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Etiqueta

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Aula de bom senso

Texto: Gustavo Cândido

Professora de música por formação, Maria Cecília Abramides Gonçalves Silva tem propriedade como poucas pessoas para falar sobre etiqueta social e boas maneiras, assuntos sobre o qual dava aulas na década de 70. Com o passar do anos, os conceitos de etiqueta e modos têm mudado e até mesmo vêm sendo esquecidos. O Jornal da Cidade falou com Maria Cecília sobre esse fenômeno e sobre como ser elegante às vésperas do século XXI

Jornal da Cidade - Como a senhora começou e se interessar sobre o tema etiqueta e boas maneiras?

Maria Cecília Abramides Gonçalves Silva - Eu tive um curso aqui em Bauru, de etiqueta social e boas maneiras para adolescentes e adultos. Era um curso bem frenqüentado por meninas de família. Porque os pais sempre têm problemas em lidar com os filhos quando o assunto é educação. Nesse curso a gente ensinava aqueles bons hábitos de andar, comer, receber, até em ocasiões difíceis existe uma regra de etiqueta. A gente também ensinava como gesticular, onde pôr a mão, como sentar, onde pôr a perna, como direcionar o pé. Tudo. A gente ensinava basicamente a pessoa a saber quem ela era, a descobrir o seu tipo, seu estilo e se respeitar. Cada um tem um estilo, seja esportivo ou brincalhão, mas dentro disso deve saber se respeitar e agir.

JC - Quando a senhora deu esse curso?

Maria Cecília - No início da década de 70. Dei aulas até 1975, quando deixei de dar o curso porque também tinha outras atividades. Mas era um curso muito procurado, até mesmo por adultos, que faziam uma aula especial.

JC - Muitas pessoas acham que etiqueta social é "frescura", que não vale a pena se preocupar com coisas que consideram antiquadas. O que a senhora acha disso?

Maria Cecília - Devemos ter uma postura social, saudável. Viver melhor, sem enfrentar muitas gafes com regras básicas, sem traumas, para facilitar nosso convívio social. Podemos achar que é ultrapassado nos prendermos

à certas atitudes que no passado eram definidas pela expressão

"boa educação" e que hoje pelo menos poderíamos decifrá-la como: "ter bom senso". Para isso, fundamental é ter: bom humor para ser pelo menos civilizado. Saber que, por exemplo, reclamar muito, e de tudo é desagradável. Ter dedicação, criatividade e boa vontade tem muito a ver com "classe", não adianta lamentar, buscar soluções, sim!

JC- Existem muitas diferenças de alguns anos atrás para hoje, no que diz respeito à boas maneiras?

Maria Cecília - Atualmente a gente percebe que as pessoas não sabem se sentar à mesa, não sabem usar os talheres, falam de boca cheia. Os homens, infelizmente, com essa corrida desenfreada pelo mercado de trabalho, com essa disputa com a mulher, deixou de ser cavalheiro. Quem bonito, que bom era quando um homem abria a porta do carro, puxava uma cadeira. Eles perderam esse hábito porque as mulheres passaram a competir com eles, correndo em busca do mesmo objetivo profissional. Uma coisa não tem relação com a outra, as mulheres têm de deixar o homem abrir a porta para ela, têm de deixar ele dar o seu lugar para uma pessoa mais velha...

JC - Então a mulher também perdeu essa noção de que o homem tem de ser cavalheiro? Ela pode disputar o mercado de trabalho mas não precisa brigar para a abrir a porta só para provar que é mais "ela"?

Maria Cecília - Exatamente. Esse ato cavalheiro

é bonito e faz bem tanto para o homem quanto para a mulher. Tudo isso está perdendo o brilho e a natureza de existir.

JC - O que uma pessoa deve fazer para ser elegante?

Maria Cecília - Deve ter disciplina, se auto-respeitar e se auto-estimar. Se você não se gosta, não tem disciplina e não se respeita, não vai conseguir se sair bem em lugar algum. Isso independente do seu trabalho ou de onde você vive. A etiqueta e as boas maneiras são usadas tanto no convívio da sua casa, do seu íntimo, quanto no seu trabalho. Não é porque você está em casa que vai ter maus hábitos. No meio comercial

é muito importante ter uma boa educação.

Às vezes a gente entra em uma loja e percebe que as pessoas não sabem como te tratar. Se você está bem arrumada, elas acham que têm que dar uma atenção especial, senão te esquecem. A gente nunca deve dar atenção a essas coisas, porque você deve saber quem você é, tem de ter auto-estima e saber agir, não importa a situação. Até para ir a um restaurante é preciso saber como agir, estar preparado, não basta ir lá e se sentar.

É preciso, por exemplo, saber alguns termos exóticos como escalope, chateubriant, queijo brie. O que é isso?

É preciso saber. Se você estiver em um jantar chiquérrimo e alguém interromper o serviço e te oferecer um sorvete de limão, é um tira-gosto. A lavanda, aquele líquido que deixam na mesa com um perfumezinho ou com pétalas de rosas, não é para beber, é para lavar a mão. É preciso saber a ordem dos talheres, isso não é frescura. É tão bom ter bons hábitos e saber se dirigir a uma pessoa mais velha, por exemplo. Sobretudo, é preciso não esquecer das palavras mágicas: com licença, por favor e obrigado; elas estão completamente esquecidas e sempre ouço até pessoas que se dizem de boa família não usando essas palavras.

JC - Essa exigência consigo mesmo é fundamental então?

Maria Cecília - Ser exigente consigo mesmo é importante, aperfeiçoar devia ser o 1º lema de todo ser humano. Uma coisa é certa, as linhas de beleza não sofrem limitação no tempo. Ter estilo e trato é sempre moderno, atual, além de obrigatório. Ter bons hábitos também representa fator preponderante no trato com polidez, gentileza etc... Viver é sempre bom,

é uma festa, é ter gosto pelas coisas e comportar-se de forma civilizada só nos traria benefícios. Quem tem facilidade no convívio, em estar com o outro, naturalmente terá mais facilidade para conseguir o que quer.

Fora isso, não existe evolução social, ninguém cresce caminhando no escuro, sem base familiar, religiosa e educacional que possa conduzir a sociedade a um comportamento ideal.

JC - Por que a senhora acha que com o passar dos anos as pessoas deixarem de se importar com as boas maneiras?

Maria Cecília - Não sei, é como máquina... A gente busca uma explicação mas é difícil. Talvez as coisas tenham mudado muito por uma situação precária da sociedade, pela falta de interesse de certos setores e até porque as pessoas relegaram ao segundo plano a educação. Se etiqueta social fosse uma religião, e não apenas um comportamento aprimorado eu diria que: sentar de forma descomposta, andar rebolando, comer com a boca aberta, falar alto, truncar conversas alheias, esquecer das expressões:

"com licença", "por favor" e "obrigada", estaríamos fatalmente dentro dos sete pecados capitais.

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