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Mestre Cartola

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 3 min

Saudades de Cartola

Texto: Ricardo Polettini

Awê Trio presta homenagem ao sambista carioca hoje, no Sesc Bauru. Show terá cenário, figurino e bate-papo com o público sobre a vida e obra do compositor

"Cartola não existiu.

Foi um sonho que tivemos"

Nelson Sargento

É difícil aceitar que um compositor de sucesso possa ter passado sua vida inteira sem ganhar um tostão por sua obra. O fato ainda é mais inconcebível quando se trata de alguém como Cartola.

O fundador da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, apesar de despertar interesse de grandes mestres da música, como Heitor Villa-Lobos, nunca desfrutou da popularidade em vida.

Em 30 de novembro deste ano, serão 20 anos sem o criador de "As Rosas não Falam", entre muitas outras pérolas do samba carioca. Antecipando a data, o grupo Awê Trio faz hoje uma homenagem ao compositor, no show "20 Anos sem Cartola", a partir das 21 horas, na área de convivência do Sesc Bauru. A apresentação faz parte do projeto Quartas e tem entrada gratuita.

Durante a apresentação, que vai contar com a participação de músicos convidados, Audren, cantora do grupo, vai conversar com o público, contando a trajetória do compositor, sua infância, a fundação da Mangueira, suas atitudes, enfim, os altos e baixos de sua vida.

O repertório traz músicas como "O Mundo é um Moinho", "As Rosas não Falam", "Tive Sim", "Alvorada" e "Ciência e Arte", esta última, gravada por Gilberto Gil no CD "Quanta". Os arranjos serão baseados nas gravações originais. Quem gosta de samba e quer conhecer ou matar a saudade das músicas de Cartola, não pode perder.

Serviço

Show "20 Anos sem Cartola", com o Awê Trio e convidados, hoje, 21 horas, no Sesc Bauru. Grátis. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: 235-1750.

Compositor morreu pobre

Angenor de Oliveira, o poeta e compositor Cartola, nasceu em 11 de Outubro de 1908, no Rio de Janeiro, no Catete. Este dia, o Brasil e o mundo recebia um de seus cidadãos mais ilustres.

Ganhou o apelido quando trabalhava em obras e usava um chapéu coco, para não sujar os cabelos de cimento.

Foi em 1919 que Sebastião, Aida e seus sete filhos chegaram no Buraco Quente, (um bairro no morro de Mangueira). Cartola era franzino, mas muito esperto

Em uma entrevista, disse certa vez, "No meus olhos, em Mangueira só tinham uns cinqüenta barracos". E provavelmente estava certo.

Ele e seus companheiros fundaram

a Estação Primeira de Mangueira.

Sua contribuição à Cultura Brasileira, com a concepção harmônica, melodias e versos é inestimável.

Mestres da música como os maestros Villa-Lobos e Stokovsky foram ao Buraco Quente conhecê-lo e tomar conhecimento de sua obra.

Talvez pelo preconceito racial, Cartola nunca foi economicamente

bem sucedido. Trabalhou como pedreiro para sobreviver e em meados dos anos 60, o jornalista Stanislaw Ponte Preta encontrou-o lavando carros no bairro de Ipanema, e perguntou: "Você não

é o Cartola?". "Sou", foi a resposta. Isso causou muito espanto ao jornalista, que passou a ajudá-lo, tornando-o mais popular. Cartola, gravou seu primeiro disco em 1974.

Mas sua vida não foi só de tristezas.

Entre a metade dos anos 60 até sua morte, de câncer, em 30 de novembro de 1980, conheceu um pouco de popularidade (mas não dinheiro).

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