Geral

Viagem espacial

Redação
| Tempo de leitura: 6 min

VAMOS DAR UMA VOLTA NO ESPAÇO?

Os filmes de ficção científica sempre foram bons laboratórios para a fantasia humana. Sempre fui a favor deles e uma apaixonado também; sabe porque? Fazendo sonhar os jovens muitas vezes transformam o lúdico em realidade mais cedo do que imaginamos. Uma dessas fantasias

é a viagem ao espaço.

Mesmo ainda com muita gente acreditando que a ida do homem à lua foi um truque da televisão, a verdade nos mostra que agora o sonho de ser astronauta não é privilégio apenas dos deuses. A oportunidade de ver esta bolinha de gude azul por outra janela, para alguns, não será mais ficção.

A MirCorp, uma empresa russa com boa dose energética do capital estrangeiro, que na semana passada ajudou a financiar a viagem e acoplagem de cosmonautas russos à Estação Espacial Mir -paz em russo- divulgou a real possibilidade de começar a oferecer viagens turísticas ao espaço. E o melhor, ainda este ano.

Para realizar a viagem não precisa ser nenhum Neil Armstrong ou Marcos Fontes, pode ser eu ou você, desde que tenhamos a bagatela de 30 milhões dólares. É salgado né? Mas acredite, tem gente muita com condições para isso e disposta a pagar esse valor para ver a terra de cima, bem de cima.

Parece até uma daquelas notícias de almanaque que anunciam que um dia o homem vai tirar o sono de São Jorge. Uma notícia que nos alimenta, nos empolga, nos assusta, mas que nunca chega. Eu acho que São Jorge já acordou há muito tempo e nós é que estamos dormindo.

Para você ter uma idéia, a questão é tão real que existe até concorrência para isso. Já começou certo! Sou a favor da concorrência, desde para o boteco da vila até para uma viagem sideral.

Conforme informações da Agência Espacial Americana a empresa russa largou na frente. É que outras empresas já estavam preparando pacotes turísticos para o espaço, só que a preços bem mais módicos: 100 mil dólares por duas horas de passeio. Uma pechincha se comparado aos russos. Depois dizem não entendem nada de capitalismo.

No entanto a bruta diferença entre os preços tem um motivo. A MirCorp idealiza oferecer aos seus clientes uma semana a bordo da estação espacial. O cliente vai junto no vôo com os cosmonautas que estarão substituindo a tripulação que retorna à terra. Poderíamos chamar de uma carona espacial, sofisticada e cara.

Quem não está gostando nada são os cosmonautas russos que, com essa brincadeira, deverão triplicar o trabalho e, incontestavelmente, transformarão-se em guias turísticos:

à sua direita furacões na América do Norte, ao sul queimadas na Amazônia. E por aí vai.

Uma coisa pelo menos é certa, os russos têm longa experiência com o espaço. Não podemos esquecer que foram eles que colocaram o primeiro animal no espaço

- a cadela Laika- , o primeiro homem em órbita -Yuri Gagarin, a bordo do Sputinik- e foram eles que construiram a primeira base espacial terrestre no espaço, a própria Mir. Se não fossem os russos demoraria um pouco mais a façanha de Armstrong, Colins e Aldrin em 1969 e os nossos sonhos de viagem "além ar".

(* ) Luís Victorelli é jornalista científico do Centrinho/USP. Professor do Curso de Jornalismo da USC e diretor executivo do Canal Universitário de Bauru (CNUB). Foi conferencista,

à convite da Unesco, da 2ª Conferência Mundial de Jornalistas de Ciências em Budapeste, Hungria. Email: sci@sciencenet.com.br

TURISMO ESPACIAL

"Pacote" de uma semana na Mir custará US$ 30 mi

Andrew Jackson O turismo espacial pode começar ainda antes do final deste ano -embora a um preço extremamente alto. Com o bem-sucedido acoplamento da nave que conduziu dois cosmonautas russos à estação espacial Mir nesta quinta-feira (6), a MirCorp, empresa que ajudou a financiar a viagem, anunciou que poderia começar a oferecer viagens turísticas até estação especial em setembro.

Com um preço estimado de US$ 30 milhões pela viagem de ida e volta, a clientela será, com certeza, pequena. Mas Andrew Eddy, gerente de desenvolvimento de negócios na MirCorp, alega que quatro pessoas já expressaram interesse em ir ao espaço como turistas, e que contatos com outros potenciais candidatos começaram a ser realizados.

A MirCorp parece ter saído na frente de companhias rivais, que, segundo informado pela agência especial americana Nasa, em fevereiro, estariam à procura de financiamento para lançar projetos de turismo espacial semelhantes.

Enquanto esses projetos cobrariam preços na faixa de US$ 100 mil por duas horas de vôo espacial, a idéia da MirCorp é que seus clientes turísticos passem uma semana a bordo da estação espacial, viajando até ela com uma tripulação substituta de dois cosmonautas, e voltando à Terra com a dupla de cosmonautas que estiver deixando a Mir.

Porém, sob os planos atuais, e dadas as disponibilidades de financiamento, a meta de fazer em setembro a primeira viagem de turismo espacial pode criar um pequeno inconveniente para os dois cosmonautas russos a bordo da Mir. A missão deles teria de ser prorrogada, dos 45 a 75 dias atualmente previstos, para cerca de seis meses.

Jeff Manber, presidente da MirCorp, acredita que haverá demanda suficiente para o dispendioso turismo espacial, e ri da sugestão de oferecer viagens de volta por preço mais modesto -digamos, US$ 1 milhão por cabeça.

"A esse preço, as filas seriam imensas", diz.

Abordagem comercial

Ainda que pareça absurdo, o plano não seria a primeira ocasião em que os russos, que têm imensa experiência em missões tripuladas de longa duração ao espaço, enviam pessoas à Mir por motivos não vinculados à pesquisa científica.

Yuri Baturin, assessor de segurança do ex-presidente Bóris Ieltsin, usou seus contatos e influência e conseguiu passar quase duas semanas a bordo da Mir em 1998.

Mas, hoje em dia, a MirCorp -controlada conjuntamente por um consórcio de investidores estrangeiros e pela Energyia, a empresa russa que opera as missões espaciais do país- adotou uma abordagem comercial mais severa.

Um plano da Videfco Entertainment para enviar o ator russo Vladimir Steklóv à estação espacial como parte do filme "The Last Mission" ("A Última Missão") foi abandonado porque a produtora de cinema não conseguiu arranjar capital suficiente para bancar o vôo.

Eddy diz que acordos de patrocínio podem abrir caminho para que os "Mironautas" não tradicionais saiam da atmosfera terrestre por breves períodos. A MirCorp está discutindo com uma das três redes nacionais de televisão dos Estados Unidos sobre um plano para enviar uma celebridade ao espaço.

Ironicamente, enquanto o programa espacial dos Estados Unidos continua a ser financiado em larga medida por dinheiro público, por intermédio da Nasa, o setor privado está desempenhando papel cada vez mais importante na Rússia pós-comunista.

A Energiya, que tem ações cotadas na bolsa de valores de Moscou, e na qual o Estado russo tem uma participação acionária residual de 38%, provou-se muito competente na obtenção de contratos comerciais lucrativos junto a diversas companhias, incluindo as americanas Boeing e Lockheed-Martin, especialmente para lançamento de satélites.

Mas o governo da Rússia vem se mostrando incapaz de destinar à companhia os fundos prometidos, já desde 1997, e a Energyia vem sendo forçada a bancar a contribuição russa ao projeto da Estação Espacial Internacional, uma joint venture com os Estados Unidos, com recursos próprios.

As receitas das visitas turísticas à Mir podem ajudar muito.

Comentários

Comentários