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Condições do solo

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 5 min

Terra de Bauru perde fertilidade

Texto: Márcia Buzalaf

Bauru tem muito pouco para comemorar amanhã, dia nacional de conservação do solo. A terra da região sofre todo ano o poder esterelizador das queimadas, da força da erosão, do desmatamento, das culturas extensivas e do uso intensivo de agrotóxicos. O problema é que as culturas da região cresceram sem ter planejamento, o que fez com que a terra não fosse usada dentro do seu limite. Para começar esta conversa com três entidades que tratam do assunto - a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI), o Instituto Vidágua e a Polícia Florestal - vale a pena reforçar: se não houver conscientização, a terra deixará de dar frutos.

O dia nacional de conservação do solo foi criado em 1989, mas nesta época a terra na região de Bauru já estava bem empobrecida. As grandes fazendas de café e de cana-de-açúcar fizeram com que o solo perdesse parte de sua fertilidade natural.

Atualmente, as culturas de cana, de citros, as criações bovinas e as plantações de café representam mais de 82% do total da área cultivada de Bauru, índice que aumenta anualmente. Estas culturas extensivas, além de cansar a terra e de emitir toxinas dos defensivos agrícolas, dominam grande parte da paisagem das propriedades rurais na região.

Paulo Benedito Paro, diretor substituto da CATI de Bauru, considera como crítica a situação do solo de Bauru, dizendo que seu maior problema é ser altamente favorável

à erosão.

Bauru tem em torno de 10% de cobertura vegetal. Desde 1965, existe uma lei de reserva legal que determina que todas as propriedades tenham 20% de reserva vegetal.

Mesmo assim, vários produtores teimam em não cumprir a lei e, atualmente, a maioria das cidades da região não atingem o índice de cobertura natural de 20%.

O problema desta exigência é que só em 98, quando foi criada a lei dos Crimes Ambientais, é que foi estabelecida uma punição para quem desobedece a determinação. Tirando a serra do mar, só sobrou 1,57% de cobertura vegetal no Estado de São Paulo.

O solo de Bauru é classificado como latossolo vermelho fase arenosa, que provavelmente é originado do arenito da cidade, além das ocorrências de solo podzolizados. Paro diz que o solo de Bauru tem um pH entre 5 e 6, considerado um pouco ácido. "Tem lugar em que o pH aqui na região

é de 4 a 4,5, e isso é considerado ácido", diz. A terra da cidade também é pobre em nitrogênio, fósforo e potássio.

De acordo com Rodrigo Agostinho, 22 anos, secretário executivo do Instituto Vidágua, a terra de Bauru não é de má qualidade, muito pelo contrário. Agostinho afirma que as manchas de terra roxa nas proximidades do município indicam alta fertilidade.

Erosão

O problema é que as erosões são tantas que Bauru está ficando sem água para o abastecimento urbano e rural. Da nascente do Rio Batalha até a captação, são 98 erosões em 22 quilômetros. Por exemplo, se alguém usar a água do rio Batalha até a captação para a irrigação, Bauru fica sem água, diz Agostinho.

A utilização do solo tanto na área rural quanto na área urbana nos últimos anos levou a este estado de empobrecimento. "As pessoas constroem núcleos habitacionais sem galeria, sem planejamento nenhum. E qualquer enxurrada abre grandes voçorocas", explica.

A falta de educação ambiental é um dos problemas apontados por Agostinho e Paro como as causas da má conservação do solo na região.

Desmatamento

Quando a cobertura vegetal das margens dos córregos e rios

é retirada, há o aumento da evaporação da água. A capacidade de contenção de nutrientes do solo cai à medida em que há desgaste com o assoreamento. O Estado de São Paulo tinha um índice de cobertura florestal original de 81,8% de sua superfície, mas milhares e milhares de árvores foram cortadas nos últimos anos, restando apenas 7% de cobertura natural de florestas.

O surto cafeeiro ocasionou o desmatamento, que foi impulsionado pelo avanço das ferrovias, que eram movidas a lenha e que já empobreciam o solo e desmatam o País.

Agostinho afirma que a mata ciliar do Interior, aquela que protege o solo, foi quase totalmente deteriorizada nos últimos anos pelo uso intensivo de uma mesma cultura.

De acordo com a Polícia Florestal, em 99, foram lavrados 88 autos de infração contra o desmatamento.

Queimadas

O ciclo de queimadas na região deve começar nos próximos dois meses. Este ano, pode ser ainda pior do que em 99, na opinião de Agostinho. A Polícia Florestal, no ano passado, registrou 52 ocorrências de queimadas na região de Bauru.

O problema de atear fogo no pasto não é apenas a poluição atmosférica que causa. O maior dano

é o desgaste do solo, que, com o fogo, perde toda sua matéria orgânica.

A queimada da cana está planejada para terminar nos próximos cinco anos. De acordo com a nova legislação, lentamente, as usinas terão que trocar a queimada pela colheita mecânica. Este processo será realizado através da Cetesb, que é responsável por aprovar o plano de queimadas das usinas.

Programas & Projetos

A região abriga vários projetos de restauração do solo e de sua produtividade, encabeçados principalmente pela Cati-Bauru. Entre eles, vale destacar o programa de microbacias, que restaura áreas erosivas nos contornos das bacias hidrográficas; o programa "Margem Verde", que visa recompor a mata ciliar e instituir a educação ambiental ; e o programa

"Melhor Caminho", que visa restaurar as estradas rurais para evitar o assoreamento dos rios com a passagem dos veículos.

O projeto das microbacias já foi aprovado e os recursos do Banco Mundial, liberados. Paro diz que o piloto do projeto está sendo feito em Arealva, mas as próximas cidades onde será instalado são Lucianópolis, Piratininga, Iacanga e Piratininga. Agudos e Paulistânea já fizeram a proposta de adesão e Bauru, Borebi e Avaí ainda estão na fase de elencar documentos para fazer parte do programa.

Além disso, a Cati desenvolve uma técnica de plantio direto de milho em Cabrália Paulista que tem dado vários resultados. O plantio direto, por não alterar a estrutura do solo, tem o poder de manter todos os materiais orgânicos da região, fazendo com que a terra fique, enfim, mais fértil.

Serviço

Quem quiser denunciar desmatamentos, deve entrar em contato com o Ibama (230-0151) e com a Polícia Florestal e de Mananciais

(230-2700). Problemas com poluição de solo podem ser encaminhados à Companhia de Tecnologia e de Saneamento Ambiental (Cetesb), pelo número 230-2344.

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