500 anos de Brasil: um olhar para as diferenças
Texto: Eva Rodrigues
Quem é o povo brasileiro? O resultado de uma mistura de branco, negro e índio? Questões definitivas e redutoras como essa bastam para incitar a historiadora Lídia M. Vianna Possas a um questionamento profundo sobre como vêm sendo conduzidas as comemorações de 500 anos do Brasil. Ela aponta um olhar para as singularidades do povo brasileiro como caminho para se chegar à complexa totalidade da historiografia nacional.
"Essas comemorações dos 500 anos que estão aí não dizem nada, apenas usam de um discurso homogeneizador, universalista e ufanista da sociedade brasileira, transformando a data em mais um produto de mercado que utiliza de forma exaustiva estereótipos de caravelas e índios para construir uma história do Brasil", alfineta Lídia.
A historiadora vai buscar na diversidade cultural do povo brasileiro a justificativa para a impossibilidade de uma história linear e homogênea. "Temos uma história de diferenças culturais, lutas e resistências, uma multiplicidade de práticas cotidianas. E é justamente essa diversidade que traz uma flexibilidade incrível ao brasileiro, capaz de inventar e reinventar a vida todos os dias por maiores que sejam as adversidades." E são todas essas subjetividades juntas que vão formar uma "história que caminha do lado oposto a uma proposta civilizadora, saneadora, ainda permeada por um sentido iluminista de cultura. Nossa história, ao contrário,
é constituída por histórias de particularidades."
Mas não se trata apenas de adotar uma postura contrária e afirmar que não se tem nada para comemorar nos 500 anos.
"Essa negação em celebrar parte de um princípio de aceitação da história como foi colocada", aponta Lídia. O caminho vislumbrado pela estudiosa é o da reflexão e do debate, no sentido de se fazer um exercício que introduza novos olhares, novas pistas e indícios que possam desvendar o universo dos segmentos até então excluídos ou silenciados na produção historiográfica, sejam eles os índios, os negros, as mulheres, os sem-terra. Nesse âmbito, é possível um paralelo com a física quântica que gerou grande celeuma entre os físicos ao manifestar que o infinitamente pequeno tinha leis próprias que eram não só diferentes, mas contraditórias com relação às leis dos grandes corpos.
Tirar os óculos
Mas como dar conta de tamanha fragmentação da vida? Lídia acredita que somente com uma mudança na na lógica de ver o mundo, "é preciso tirar os
óculos para que enxerguemos as diferenças e possamos rever as narrativas tradicionais que estabeleceram determinadas relações. É com essa reflexão que poderemos chegar a uma identidade nacional que contemple todos os olhares que formam o nosso povo".
O momento em que vivemos, explica a historiadora, é de rompimento de modelos que estão impregnados de uma visão de sociedade eurocêntrica que desconsidera nossas especificidades.
"É o europeu que chegou trazendo a civilização, o padrão de cidade, o modo de vida, a imposição de um modelo monolítico cultural (...) E ao rememorar os acontecimentos selecionados e conservados por narrativas históricas evidenciaremos o anacronismo de suas construções, tornando possível a visão de que outros povos são diferentes, pensam de outra maneira, constroem suas lógicas fora dos parâmetros do pensamento ocidentalizado."