Geral

Exposição indígena

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Índios comemoram 500 anos de Brasil

Texto: Sabrina Magalhães

Quem visitar a exposição poderá se consultar com um pajé - curandeiro - que vem de uma aldeia conservadora do Pantanal

"O grito da selva" - Este é o tema de uma exposição que uma família de índios terena estará realizando em Bauru, a partir do dia 9 de abril, para comemorar os 500 anos do descobrimento do Brasil. Segundo eles, o principal objetivo

é permitir que a comunidade branca entre em contato com a cultura e as tradições indígenas.

A iniciativa é do Cacique Talihoo, que vive em Bauru há 50 anos. Ele promete trazer um grupo de índios de uma aldeia conservadora do Mato Grosso do Sul para apresentar algumas de suas danças típicas e peças artesanais feitas em cerâmica e tecelagem.

De acordo com Gilson Sobrinho, filho do cacique, é preciso conscientizar o homem branco da importância de se manter a tradição indígena: "Antes nós queríamos ser iguais ao branco. Hoje somos conscientes de que somos diferentes e devemos lutar para preservar essa diferença. E acreditamos que o chamado homem civilizado não respeita nossa cultura porque não conhece. Então resolvemos trazer alguns elementos da aldeia para começar esse trabalho de conscientização".

Na opinião de Gilson, o índio hoje, tal qual o negro, a mulher e os que pertencem a determinadas classes sociais, se colocam à beira da sociedade. "E nós aproveitamos esse momento para gritar, por isso o título 'O grito da selva'." Ele lembra que, de umas décadas para cá, o índio está deixando as aldeias com o propósito de ser reconhecido e respeitado. Gilson acredita, no entanto, que isso precisa ser feito com cautela, para que não se perca a tradição de origem.

Pajelança

De todas as atividades previstas para a exposição, o que deve chamar mais a atenção das pessoas é a presença de um pajé, o curandeiro da aldeia, que vem diretamente do Pantanal. Uma das figuras mais respeitadas dentro da tribo, é ele quem indica e prepara os remédios para seu povo, sempre fazendo uso de folhas e raízes encontrados no meio natural. Durante os eventos, o pajé estará praticando a pajelança, ou seja, ele vai atender e tratar as pessoas que se interessarem por seus conhecimentos.

Gilson ressalta que a exposição tem data para começar, mas que o tempo de duração vai depender do interesse demonstrado pela sociedade. Para um melhor aproveitamento, as visitas podem ser agendadas previamente. Isso vale principalmente para as escolas e professores que queiram levar seus alunos. E haverá um dia especialmente reservado para a visita de alunos especiais, portadores de quaisquer deficiências. As entidades interessadas também devem agendar. Todas as escolas cadastradas estarão concorrendo a um 'kit' indígena, com arco e flecha, um pote de barro utilitário, uma panela de barro e um cesto com zarabatana.

Serviço

A exposição será realizada no Recanto Bem-te-vi a partir do dia 9 de abril. Para a abertura, haverá uma missa campal às 9 horas, com os índios vestidos tipicamente. O telefone para agendar as visitas é 238-7584.

Vida de índio

O Cacique Talihoo veio para Bauru ainda jovem, em 1950. Aqui, encontrou uma língua que não conhecia, uma natureza bem diferente daquela do Pantanal e pessoas que se vestiam com vaidade e que caçoavam dele nas ruas. Ele lutou por um emprego, aprendeu a língua dos brancos e aqui construiu sua família. Hoje, luta para manter suas raízes.

Ele conta que vem de uma aldeia do Mato Grosso do Sul, região do Pantanal. Em 1950, o então General Rondon reuniu 30 famílias das tribos guarani e terena e trouxe para São Paulo, dando origem à Aldeia de Araribá. Chegando lá, estranhou o lugar, que não tinha rio, nem peixes, nem a natureza farta de frutas e remédios (ervas) com que ele estava acostumado. Então, fugiu da aldeia e, à pé, cruzou a rodovia Bauru-Marília, ainda em construção, a caminho de Bauru.

"Cheguei amanhecendo o dia, cansado. Estava com minha malinha, não sabia para onde vinha. E eu vi a locomotiva. Aquilo me assanhou - de medo. Os carros, a população... e naquela época só tinha a Rodrigues Alves e estava construindo a rua Bandeirantes. Uma cidadezinha pequena ainda. Mas que me deu um susto quando a locomotiva gritava, falei 'meu Deus, o que vou fazer da minha vida agora?'"

"E justamente bem na avenida tinha um hotel português, uma pensão, bati lá, veio um senhor, eu não sabia expressar a palavra de vocês, gesticulei por um quarto, ele disse que sim, perguntou 'já comeu? Senta, vamos tomar café.' Justamente no quarto que entrei tinha três pessoas que trabalhavam em Bauru, serviço braçal. Eu estava procurando serviço, não falava para eles

(não falava português), mas estava procurando. Quando amanheceu no outro dia, os três perguntaram: 'Ô Paraguai, você quer trabalhar? Então vem.'"

"Fui parar na Triagem, lavador de carro (vagões), aquelas composições de carro que vinham de São Paulo, que vinham os nordestinos, aqueles carros imundos. Comecei minha vida, minha luta, na Fepasa."

"E tinha a escola São José. Eu queria aperfeiçoar a língua de vocês, porque eu estava falando arrastado demais. Matriculei, gostei, mas passei a maior vergonha da minha vida. Como que eu iria transferir minha cultura, minha língua de terena? Foi difícil. Foi difícil entrar na minha cabeça, demorou vários meses, mas com o maior sacrifício entrou. Saí feliz. Então, minha vida é assim, vim do Pantanal, aqui em Bauru me casei, com uma matogrossense, uma patrícia (índia) e estou aqui até hoje. Eu amo estudar e quero reverter um pouco. Pela hospitalidade do bauruense, pelo carinho que recebi do bauruense, pela atenção de Bauru até hoje para mim."

Comentários

Comentários