Câncer de boca atinge mais os homens
Texto: Ana Maria Ferreira
Fotos: Malavolta Jr
Cerca de 90% dos casos de câncer de boca estão entre os fumantes, principalmente os homens na meia idade. Cuidados como deixar de fumar e consumir álcool em excesso podem reduzir as chances da doença
A simples menção da palavra já causa arrepios em muita gente - câncer, mas não faltam informações sobre prevenção e tratamento, este último, marcado por uma ampla concentração em pesquisas sobre a origem dos vários tipos da doença e novos medicamentos, menos agressivos, capazes de detectar a presença de células cancerígenas já no início.
O câncer de boca diagnosticado, na maioria dos casos, por cirurgiões-dentistas, representa 5% dos casos de câncer no mundo, com as maiores taxas encontradas na Austrália e no Canadá, principalmente entre a população masculina fumante e consumidora de álcool. Os fatores de risco que podem levar ao desenvolvimento de algum tipo de tumor de boca são o vício de fumar cigarro ou cachimbo, consumo de álcool, má higiene bucal e o uso de próteses dentárias mal-ajustadas. Homens
(86,7%), com idade entre 45 e 55 anos, brancos (84,84%) e tabagistas
(95,8%) representam o grupo de maior incidência dos casos de câncer de boca . A região da boca mais atingida pelo tumor é a língua, seguida do assoalho bucal e lábio inferior, de acordo com dados publicados na revista da Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas, de janeiro de 1998.
Em Bauru, a Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOB-USP), atende pacientes com tumor de boca fazendo o diagnóstico, a biópsia e o encaminhamento do paciente além do trabalho de prevenção.
Há nove anos trabalhando na área de cirurgia, o professor assistente Eduardo Santana, da FOB-USP
é o responsável pela disciplina de cirurgia maxilo-facial, especializado em cirurgia ortognática, dedicando-se a operar deformados congênitos. Essa especialidade existe no Brasil há, aproximadamente, duas décadas. Na coordenação dos trabalhos da clínica do curso de pós-graduação, o professor Eduardo Santana e seus alunos, atendem os pacientes com suspeita de algum tipo de tumor. Leia os principais trechos da entrevista onde o professor fala mais sobre o assunto e, aborda também, a importância das cirurgias corretivas como garantia de uma vida saudável e livre de problemas relacionados ao mau posicionamento ósseo.
Jornal da Cidade- Qual é a incidência de casos de pacientes com tumores malignos ou benignos atendidos na faculdade?
Prof. Eduardo Santana - O tratamento e diagnóstico de tumores é uma das atuações da nossa especialidade. Atendemos cerca de 50 pacientes por mês, na clínica da faculdade, e destes, 10% apresentam algum tipo de tumor ou lesão e 80% dos casos são cirúrgicos. Tumor, via de regra,
é cirúrgico. Os tumores benignos são os cistos, por exemplo, e também os mais comuns. O índice de tumores malignos, no meu conceito, é alto cerca de 10 a 15 casos por mês. O câncer de boca está muito associado ao fumo e ao álcool (em conjunto) e aí o índice vai aumentando absurdamente.
JC - Esse tipo de tumor é muito agressivo?
Prof. Eduardo - Se ele não for diagnosticado precocemente boa parte dos pacientes acabam mutilados por cirurgias ressectivas de língua, face e outras. A boca dá uma drenagem direta para o pescoço e para o coração e com isso esses tumores malignos agridem as partes mais profundas levando o paciente ao óbito. Eles podem evoluir para o pulmão ou outra parte do organismo. Há casos de
é um determinado tipo de tumor benigno que se comporta como maligno, mas sem as implicações deste último.
JC - Quantas cirurgias são realizadas pela equipe?
Prof. Eduardo - Toda semana fazemos pelo menos de 3 a 4 cirurgias de tumores da boca, em pacientes de Bauru e da região, mas a grande maioria deles é benigno. Existe uma alta taxa de tumores malignos diagnosticados na clínica da faculdade. Não fazemos o tratamento, mesmo que seja as custas de cirurgia, só o médico oncologista é que pode tratar casos de câncer. A média de cirurgias na clínica da faculdade é de 50 por mês entre casos de dentes intraossos e tumores.
JC - Sobre a cirurgia corretiva, quais são as implicações de "incorreções" ósseas na vida de uma pessoa?
Prof. Eduardo - As implicações interferem na saúde do paciente já que boa parte deles perde dentes precocemente devido ao mau posicionamento do osso, sem contar a incidência de doenças na gengiva, além de desenvolverem dificuldade de respiração, de alimentação e de fonação (fala). Então, esses pacientes vão sofrer a vida toda com esses problemas, mas ninguém morre disso. Hoje no Brasil nós temos a chance de poder tratar nossos pacientes com a cirurgia ortognática.
JC - E como é feita a correção? São usadas próteses?
Prof. Eduardo - Não, a cirurgia é feita a custa de corte ósseo ou fratura óssea cirúrgica para podermos fazer o reposicionamento da base óssea com os dentes juntos. A técnica consiste em serrar os ossos, colocá-lo no lugar correto e parafusar de forma a promover a correção da mordida e da estética. A recuperação se dá, em média, em dez dias e o resultado é surpreendente.
JC - Qual a idade mínima para um paciente ser encaminhado para cirurgia?
Prof. Eduardo -
- Aqui no Brasil nós operamos pacientes estabelecendo idade mínima para homens a partir dos 17 anos e para mulheres após os 16 anos, respeitando a fase de crescimento evitando, desse modo, a necessidade de uma outra intervenção por causa do crescimento ósseo. Agora, eu já tive casos onde era necessário fazer a correção com a perspectiva de anos mais tarde refazer a cirurgia. Isso pode acontecer. A maioria dos meus pacientes têm entre 16 e 35 anos.
JC - Essa
"deformidade" pode ser decorrente de um acidente, por exemplo?
Prof. Eduardo - Sim, pode ser decorrente de uma fratura ou um trauma mal consolidado ou mal tratado mas, na maioria das vezes, os casos são ou congênitos ou adquiridos: sucção do dedo, chupeta, respiração bucal, tudo isso pode gerar uma má formação facial no paciente que vai acarretar um grande incômodo no decorrer do tempo.
JC - Um médico também pode fazer esse tipo de cirurgia?
Prof. Eduardo - Uma resolução do Conselho Federal de Medicina , há alguns meses atrás, determinou que nós dentistas é que temos o aval para atuar com cirurgia e traumatologia buco-maxilo-facial. Mas, na minha opinião, esta não é a fina flor da cirurgia maxilo-facial, e sim a cirurgia ortognática, a corretiva, onde a gente faz realmente mudanças no rosto e no perfil dos pacientes.
É uma plástica óssea, onde fazemos a correção da mordida criando uma harmonia facial .
Auto-exame prevenção
Finalidade
O auto-exame bucal tem por finalidade procurar alterações bucais, como ulcerações, alterações de coloração, áreas dormentes etc, que podem ser manifestações de muitas doenças, inclusive câncer de boca.
Faça o auto-exame bucal 1 vez por mês. Se você encontrar alguma alteração, procure um
estomatologista.
Você deve procurar
1.Alterações de cor de pele e mucosa
2. Ulcerações
3. Edema (inchaço)
4. Endurecimentos
5. Áreas com dor
6. Áreas dormentes
Procedimento
1. Faça a higiene bucal e lave as mãos. Pessoas que usam próteses devem removê-las.
2. Posicione-se em frente a um espelho.
3. Verifique a pele do rosto e pescoço. Apalpe ambos os lados do pescoço e debaixo do queixo. Veja se existem áreas endurecidas ou doloridas.
4. Com a boca fechada, puxe o lábio inferior com os dedos, expondo toda a mucosa (parte interna). Apalpe esta região. Faça o mesmo com o lábio superior.
5. Afaste a mucosa jugal (parte interna da bochecha), com o dedo indicador, para examiná-la. Apalpe toda a região. Faça isso em ambos os lados.
6. Com o dedo indicador, percorra toda a gengiva superior e inferior.
7. Ponha a língua para fora e observe o dorso da língua (parte de cima). Puxe a língua para a esquerda e observe a porção lateral. Faça o mesmo no outro lado. Coloque a ponta da língua no palato
(céu da boca) e observe a porção ventral
(parte debaixo) da língua.
8. Com a ponta da língua no palato
(céu da boca), observe o assoalho de boca e apalpe. Coloque os dedos da outra mão por debaixo do queixo para dar apoio.
9. Incline a cabeça para trás, abrindo a boca o máximo possível. Observe o palato
(céu da boca). Diga ÁÁÁÁ e observe a orofaringe (garganta).
Reduza o fumo e o álcool. Eles são irritantes da mucosa oral.