Sindicalistas não se contentam com propostas do governo aos caminhoneiros
Texto: Patrícia Zamboni
A série de propostas apresentadas pelo governo federal, na última quarta-feira, aos caminhoneiros, que inclui a liberação do pagamento de pedágio em todas as rodovias federais privatizadas durante uma semana (a contar de ontem) e a criação do vale-pedágio (que entrará em vigor a partir de 11 de maio e obrigará o dono da carga transportada a pagar pelo pedágio), não agradou nem ao Sindicato das Empresas de Transporte de Bauru, liderado por Aparecido Fraile, nem ao Sindicato dos Taxistas, Caminhoneiros e Transportadores Autônomos de Bauru e Região, coordenado por Waldir Faria Freitas.
Para Fraile, "mais uma vez o governo está utilizando de chapéu alheio para fazer caridade". Na opinião do sindicalista, uma situação como essa não se resolve com Medida Provisória (MP). "Através de uma MP, o governo está tentando decidir um dilema que ele mesmo criou. O grande problema que existe hoje nessa questão chama-se pedágio. Esse é o grande nó do setor de transportes de cargas rodoviário. As empresas não estão conseguindo repassar o preço do pedágio para o frete. E se as transportadoras não conseguem cobrar do embarcador das cargas, como vão pagar para os autônomos? Então, o governo acha que editar uma Medida Provisória dizendo que, a partir de agora, o dono da carga ou o transportador passará a efetuar o pagamento do pedágio, vai resolver o problema. Na prática, eu quero ver se isso vai funcionar, porque o custo está muito elevado. Os embarcadores não querem pagar o valor do pedágio que deveria ser cobrado. Aí, como as empresas vão fazer o repasse disso para os autônomos?", questiona Aparecido Fraile.
De acordo com ele, se as empresas terão que pagar o pedágio, essa cobrança terá que ser repassada para o frete, o que vai elevar o custo final. Para Fraile, os contratos que o governo fez com as empresas concessionárias de rodovias
é grande fator influenciador em toda essa problemática.
"O governo fez contratos mirabolantes com as concessionárias de rodovias, que estão ganhando verdadeiras fortunas com preços de pedágio totalmente fora da realidade e reajustados pelo IGPM, que é o índice mais alto de reajuste que existe. Então, na prática, eu acho que, mais uma vez, o governo joga a situação para os outros resolverem. Além do mais, o governo nunca cumpre com suas promessas, como a de não subir o óleo diesel, e outras" afirma. Segundo Fraile, tudo o que foi prometido pelo governo federal aos caminhoneiros na greve passada, não foi cumprido, e ele não acredita que dessa vez será diferente.
"O que o governo está fazendo não vai surtir nenhum efeito. Liberar o pagamento do pedágio por uma semana não resolve o problema da categoria. Em alguns trajetos de determinadas rodovias, gasta-se mais com pedágio do que com combustível. Se o governo não abaixar os preços dos pedágios, eu não vejo solução para essa situação, nem para os autônomos, nem para as empresas de transporte, mais uma vez", coloca Aparecido Fraile, do Sindicato das Empresas de Transporte de Bauru.
Para Waldir Faria Freitas, do Sindicato dos Taxistas, Caminhoneiros e Transportadores Autônomos, a criação do vale-pedágio só poderá ser analisada como positiva ou negativa depois que a medida já estiver sendo aplicada. "Só na prática poderemos ver até que ponto isso vai funcionar. E se o valor do frete abaixar? Aí, esse pagamento terá que sair do bolso do caminhoneiro, mesmo. Em outros pontos, acho que as propostas atenderão
à maioria. O transporte de carga líquida, por exemplo, será prejudicado, e o transporte de carga seca será favorecido, porque não poderá mais ser feito em caminhão tanque", coloca Freitas.
Ele diz ser favorável ao diálogo, e acha que só se deve deflagrar greve no momento em que essas negociações foram esgotadas. "Eu sou a favor da greve quando se esgotam as negociações", afirma Freitas. O sindicalista, que concorda apenas parcialmente com as propostas do governo, quer ver como as coisas irão funcionar na prática, e acha que a categoria precisa de mais união, entre os Estados, para que as vitórias venham, de fato. No momento, a situação nas estradas da região de Bauru está tranqüila, segundo o coordenador do Sindicato dos Taxistas, Caminhoneiros e Transportadores Autônomos de Bauru e Região, que representa 54 cidades.