem os instrumentos inerentes a um prefeito e que pensa tradicionalmente, certamente conseguiria a maioria na Câmara. Eu saúdo muito o fato de o Nilson não ter seguido esse caminho e repito que vamos buscar a reprodução do diálogo nacional em Bauru, ou seja, procurar conversar com o PDT, PSB e o PT, embora aqui haja uma dificuldade em dialogar com o PSB, porque o partido já tem candidato.
Jornal da Cidade - O PDT também já tem...
Jardim - O PDT eu não sabia, mas se é assim vamos respeitá-los sem problemas. A vontade de estarmos juntos numa frente para as eleições, porém, existe.
Jornal da Cidade - A resistência ao prefeito Nilson Costa tem muito a ver com o fato de ele ter sido vice do Izzo Filho, ter subido no palanque com ele e ter apoiado as propostas dele
...
Jardim - Nós reconhecemos que há esse problema, nem poderíamos ignorá-lo, mas queremos reivindicar que as discussões ocorram sob dois pontos de vista. Primeiro, sobre o que vem sendo a administração do Nilson, que é ético e sério. Esses dois pontos que deveriam ser mínimos na política e não destacados como qualidade, devem neste momento serem destacados como qualidade sim, porque é só comparar como a cidade está hoje e como estava há pouco mais de um ano. Segundo, pelo projeto que queremos para Bauru. A "casa" está chegando ao final do processo de arrumação e nós queremos ampliá-la a partir de agora.
Jornal da Cidade - O senhor fala em reproduzir o diálogo e buscar o candidato de convergência, mas o PPS não parece disposto a abrir mão da candidatura Nilson...
Jardim - Pode parecer uma contradição, mas realmente não cogitamos ficar sem candidato próprio em Bauru. Afinal, estamos no poder e queremos ser julgados pelo trabalho realizado. É por conta dessa peculiaridade que não temos a disposição de abrir mão da candidatura própria e buscamos alianças.