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Redação
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MEC reformula a formação de professores

A imagem que se tem do professor como aquele que vai para a sala de aula para ensinar os alunos a decorar o conteúdo das disciplinas mudou. O que se espera hoje é um docente que instigue os estudantes a fazer questionamentos e produzir eles próprios o conhecimento. É com essa perspectiva que o MEC (Ministério da Educação e do Desporto) vem realizando a reforma das licenciaturas, ou seja, dos cursos universitários que visam a formação de professores.

A bauruense Maria Inês Laranjeira, que coordena a reforma das licenciaturas da Secretaria de Educação Superior do MEC, como assessora da diretoria do Departamento de Política de Ensino Superior, diz que o trabalho realizado pelo MEC se baseia nas mudanças das demandas sociais. "O menino de ontem ia para a escola para reproduzir conhecimento e hoje, na sociedade do conhecimento, quem não souber produzi-lo não vai conseguir se instalar", afirma.

Maria Inês também já atuou como coordenadora geral de estudos e pesquisas sobre educação fundamental na Secretaria de Ensino Fundamental do MEC, onde foram elaborados os parâmetros curriculares para o ensino fundamental. Em Bauru, ela foi coordenadora regional do CARH (Centro de Aperfeiçoamento de Recursos Humanos) da FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação).

O resultado do trabalho frente ao CARH, hoje extinto, gerou o livro "Da arte de aprender ao ofício de ensinar - relato, em reflexão de uma trajetória", lançado recentemente pela Edusc (Editora da Universidade do Sagrado Coração). Na obra, que integra a coleção Educar, ela defende a consolidação de uma escola para formação permanente de professores, como alternativa para o enfrentamento da atual crise da educação.

Na última semana, Maria Inês esteve em Bauru para ministrar uma palestra sobre o conteúdo do seu livro na USC, onde se formou em Psicologia e atuou como professora. na ocasião, ela deu a seguinte entrevista, na qual fala sobre a necessidade de se reformar as licenciaturas. Confira:

Pergunta - O que levou o MEC a promover a reforma das licenciaturas?

Maria Inês - A necessidade da reforma da formação dos professores, de um modo geral, é em função da reforma do ensino. E a reforma do ensino se exige por conta das mudanças nas demandas sociais. O que se exige de um menino hoje não é mais o que se exigia de um menino ontem. O menino ontem ia para a escola para reproduzir conhecimento e hoje, na sociedade do conhecimento, quem não produzi-lo não vai conseguir se instalar.

Pergunta - Em que pé que está a reforma?

Maria Inês - Ela vem sendo discutida a partir da mudança propostas pelas diretrizes e parâmetros curriculares para a educação infantil, ensino fundamental e para o ensino médio, que fazem novas exigências para os professores desses alunos. Isso internamente no Ministério, porque fora dele, nas universidades, esse é um processo que já vem em andamento há muito tempo. Embora, lamentavelmente, não se tenha impregnado em todos os cursos de formação, mas é uma mudança em processo. O trabalho do Ministério é de sistematizar essa mudança, constituir referências curriculares e reportá-la para o aparato legal que sustenta a formação de professores hoje.

Pergunta - Há resistência em mudar uma estrutura que funciona há tantos anos?

Maria Inês - O medo do novo é uma característica do ser humano. Além disso, fomos formados para a repetição e a repetição nos traz segurança. Então

é difícil, sempre há resistência. Há resistência - que é menor - pela contraposição

às idéias que se quer implantar e há resistência

- que é maior - pela própria necessidade de mudança de cada um. O novo assusta, nos faz ter consciência de que vamos precisar investir, melhorar, abandonar coisas que já estavam cristalizadas.

Pergunta - As universidades já estão preparadas para essa mudança? Caso não estejam, como prepará-las?

Maria Inês - Num país do tamanho do nosso, você não tem hegemonia de condição. Algumas universidades já caminharam mais nessa questão, outras menos. Também as instituições de ensino superior que não são universidades têm muita importância nesse processo. No Estado de São Paulo, por exemplo, boa parte dos professores que trabalham no sistema público de ensino - seja municipal ou estadual - é oriunda de instituições privadas e, em geral, faculdades isoladas. Nós não temos, de modo geral, um professorado que saiu das universidades públicas para o magistério da educação infantil, ensino fundamental e médio.

Pergunta - Como proceder com a atualização de professores já formados, aqueles que estão no mercado de trabalho há algum tempo?

Maria Inês - A perspectiva de formação defendida pelo MEC é com o eixo do desenvolvimento profissional permanente. Não só porque existem professores que foram formados para formar outros alunos que não os que nós precisamos hoje, mas ela própria especificidade desta profissão. Nós, professores, lidamos com o conhecimento e atualmente ele se produz e se dissemina com uma rapidez muito maior. Então, se o professor hoje, se ele não estiver engajado nesse processo de mudança, que ele fica defasado com relação inclusive do seu próprio aluno. Se você pegar como exemplo a lida com o computador, as crianças vão para o computador sem o medo com que o adulto vai. E o acesso à informação pela Internet é quase que ilimitado.

Pergunta - Qual seria a solução para resolver essa falta de atualização dos professores?

Maria Inês - É preciso investir na formação, pois como a concepção dos professores hoje precisa estar situada no eixo do desenvolvimento profissional permanente, o que inclui tanto a formação inicial, quanto a formação continuada.

Pergunta - Caberia a quem essa formação continuada? Ao governo?

Maria Inês - Não só. As instituições que fazem formação inicial também devem estar fazendo formação continuada. Os sistemas de ensino, que empregam os professores, também devem estar provendo a formação continuada. É um desafio para o campo da educação como um tudo.

Pergunta - Você mencionou esse dinamismo do conhecimento, o que pode gerar defasagem no professor. Mas, por outro lado, a gente tem nessas novas tecnologias uma forma de acesso muito maior às informações. Com isso, hoje não seria mais fácil se atualizar?

Maria Inês - Quando a gente fala, por exemplo, nessa tecnologia, nós estaríamos pensando em educação

à distância. Sem dúvida é um recurso que nós precisamos utilizar, mas eu tenho sempre um grande zelo com isso, porque eu entendo que a formação não pode ser só à distância. A concepção de aprendizagem que hoje está quase que consensual entre os especialistas da área, pressupõe situações em que o professor tem um papel que não pode ser substituído pela máquina. Não é raro que os professores sintam diante deste quadro um certo receio da sua função ficar inócua.

Pergunta - Você poderia dar algum exemplo prático da mudança que se espera do professor dentro da sala de aula?

Maria Inês - Se a gente pudesse sintetizar isso, eu diria que o melhor professor hoje não é aquele que tem todas as respostas prontas, mas aquele que faz as melhores Perguntas, desafiando uma condição cognitiva que o aluno tem.

Pergunta - Não mudaria então o conteúdo, mas a forma?

Maria Inês - Eu diria que muda o tratamento dos conteúdos. A mudança visa vincular os conteúdos à vida. Não num sentido utilitarista. Mas de forma que o aluno possa se dar conta de qual o sentido daquele conhecimento para a vida.

Pergunta - Essa reforma pressupõe também mudanças nos livros didáticos?

Maria Inês - Isso já vem acontecendo. O MEC compra 60% da produção de livros didáticos das editoras brasileiras. A partir de 95, se iniciou um processo de olhar o que tinha dentro dos livros. Esse processo excluiu da lista de compra do MEC muitos livros que tinham erros graves, manifestação de preconceito e também os que tinham metodologia baseada na reprodução do conhecimento.

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