Pais não sabem o que fazer com filho considerado problema
Texto: Adriana Rota
A doméstica Márcia Regina de Araújo, 27 anos, disse não saber mais a quem recorrer. Ela tem um filho de 11 anos, que há um está morando na rua. "Guardador" de carros num supermercado da região do Altos da Cidade, ele viveria, basicamente, de esmolas. O garoto seria viciado em jogos de fliperama. Isso o teria afastado tanto da família quanto da escola.
Márcia afirmou que, cada vez que ela "dava uma prensa", ele ia para a rua. O Conselho Tutelar de Bauru já teria tentado estar com o garoto várias vezes, mas como aproximava-se em viaturas da polícia, ele fugia. Recentemente, a mãe recebeu a notícia de que ele estaria em Lençóis Paulista, cidade onde a família não tem parentes ou amigos. "Acho que foram as companhias", acredita Márcia.
De acordo com a presidente do Conselho Tutelar de Lençóis, Sandra Amara Tonin Nelli, foi solicitado ao Conselho local que buscasse o garoto, mas a alegação foi que não existia uma viatura. A unidade de Bauru teria pedido, então, que ele fosse colocado num ônibus, mas Sandra preferiu não arriscar, porque ele já teria saído de um coletivo pela janela.
A mãe interpretou isso como falta de apoio, pedindo que Sandra intercedesse em Bauru, coisa que está fora de sua alçada. Maria Moreno Perroni, do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e Adolescente, também teria sido contatada, sem sucesso. Por fim, a Márcia foi com uma irmã atrás do garoto, que acabou fugindo logo que a viu.
Sandra contou que ele chegou a jogar-se num rio, atravessando-o a nado. Pessoas ligadas a uma igreja católica da cidade, onde costumava pedir dinheiro ao final das missas, ajudaram nas buscas. Ele foi levado à uma delegacia, cujo titular permitiu que uma viatura viesse até Bauru, liberando uma escrivã e um investigador, que entregaram o garoto para a avó junto com a conselheira.
"Ele mente muito, não sei a quem puxou. Consegui escola, paguei até perua. Nesse período, ele ficou só uma semana em casa. Ele nunca foi calmo. Eu sempre quis dar disciplina, porque hoje, se a pessoa não estudar, não vai ser nada na vida. Não sou de dar carinho o tempo todo, dou do meu jeito", disse Márcia, que á mãe de outras duas filhas e casada pela segunda vez.
A presidente do Conselho de Lençóis confirmou que o garoto tem o hábito de mentir. Ele chegou a ser acompanhado por uma semana, mostrando-se muito agressivo e dizendo que morava em diversas cidades diferentes. "Só quando adquiriu confiança, contou onde morava".
A mãe disse não conseguir ficar sossegada por saber que o filho está na rua. "Não consigo nem dormir direito", desabafou. Ela disse já ter feito tudo o que podia e, agora, gostaria que alguma entidade que contasse com serviço de Psicologia o internasse.
Moradora do Núcleo Fortunato Rocha Lima, Márcia afirmou que não tem como ficar o dia todo com a família, porque trabalha como doméstica numa casa do Jardim Samambaia.
Outro lado
A vice-presidente do Conselho Tutelar de Bauru, Darlene Martin Tendolo, é quem tem acompanhado o caso. A conselheira afirmou já ter conversado com o garoto algumas vezes. "Ele acha que a mãe não dá o amor que queria.
É um garotinho lindo, que está cobrando carinho, atenção. É um direito dele".
Com relação à Márcia, Darlene disse que está realmente esgotada com a situação, mas não estaria cumprindo à risca o seu papel. "Entendo a situação dela, sua angústia, mas nós não podemos simplesmente internar o garoto. Ela precisa se empenhar mais", ponderou.
A conselheira contou que, no episódio de Lençóis, a mãe teria sido avisada pelo Conselho de lá. Como não teria comparecido, o Conselho de Bauru foi acionado para que providenciasse sua vinda. Darlene, que estava de plantão, solicitou ao motorista que fosse até a casa da família. A resposta teria sido de que iriam por conta própria, no carro de um parente. Por motivos ignorados por ela na ocasião, eles acabaram indo de ônibus.
Ao ver a mãe, o garoto fugiu. "Ela não ficou lá procurando por ele", disse Darlene. A conselheira de Lençóis, no entanto, afirmou que Márcia só retornou a Bauru atendendo a um pedido seu e que ela teria tentado providenciar condução para buscar o garoto, mas não teria tido dinheiro para colocar combustível no carro, nem conseguiu com conhecidos.
Como a mãe teria dito estar preocupada com um possível envolvimento com drogas, foi feito pelo Conselho daqui um encaminhamento para a Gilgal - Centro de Recuperação e Reintegração de Menores - de modo que o garoto passasse por uma avaliação psicológica.
A família recebeu orientações e foi feito contato com uma escola próxima à casa da família para garantir sua matrícula. "Há um mês ele não vai para a escola. Estou aguardando um relatório de lá, para verificar se está havendo negligência da família. Ela teria sido chamada para uma conversa, mas não compareceu. Na Gilgal, o garoto também não foi levado". Criança de rua e criança na rua
Darlene explicou que existe uma grande diferença entre a criança de rua - aquela que não tem família ou já perdeu completamente o vínculo familiar - e a criança que fica na rua - que foge de uma situação considerada insustentável por ela, dentro de casa. O Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e a Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes) estão preparando um levantamento do número das crianças encontradas pela cidade.
O resultado deve sair nos próximos dias e será encaminhado
à Prefeitura, que já teria firmado uma acordo com uma entidade local para providenciar abrigo para esse contingente. Hoje algumas entidades encarregam-se de cuidar dessas crianças, embora cada uma tenha sua finalidade específica, como as que se destinam à recuperação de viciados em drogas, não constituindo ambiente adequado.
Desde 1998 Bauru não tem um espaço onde os menores possam permanecer até que suas pendências - sejam de âmbito pessoal ou jurídico - sejam resolvidas. Foi nesse ano que houve a desativação do Centro de Convivência, entidade ligada à Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), que funcionou cerca de três anos, mas acabou desviando-se de sua finalidade.
"Faltava pessoal especializado, era uma espécie de albergue", disseram os membros do Conselho Tutelar numa reportagem publicada pelo JC em 17 de fevereiro deste ano. Na ocasião da desativação, teria sido firmado um acordo com a Prefeitura no sentido de providenciar um novo abrigo. "Não há como construir um", disse Perroni, que preferiu não divulgar, ainda, os detalhes do convênio.
Quando o caso é de relacionamento, procura-se orientar, mas mantendo a criança ou o adolescente sempre próximo da família. O Núcleo de Apoio Psicológico
(Naps), ligado à Secretaria de Saúde, e a Fundação Véritas, costumam prestar auxílio psicológico nessas situações. "No caso dessa mãe, por exemplo, é natural que ela esteja desesperada, mas
é preciso superar as dificuldades", disse Darlene.
Um ponto que as representantes de ambos os conselhos salientam
é que a criança ou adolescente não vai para a rua porque quer: o mais comum é haver uma situação de exploração do trabalho, sexual, violência ou mau relacionamento de modo geral. Mães pedindo ajuda para tirar os filhos das ruas seria coisa rara. Geralmente, segundo consta, a convivência já está tão debilitada que os dois lados repelem-se mutuamente.
Tempos difíceis
A vice-presidente do Conselho Tutelar afirmou que, realmente, não tem sido nada fácil lidar com crianças e adolescentes nos dias atuais. Por isso, o primeiro impulso é querer livrar-se do filho que se tornou problema, internando-o. Mas a solução não seria essa. Ela aconselha que, ao primeiro sinal de que algo não está correndo bem, os pais devem procurar ajuda profissional, seja na escola, numa instituição, no Conselho Tutelar, entidades sociais, dentre outros.
"As famílias estão empobrecendo em todos os sentidos. Os pais entram em desespero, os filhos não têm limites. Está havendo uma interpretação errada dos direitos: o pessoal esquece que eles estão ligados a deveres. Não é só sanar as necessidades materiais, mas dar amor, carinho. Quem tenta resolver batendo, por exemplo, só está plantando um problema. Porque
é como dizem: quem bate esquece, quem apanha, não. A criança precisa aprender a respeitar e ser respeitada", ensinou.