Lipoescultura peniana oferece riscos
Texto: Cleide Cavalcante/ AE
O implante de tecido biológico, em que é usado o mesmo material de cirurgias de válvulas cardíacas, tem sido uma boa alternativa ao invés da injeção de gordura
Mesmo sem garantia de sucesso, alguns médicos ainda oferecem a seus pacientes a lipoescultura peniana. E não é difícil encontrar um profissional para isso, basta abrir os classificados de jornais e revistas. O alerta é do cirurgião Lister de Lima Salgueiro, de São Paulo. As cirurgias são realizadas para aumentar o diâmetro do pênis, mas
- o que poucos homens sabem - as seqüelas podem ser graves.
"Em muitos casos, é necessária uma nova intervenção para limpar a área", explica o especialista. "Na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, por exemplo, há diversos relatos de casos de complicações em cirurgias deste tipo, o que pode gerar processos contra os médicos responsáveis." No Brasil, diz Salgueiro, o Conselho Federal de Medicina não enquadra a cirurgia como experimental.
"Acho que, por vários motivos, este procedimento deveria ser proscrito (proibido)", confirma o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, Paulo Palma.
Os homens procuram a lipoescultura peniana na esperança de aumentar em alguns centímetros o tamanho do pênis, mas não imaginam o transtorno a que estão sujeitos após algum tempo. Pior do que isso é o fato de que pelo menos 80% dos homens que se submetem a uma cirurgia deste porte não necessitam. "São homens que acham que têm o pênis pequeno, porém seus órgãos estão dentro do tamanho considerado normal", destaca Salgueiro. Antes de mais nada, verifica Palma, é necessário deixar bem claro que a lipo promete aumentar somente o diâmetro do órgão.
Ele comenta que os latinos, especialmente, têm uma preocupação excessiva com o tamanho do pênis. "É preciso ter em mente que o que vale é a mágica e não o tamanho da varinha de condão." O médico aproveita para chamar a atenção para um fato importante: "Existem vários procedimentos que não têm fundamento científico e são vendidos a peso de ouro. Sem contar que são procedimentos eticamente duvidosos", alerta.
A reportagem da Agência Estado entrou em contato com o Conselho Regional de Medicina de São Paulo. De acordo com o diretor de comunicação, João Eduardo Charles, o órgão não tem em seus registros nenhuma reclamação sobre a cirurgia. "Desconheço este tipo de tratamento. Aliás, nunca havia ouvido falar que fosse possível", comenta Charles, que é anestesiologista.
Entretanto, a falta de denúncias, conforme Palma, tem fácil explicação: "Os homens até percebem que foram ludibriados, mas não reclamam por vergonha".
Procedimentos da lipoescultura
A lipoescultura é feita injetando-se entre 100 e 150ml de gordura no pênis. Esta gordura pode ser retirada da barriga e conforme ela é injetada, o médico vai moldando o órgão com a mão, fazendo com que a gordura se espalhe igualmente em toda a área. "A gordura também pode ser retirada do púbis, região conhecida como monte de vênus. Diminuindo esta área, já dá impressão que o pênis ficou maior", afirma.
O problema ocorre, explica Salgueiro, normalmente uns seis meses depois. A gordura injetada no pênis começa a ser absorvida pelo próprio corpo. Ou pode acontecer dela descer para a bolsa escrotal. "Quando isso acontece, o pênis fica cheio de pelotas desformes de gordura." Para retirar a gordura da bolsa escrotal, a cirurgia é simples e rápida, mas não deixa de ser um grande transtorno.
O problema maior, no entanto, é quando ocorre a fibrose.
"Trata-se da formação de uma cicatriz que impede que a pele do pênis deslize normalmente. O homem passa a sentir muita dor na região. E quando a fibrose é muito grande, pode até entortar o órgão masculino. A cirurgia para fazer uma limpeza na área é inevitável", informa. E pior: após todo esse estresse e dinheiro gasto, o homem volta a ter a mesma anatomia de antes da primeira cirurgia.
Ligamento suspensor
Salgueiro alerta ainda para uma outra modalidade de cirurgia que promete aumentar o tamanho do pênis. "É um procedimento que solta o ligamento suspensor do pênis, que segura o órgão no osso da bacia. Cortando este ligamento, o pênis desliza até dois centímetros para a frente. Aqui também pode acontecer a fibrose. Mas pior do que isso é que o pênis, quando ereto, não terá a movimentação normal, uma vez que o ligamento suspensor foi cortado. Mesmo ereto, ele ficará sempre para baixo", adverte.
Outra moda, conforme Salgueiro, são os pesos. "Tem gente que chega a ficar duas horas por dia com pesos presos ao pênis. Isso não aumenta o tamanho do pênis". O especialista avisa que todas as cirurgias de aumento e alongamento do pênis não são comprovadas. "Os pacientes devem se avisados disso e dos riscos que estão correndo antes de se submeterem a uma intervenção deste tipo."
"Mesmo assim, as indicações são para casos bem específicos. Não é qualquer um que deve se submeter ao método", esclarece Palma.
Implante de tecido biológico
Para o cirurgião Enrique Crespo, que tem uma clínica na região dos Jardins, em São Paulo, o tamanho e a grossura do pênis têm a ver com a fantasia sexual do homem. "Os indivíduos costumam se influenciar com o que vêem na TV e nos filmes", diz. Segundo o médico,
é o paciente que deve decidir ou não pela cirurgia.
"Se um homem me procura se sentindo diminuído por causa do tamanho do pênis, costumo indicar a lipoescultura ou o implante de tecido biológico. Não tem problema, qualquer um pode fazer", indica.
No entanto, Crespo, que garante advertir os pacientes sobre os problemas decorrentes da lipoescultura peniana, concorda que o método não apresenta resultado definitivo. "A gordura injetada no pênis, aos poucos, vai sendo absorvida pelo organismo, especialmente quando o homem começa a ter relações sexuais. Então, é necessário que o paciente volte ao consultório para ir repondo a gordura que desapareceu, até que ela fique definitivamente no órgão. Isso pode levar até um ano", diz.
A lipoescultura, completa, apresenta os mesmos riscos de uma lipo normal, em outra parte do corpo. "Quando ocorre a fibrose, fazemos a drenagem linfática, e também massagens, tratamento com raio laser, que é um antiinflamatório potente, umas três vezes por semana. Mas se sabemos que a pessoa tem tendência para desenvolver cicatriz, usamos logo um corticóide."
Com relação ao tecido biológico, também para aumentar o diâmetro do pênis, Crespo explica que o produto é desenvolvido por um laboratório de Buenos Aires, o Hector Baroni. "Conseguimos aumentar o diâmetro em mais ou menos 20%. É o mesmo que faz a gordura. Porém, mais seguro. É o mesmo tecido que os cirurgiões usam em cirurgias de válvulas cardíacas", destaca.
O cirurgião afirma que trabalha há aproximadamente um ano com este material biológico e nunca teve qualquer problema. "Mesmo assim, é algo novo, temos de esperar o resultado do tempo", argumenta.
Exemplo
O mecânico N.M., de 49 anos, casado pela terceira vez, é paciente de Crespo. Há cerca de um ano, pagou R$ 2 mil por uma lipoescultura peniana. "Estava descontente com o tamanho do meu pênis, me sentia constrangido na frente dos amigos. Então procurei a clínica para ver se conseguia alguma melhora", lembra. "Nunca tive problemas de ereção, não estava contente mesmo era com a estética."
O cirurgião indicou a lipoescultura. "Mas foi um fracasso, em menos de dois meses, perdi a gordura que havia sido injetada", afirma. O mecânico voltou ao consultório e, desta vez, a indicação foi pelo implante de tecido biológico.
"Não tive medo de fazer o engrossamento com tecido biológico porque o médico me garantiu que iria dar certo e que já tinha feito isso em outros pacientes", confirma.
A segunda intervenção cirúrgica de N.M., pela qual pagou mais R$ 2,6 mil, foi há três meses. Para ele, "o resultado estético ficou ótimo".
"Tenho relações sexuais normalmente, sem dor. Devia ter feito isso logo na primeira vez."