Consciência: palavra-chave para o futuro
O avanço tecnológico não é a principal ferramenta para o futuro. A afirmação pode parecer estranha. Mas é a opinião do físico, matemático e consultor de empresas Peter Russell. O inglês, que esteve no Brasil na última segunda-feira, foi um dos palestrantes da conferência internacional "O Futuro Presente", realizada na Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. Em sua palestra, Russell defendeu que a consciência
é a palavra-chave para o século XXI.
Para ele, que é membro da World Business Academy (WBA), entre outras renomadas instituições, olhar para dentro de si mesmo se faz necessário neste momento. "A tecnologia sempre vai evoluir e existir. Nossa próxima barreira é mesmo a consciência", afirmou. No entanto, segundo o pesquisador britânico, a nossa cultura faz com que olhemos apenas para fora todo o tempo. "Somos como viciados em drogas. Usamos o mundo externo para nos alimentar. Mas na verdade o que precisamos é de alimento interno", continua. Russel, que é autor dos livros "O Empresário Criativo" e "O Buraco Branco", entre outros, defende que a proximidade com o novo milênio mudou o futuro. "Passamos pela data - o início de 2000 - que era a referência para o futuro. O fato de que a gente não vai estar vivo no ano 3000 faz com que o futuro agora seja algo aberto", afirmou.
Ele comenta que quando olhamos em direção ao futuro sempre olhamos a partir da tendência atual. "Nos baseamos apenas no que já existe para prever o futuro."
O conceituado membro do Institute of Noetic Sciences (IONS) comenta ainda que a ciência praticamente sempre ignorou a consciência.
"Para a ciência, o universo funciona perfeitamente sem a consciência. Para a ciência, a consciência não passa de um grande problema", disse. E completou:
"É mais fácil para a ciência explicar o desenvolvimento de um hidrogênio do que falar sobre consciência".
Ele reitera que a principal necessidade deste momento é o entendimento da consciência. Ele justifica o fato de considerar a consciência nossa próxima barreira porque acredita que todas as pessoas buscam, na verdade, o puro e simples bem-estar.
"Precisamos lidar com a consciência que é ainda algo não compreendido. O mundo material é o mundo com que podemos lidar. No entanto, em relação a mente estamos às escuras com o que podemos ou não podemos", declarou. Para Russell, "o dinheiro em si não é nada". "O dinheiro fascina porque apenas nos dá poder de controle. A maioria que é podre de rica compra coisas e mais coisas, mas isso não adianta nada. Essa crença de dinheiro e poder arruina a vida pessoal", disse. Ele continua: "Uma mente preocupada não pode estar em paz, além de o fato de que raramente estamos no momento presente. Se estamos preocupados, não estamos no presente e 90% do que pensamos é lixo", disse.
Ponto de vista
Russell comenta que procuramos justificar problemas de fora para dentro quando deveríamos fazê-lo de dentro para fora.
"O estresse, por exemplo, é algo que atribuímos a problemas do dia-a-dia como a um congestionamento. Porém,
é a voz do medo que provoca o estresse."
O pesquisador ilustra duas pessoas diferentes vivendo uma situação comum. Para ele, uma pessoa à beira de um ataque de nervos em um congestionamento pensa mil coisas, do tipo vou perder a reunião, meu chefe vai me matar, vou ser demitido e, consequentemente, se estressa. Outro indivíduo, segundo ele, a um passo da iluminação, enxerga no congestionamento um simples congestionamento e até pensa que graças à situação não terá de enfrentar uma reunião desgastante com um bando de chefes chatos. "O que precisamos saber é que a voz interna é o nosso verdadeiro guia."
Russell acredita que as pessoas têm tido preocupação crescente com a meditação. Prova disso, segundo ele, pode ser comprovada com a vendagem dos livros. "Pelo menos metade dos livros mais vendidos são sobre a consciência", disse. O pesquisador aconselha para que se alcançar uma melhor qualidade de vida a meta das pessoas deve ser o aumento da felicidade interna bruta e não do Produto Interno Bruto
(PIB), numa comparação a uma das preocupações do mundo dos negócios. Russell finaliza: "Como diz Buda, se você não pode dizer nada para melhorar é melhor não dizer nada até que descubra algo de bom para dizer". (AE)
O capitalismo e o futuro
Outro destaque da conferência "O Futuro Presente", realizada no auditório da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo, no último dia 17, foi a palestra de Peter Bishop, professor de Ciências Humanas na Universidade de Houston-Clear Lake e professor titular no curso de graduação em Estudos do Futuro. Com o tema "Uma via alternativa para um futuro humanizado", Bishop colocou em questionamento se o capitalismo vai sobreviver no futuro. Ele disse que os capitalistas estão sempre buscando crescer, mas que o sistema capitalista não sabe quando parar. "O que questiono é quando no futuro nós iremos saber que o bastante é o bastante", afirmou.
Bishop, que dirige uma escola que forma futuristas no Texas (Estados Unidos), entende que deixado por si só o capitalismo vai acabar com o futuro.
Desafio
"O capitalismo precisa de ajuda para se tornar humano. É preciso criar uma concorrência organizada e isso é o maior desafio do século 21", discursou. Bishop criticou o capitalismo sem freios verificado nos dias de hoje, principalmente nos Estados Unidos. "É possível usar a produtividade e a criatividade do capitalismo não apenas para que o sistema enriqueça algumas poucas pessoas."
Enquanto diretor de uma escola de futuristas, ele comenta que os futuristas não acreditam em previsões. "Somos da linha de que o futuro não se sabe qual é", disse. "O livre arbítrio é importante. Nele você escolhe o futuro que se quer", continuou. Na escola do futuro, Bishop comenta que forma-se especialistas capazes de oferecer opções para as pessoas. "Não acreditamos em um futuro pré- determinado. E os caminhos não são únicos", enfatizou. (AE)