Geral

Bíblia

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 11 min

Bíblia foi escrita por 40 pessoas em 1600 anos

Texto: Adriana Rota

A palavra Bíblia vem do grego Biblia, que significa "pequeno livro", "coleção de livros". Consta que ela começou a ser chamada por esse nome a partir do século quatro, por João Crisóstomo, considerado um dos pais da Igreja. Para aqueles que a tem como uma espécie de manual de sobrevivência, antes das escrituras, o homem era guiado somente pela sua consciência e pela natureza. A partir da Bíblia, a humanidade teria algo que a orientasse de fato.

Composta por 66 livros, cada um com seu estilo e características literárias, teria sido escrita por 40 autores diferentes ao longo de 1600 anos, em aramaico, hebraico e grego. Segundo seus seguidores, trata-se de uma obra feita sob inspiração, porque conseguiu manter um único sistema doutrinário e padrão moral, coerentes e sem contradições.

Mesmo as críticas referentes às possíveis distorções provocadas pela prática de fazer cópias das cópias, traduzir e atualizar constantemente a Bíblia, não serviriam de argumento para que seja desacreditada. "Uma ou outra palavra pode ter sido alterada, mas o sentido nunca foi mudado", defendeu Alessandro Ricardo Junqueira, diretor do jornal Folha Gospel e organizador de um evento que, recentemente, expôs diversos exemplares raros em Bauru (veja texto).

Especulações de que o Antigo Testamento teria sido produzido por uma única autora, há três mil anos, como afirma Harold Bloom no Livro de J., baseado em análises literárias, e que serviu de base para o escritor e colunista da Folha de São Paulo, Moacyr Scliar, escrever e lançar recentemente o romance A Mulher que Escreveu a Bíblia, são rechaçadas por seus seguidores. A existência de um possível evangelho escrito por Jesus Cristo, que teria sido excluído do livro, também não é cogitado.

Sobrevivência

Uma dúvida comum entre céticos e religiosos é saber como a Bíblia pôde sobreviver ao tempo, já que não foi gravada em pedra, argila, mas em materiais perecíveis, como o papiro - produzido a partir de uma planta egípcia do mesmo nome - e o pergaminho - confeccionado a partir de pele animal. Os escritos originais, portanto, provavelmente tenham desintegrado-se há muito tempo, a maioria no Israel antigo.

A garantia de sua perenidade teve início com a atuação dos copistas, que reproduziam à mão. Há quem garanta que esses profissionais eram dedicados e meticulosos, afastando a possibilidade de falhas que viessem a comprometer a originalidade da Bíblia.

Consta no site http://www.bawel.net/%7Echbbovobdd/sobreviv.htm que, para não omitir letra alguma, eles contavam as palavras e letras copiadas. O próprio termo copista, de origem hebraica, significaria so fer, relacionado com contagem e registro. Ainda segundo o site, existem cerca de seis mil escrituras hebraicas (na íntegra ou em partes) e cinco mil cristãs, em grego. A análise cuidadosa desse material permitiria a correção de erros, além de mostrar o grau de exatidão das cópias, porque, se havia falhas, nem todos cometiam as mesmas.

A Bíblia sobreviveu, até mesmo, a perseguições políticas. Em 303 a.C. e, por um período de dez anos, o imperador Diocleciano, de Roma, decretou que todos os exemplares fossem queimados, com a intenção de acabar com o Cristianismo.

"Aliança"

O termo testamento é latino e quer dizer "aliança". Considera-se que a antiga foi formada no Monte Sinai, quando Moisés, líder do povo hebreu, recebeu de Deus as Tábuas da Lei - os Dez Mandamentos - durante a peregrinação pelo deserto, em busca da Terra Prometida. A nova aliança teria sido celebrada por Jesus, com sua vida, morte e ressurreição.

As passagens bíblicas teriam começado a ser escritas esporadicamente desde os tempos anteriores a Moisés, mas foi este quem codificou as tradições orais e escritas de Israel, no século XIII a.C. Outros escritos foram acrescidos com o tempo, mas a preocupação com a catalogação desse material só surgiu no século I da Era Cristã, quando os apóstolos começaram a escrever os primeiros livros cristãos.

Os judeus reuniram-se no Sínodo de Jâmnia, ao sul da Palestina, por volta do ano 100 d.C, e estabeleceram as regras que caracterizariam os Livros Sagrados (inspirados por Deus). Estipulou-se alguns critérios, dentre os quais, que o livro não poderia ter sido escrito fora da terra de Israel, nem em língua aramaica ou grega (somente em hebraico), tampouco depois de Esdras (458-428 a.C.) ou em contradição com a Torá ou Lei de Moisés.

Em Alexandria (Egito), no entanto, havia uma colônia judaica que falava grego e não adotou os critérios estipulados pelos judeus de Jâmnia, traduzindo livros que deram origem

à versão grega dita "alexandrina" ou "dos 70 intérpretes". Essa edição contém livros adicionais, não aceitos por várias igrejas

(confira box).

Na tentativa de eliminar as confusões causadas pela existência de dois cânones, o papa S. Dâmaso, no ano 374, confiou ao exegeta Jerônimo o cuidado de reunir os livros santos numa coleção e traduzi-los. Sua tradução ficou conhecida como vulgata, ou seja, escrita na língua de pessoas comuns ("vulgus").

Divisões e impressão

A Bíblia hebraica foi dividida em versículos e seções para a leitura na sinagoga, antes da Era Cristã. A divisão moderna e a numeração em capítulos são geralmente atribuídas a Estevão Langton, professor da Universidade de Paris e arcebispo de Canterbury. A divisão moderna em versículos do Antigo Testamento foi obra de Sante Pagnini em sua Bíblia latina.

A Bíblia foi impressa em latim pela primeira vez em 1450, por Johann Gutemberg (1398-1468), na Alemanha. Foram produzidas 50 cópias com 1.284 páginas cada, o maior livro editado por ele até então. Antes de 1500 já haviam sido publicadas mais de cem edições.

Bíblia Católica tem livros não reconhecidos por evangélicos

As diferenças existentes na Bíblia utilizada pela Igreja Católica e pelas evangélicas, no Novo Testamento, são consideradas irrelevantes, mais relacionadas com a interpretação de palavras. Mas, no caso do Antigo Testamento, são várias. A Igreja Católica reconhece 45 livros como integrantes do Antigo, enquanto as evangélicas, 38. Os livros 1 e 2 dos Macabeus, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc não aparecem no segundo caso, sendo chamados de apócrifos ou deuterocanônicos.

Os católicos consideram, ainda, que no livro de Ester faltam seis capítulos e, no de Daniel, a oração de Azarias, o cântico dos mancebos, o episódio de Susana e a história de Bel e do Dragão. Os livros de Reis I e II da Bíblia Católica são equivalentes a Samuel I e II; Reis III, equivalente a Reis I; Reis IV, a Reis II, Paralipômenos I e II, a Crônicas I e II; Esdras II, a Neemias.

Esclarecidas as diferenças, em linhas gerais, os testamentos são apresentados assim:

Antigo - divide-se em A Lei, um conjunto dos cinco primeiros livros escritos por Moisés - Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, também chamados de Pentateuco, Livros da Lei ou Torá;

Os Profetas, divididos por textos sobre os chamados Profetas Maiores - Josué, Juízes, 1-2 Samuel e 1-2 Reis - e Profetas Menores - Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Ageu, Zacarias e Malaquias;

Os Escritos, composto por Salmos, Provérbios, Jó, Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras, Neemias e 1-2 Crônicas.

Novo - Os primeiros livros são os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João. O primeiro e o último foram apóstolos e escreveram como testemunhas oculares. Marcos escreveu depois da crucificação, baseado nas lembranças do apóstolo Pedro. Lucas foi discípulo de Paulo de Tarso e fez uma pesquisa para ordenar os fatos e ensinamentos de Jesus, baseando-se em parte nas lembranças de Maria, mãe dele;

O Atos dos Apóstolos trata das atitudes dos apóstolos após a crucificação, abrangendo um período de 33 anos após a morte de Jesus;

As Epístolas são escritos doutrinários em forma de cartas, que se dividem em Paulinas e Universais. A primeira refere-se às cartas mandadas pelo apóstolo Paulo para as igrejas recém-fundadas e aos discípulos

(Romanos I e II, Coríntios, Galátas, Efésios, Filipenses, Colossensses, Tessalonicenses I e II, Timóteo I e II, Tito e Filemon). As demais são cartas de vários apóstolos para os cristãos em geral, compreendendo uma de Tiago, uma de Judas Tadeu, duas de Pedro e três de João Evangelista;

O Apocalipse é um livro escrito em linguagem cifrada, cheia de símbolos e visões proféticas relativas ao final dos tempos.

Ex-pastor sugere cuidado nas interpretações

O ex-pastor adventista do Sétimo Dia, Robson Ramos, sugere através de um site (terravista.pt/Nazare/2526/index.ht) que o estudo da Bíblia seja feito por conta própria para evitar o risco de tornar-se vítima de interpretações tendenciosas. "A Bíblia é uma coleção de documentos diversos, escritos em ambientes diversos, por diversos autores. E é nessa diversidade de enfoques, estilos literários e contextos históricos que se esconde a Palavra de Deus.

(...) Há expressões de ceticismo, ódio, desânimo, desespero... e até frases que teriam sido ditas pelo próprio Satanás! Obviamente, portanto, nem tudo é 'Palavra de Deus'. Cabe ao leitor usar a cabeça e separar uma coisa da outra", defende.

O ex-pastor sugere que haja uma troca de idéias com outras pessoas, sem julgamentos, afastando a idéia de que é o único capaz de interpretar corretamente a Bíblia. Durante a leitura, um dicionário bíblico e diferentes traduções da escritura podem sanar eventuais dúvidas. Ele não condena aqueles que vêem a Bíblia como livro comum, devido às diversas intervenções que os escritos sofreram ao longo dos anos, "o que deixa claro que não se trata de um texto tão sagrado, que não possa sequer ser parcialmente alterado para facilitar a compreensão".

Bíblia em Português

Os mais antigos registros de tradução de trechos da Bíblia para o Português são de 1945. A primeira versão completa, em três volumes, só foi disponibilizada em 1753. O português João Ferreira de Almeida (1628-1691) foi o responsável pela obra.

Com apenas 16 anos de idade ele iniciou a tradução do Novo Testamento, baseado em versões do italiano, espanhol e latim. Essa versão nunca foi publicada. Em 1656 tornou-se padre (título dado aos pregadores religiosos na época) e, sete anos depois, começou a traduzir o Novo Testamento a partir do grego.

No mesmo período, iniciou, também, a tradução do Antigo Testamento a partir de originais em hebraico, mas não conseguiu conclui-lo: chegou somente até o livro de Ezequiel. O pastor holandês Jacobus op den Akker concluiu o trabalho, só totalmente publicado em 1753.

A primeira impressão da Bíblia completa, em Português, em um único volume, ocorreu em Londres em 1819, com a versão de João Ferreira de Almeida. No final do século XIX foi feita uma revisão nessa obra, que hoje é conhecida como Versão Revista e Corrigida de Almeida. Na década de 40, foi publicada a Versão Revista e Atualizada de Almeida, a mais lida e conhecida no País.

Em 1917 foi lançada a primeira tradução da Bíblia realizada no Brasil, a Versão Brasileira, feita a partir de originais gregos e hebraicos. Participaram dessa tradução três missionários norte-americanos

(dois presbiterianos e um episcopal), três pastores brasileiros

(dois presbiterianos e um metodista), um poeta, dois escritores e personalidades como Ruy Barbosa e José Veríssimo. A versão nunca sofreu revisão, correção ou aperfeiçoamento da linguagem, mas acabou deixando de ser produzida.

13 mil visitam exposição de Bíblias

"A Bíblia é Deus falando ao homem; é Deus falando através do homem; é Deus falando como homem; é Deus falando a favor do homem; mas é sempre Deus falando". Foi assim que um anônimo classificou a chamada Sagrada Escritura, que ganhou um espaço para divulgação no Bauru Shopping Center de 26 de fevereiro a 3 de março, através de uma exposição de algo em torno de 50 exemplares, dentre raridades e lançamentos, promovida pelo jornal Folha Gospel e pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB). Estima-se que 13 mil pessoas tenham passado pelo local.

O organizador do evento e diretor da Folha Gospel, Alessandro Ricardo Junqueira, constatou que, além de público para uma exposição do gênero (cerca de 80% dos moradores da cidade são cristãos), havia uma carência do produto no mercado local, mesmo com o aumento da procura. A partir de parcerias com a iniciativa privada e a SBB, foi possível trazer a exposição, por onde passaram cerca de 13 mil pessoas.

Os visitantes puderam conhecer, além dos lançamentos da área - que incluem bíblias audiovisuais e em CD-rom -, exemplares raros como a Bíblia Vulgata de São Jerônimo, impressa em 1583, em Veneza e escrita em latim, no tempo em que as sagradas escrituras eram restritas aos monges e sacerdotes da Igreja Católica. Ela foi encontrada numa lata de lixo na Praça Mauá (Rio de Janeiro) e doada à SBB por um pastor batista.

Um pouco mais "nova", a Bíblia Sacra Latim, de 1600, é a oficial da Igreja Católica e contém o Antigo e o Novo testamentos, incluindo os livros deuterocanônicos. De 1819, a Bíblia Sagrada Português é a autêntica bíblia traduzida por João Ferreira de Almeida, uma das versões mais populares no Brasil.

No ramo das curiosidades, estão a Miniatura da Bíblia Ilustrada King James com o Antigo e o Novo Testamentos, escrita em Inglês e ilustrada. Devido às suas dimensões

- 3 x 4,5cm -, ela acompanha uma caixa de metal com lente de aumento. A miniatura do Novo Testamento do texto revisado da bíblia King James, consegue ser menor: 2 x 3cm. Ela contém uma oração do Pai-Nosso e ilustração da Santa Ceia. O Menor Livro do Mundo - com 0,5 x 0,5cm -, foi um dos que mais chamaram a atenção durante o evento. Ele também contém o Pai-Nosso, mas em vários idiomas.

Comentários

Comentários