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Preconceito

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Preconceito

Texto: Gustavo Cândido

Mal polêmico, contraditório e invisível, o preconceito quando se mostra (como no recente caso do homossexual que foi mortos por skinheads em São Paulo), expõe o quão opressora, individualista e mesquinha pode ser a sociedade nesse fim de milênio. Herança cultura de

épocas imemoriáveis, o preconceito - em qualquer uma de suas formas, que mudam com o tempo - está embutido em todas as pessoas, mesmo que nem todas admitam ou tenham plena consciência disso. Na opinião de muitas pessoas, ele é mais sentido pelos negros, mas também está presente fazendo de vítimas, pessoas de baixa renda, obesos, homossexuais, idosos, portadores de doenças ou deficiências e qualquer outro indivíduo que fuja do que a sociedade padroniza como "normal".

Antes de mais nada é preciso deixar claro que, assim como a sua origem, que é remota e indeterminada, o preconceito não é um problema social que possa ter uma solução

à vista. É uma discussão complexa que talvez não resulte em uma melhoria prática com facilidade. Um dado comportamental interessante sobre o preconceito é o fato dele mostrar o quanto são contraditórias as pessoas quando falam sobre esse assunto. Ninguém, ou quase ninguém, admite ser preconceituoso, mas ao mesmo tempo todos sabem apontar um grupo que sofre mais com o preconceito, ou seja, concordam que ele existe e está presente, mas se colocam à margem do jogo.

A sensação que se tem quando se fala sobre o assunto

é que existe um próprio preconceito contra o tema

"preconceito". Uma espécie de tabu, o que leva a crer que muitos preferem se esconder, fingindo que o problema não existe, para não admitir as suas opiniões, ou que simplesmente ignoram o fato de serem preconceituosos, simplesmente por não têm consciência disso.

Modelo perfeito

A psicóloga Luciana Biem Neuber explica que o preconceito existe não só na cultura brasileira mas no mundo em geral, mas em todos os lugares é difícil de ser assumido porque lida com valores e com a moral da própria cultura, da sociedade. "O preconceito existe em várias proporções, pode ser de toda uma raça, como acontece em mais comunmente com os negros ou o preconceito simplesmente de um ambiente estranho", diz a psicóloga.

De acordo com Luciana Biem Neuber, a razão de todos os preconceitos é que, culturalmente, existe a formação de um modelo, a sociedade forma um "modelo", que é disseminado pela propaganda, pela mídia, pelas fotos, novelas, filmes, livros, por todos os ramos da informação. De um modo mais simplificado, esse "modelo" é consumido, muitas vezes até sem que se perceba, por todas as pessoas e passa a ser considerado o padrão para a normalidade. O aspecto físico, por exemplo, hoje em dia se cultua o corpo e o modelo de beleza requer um corpo magro, bem moldado e distribuido. Automaticamente, uma pessoa obesa não se encaixa nesse molde e passa a ser tratada com preconceito, mesmo que ele se manifeste sutilmente ou em forma de piadas.

Branco, bonito e culto

Na opinião da psicóloga o preconceito não se faz presente em uma pessoa desde cedo só pela educação que ela traz de casa ou da escola, mas por uma influência maior, que envolve toda sua cultura e a questão do que

é ser "normal" dentro de uma sociedade. "Mas

é claro que se de repente a família de uma pessoa

é preconceituosa, ela vai crescer assim, porém, esse preconceito da família vai ter vindo de outro lugar, da cultura dela".

Se todos os preconceitos forem invertidos, de um modo geral, a conclusão que se chega é que o "normal", para a maioria das pessoas na atual sociedade brasileira, mesmo sem que elas percebam, é ser branco, católico, rico, bonito, saudável e culto. Qualquer pessoa que não preencha (e muitas não preenchem) esses itens pode, mais cedo ou mais tarde, sofrer com o preconceito de alguém.

"A sociedade está cada vez mais individualista, buscando cada vez mais o conforto. Estamos na época do 'ter' e não do 'ser' e o preconceito vem junto com isso. O que é culto, tem um corpo dentro dos padrões, tem emprego, tem condições, acaba se adaptando ao modelo. E as pessoas seguem esse modelo, como se isso fosse o correto, o ideal", afirma Luciana Biem.

Dificuldade de enxergar

Segundo a psicóloga o caso do homossexual que foi morto por skinheads em São Paulo no mês passado serve bem para ilustrar como é difícil para as pessoas assumirem um preconceito. "Todos deram mais atenção à barbárie que foi a morte daquele homem, ao crime em si, mas não ao fato dele ter sido morto por preconceito contra a sua opção sexual", explica.

De acordo com Luciana Biem, esse comportamento, na realidade, esconde um medo muito grande da sociedade de que venha à tona, problemas mal-resolvidos que já existem há muito tempo, enraizados na nossa cultura e que nós tentamos abafar o tempo todo. Muita gente não gostaria de ter um homossexual, um deficiente mental ou uma Febem por perto, mas ninguém admite isso abertamente, então é mais fácil valorizar outros fatos do que o preconceito. Assim, a maioria das pessoas invemtam desculpas para o preconceito e não o assumem, "as pessoas tentam explicar o fato para encobrir o problema mal-resolvido".

Por outro lado, muita gente acha que não é preconceituosa até se deparar com uma situação em que o preconceito aparece, explica a psicóloga. Nesse caso é possível que muitas pessoas sejam preconceituosas sem ter consciência disso. "Como o preconceito está na cultura, é possível que ele seja assimilado automaticamente, sem que a pessoa perceba", diz.

Solução difícil

"Precisamos aceitar o outro como ele é, lidando com os preconceitos e questionando-os para saber qual a sua origem, para que eles possam acabar, ou pelo menos diminuir", explica Luciana Biem. O ideal é que a pessoa tente descobrir porque uma situação a incomoda tanto a ponto dela evitar essa situação. Muitas vezes o problema é uma questão de ponto de vista: um bêbado, sem condições, caído na rua é equivalente a um homem, com condições, que bebe demais e dá escândalo numa boate.

O preconceito também pode estar ligado à culpa, uma pessoa pode não gostar de ver um mendigo pedindo esmola e ter preconceito dele, ou pode não gostar de um morador de favela, porque isso a faz lembrar o quanto ela não faz nada para que a situação dessas pessoas mudem. "A sociedade individualista fala mais alto e as pessoas não param para pensar que fazem parte de um todo e também precisam fazer alguma coisa para a situação à sua volta mudar", ressalta a psicóloga.

Mutante

Os preconceitos mudam de acordo com o tempo e a cultura, por isso

é preciso estar bem informado também para não cair em armadilhas. Na idade média, pessoas que tinham problemas mentais eram consideradas bruxas, com os avanços da medicina foi se descobrindo que não era preciso diferenciá-las. O mesmo acontece com as doenças, os portadores de hanseníase também já foram expulsos e isolados de várias sociedades pela história. Hoje podem conviver normalmente com outras pessoas. "O mesmo vai acontecer com os portadores de aids, que sofrem discriminação, o dia que a cura da doença for descoberta", acredita Luciana Biem.

Comportamentos que hoje são considerados "anormais", de repente podem vir a ser considerados moda no próximo milênio, seja por um avanço da ciência ou apenas porque uma sociedade resolveu deste modo. Essa mobilidade de opinião, muitas vezes sem bases lógicas, talvez um dia sirva como ponto de reflexão para que as pessoas percebam o quanto seguem padrões sem se questioná-los e se tornam preconceituosas, mesmo sem querer.

Quem mais sofre com o preconceito na opinião dos bauruenses*

* Negros

* Pobres

* Homossexuais e deficientes físicos

* Mulheres

* Obesos (as)

* Outros (portadores de doenças, idosos)

* em ordem decrescente

OPINIÕES

Nas Ruas

Veja a opinião dos bauruenses sobre preconceito (da parte inferior, no sentido horário)

"Não sou preconceituoso, mas existe muito por ai, branco contra negro, negro contra branco, negro contra o próprio negro. Os gays sofrem com isso, as mulheres também. Eu já fui chamado de 'negão' e outras coisas, mas acho que por brincadeira. Não me importo com isso nem deixo de fazer o que estou com vontade por causa disso. Cada um tem que viver sua vida e não se importar com os outros"

Paulo César Ferreira, 35 anos, professor de capoeira

"Nunca fui preconceituosa, de jeito nenhum. Os negros sofrem mais com isso. Já sofri preconceito por ser gordinha, mas não ligo para isso não"

Isabella Aparecida Gonçalves, 17 anos, estudante

"Acho que não tenho preconceito. Acho que o preconceito de raça é o maior que existe, contra o negro, principalmente. Já sofri com preconceito por ser muito magra, já perdi emprego por isso"

Raquel Duarte de Araújo, 20 anos, demonstradora

"Não tenho preconceito algum. Acho que quem sofre mais são os negros. Eu não me lembro de ter sofrido com isso"

Priscila de Cássia Jodar, 18 anos, balconista

"Não sou preconceituoso contra nada. Acho que quem sofre mais com isso são as pessoas mais carentes, mais pobres. Eu não lembro de ter sofrido com isso, mas se sofri passei por cima para não ter constrangimento"

Mizael dos Santos, 53 anos, militar reformado

"Não tenho preconceito, para mim todos são iguais"

Luis Garcia Carneiro, 71 anos, aposentado

"Não sou preconceituoso. Os negros e os deficientes físicos são os que mais sofrem com preconceito. Eu nunca fui discriminado que eu me lembre"

Carlos Eduardo Cazassola, 17 anos, auxiliar de loja

"Creio que não sou preconceituoso, Infelizmente acho que os negros e os mais humildes sofrem com isso. Não sofri preconceito expostamente, mas existem situações em que você sente que é tratado com uma certa diferença até que a pessoa saiba quem você é"

José de Oliveira Filho, 37 anos, vendedor

"Não sou preconceituoso, acho que os negros, as pessoas de outras raças em geral. Já passei por essa situação por causa da cor do meu cabelo que eu tingi"

Daniel Sebastião Pires, 16 anos, estudante

"Acho que já fui, hoje não. De uma forma todo mundo é de alguma maneira. Acho que as mulheres sofrem muito com isso por causa do machismo, mas não lembro de ter acontecido comigo"

Débora Alessandra Mathias Leão, 28 anos, funcionária pública

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