Geral

Patrimônio histórico

Daniela Bochembuzo
| Tempo de leitura: 5 min

Móveis da Estrada de Ferro Noroeste podem ser tombados

Texto: Daniela Bochembuzo

Ao ser o primeiro conjunto de edifícios bauruenses a ser tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat), o Parque Ferroviário venceu a primeira batalha em busca de sua preservação, mas faltam outras. A segunda está prestes a ser iniciada:

é a abertura do processo de tombamento dos móveis da antiga Estrada de Ferro Noroeste, de Bauru.

Para que o processo seja aberto, no entanto, é necessário levantar todos os móveis de propriedade da Noroeste que estão preservados e têm valores histórico, sentimental e de uso para a antiga ferrovia. O trabalho deverá ser realizado pela professora Rosio Fernández Baca Salcedo, representante do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) no Condephaat.

Foi Rosio, em conjunto com Carlos Dêgelo, representante do gabinete da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, quem deu parecer favorável ao tombamento do Parque Ferroviário de Bauru, que inclui a Estação Central, a antiga Estação Noroeste, as oficinas e a Vila dos Funcionários.

Em razão do tombamento, ficaram proibidas quaisquer intervenções que possam descaracterizar vãos, alturas, materiais, volumes e demais itens originais dos imóveis. Agora, os edifícios somente poderão sofrer reformas após autorização do Condephaat, que exige a preservação do estilo arquitetônico do Parque Ferroviário.

De acordo com a conselheira, os móveis da antiga EFN devem ser preservados porque, assim como os edifícios, eles contam parte da história de Bauru.

"Esses objetos trazem às pessoas a lembrança do que foi a ferrovia para a cidade. Eles têm valor afetivo e artístico para a população e devem ser preservados e mantidos em Bauru. Eles emanam vida", afirma Rosio.

O trabalho de tombamento, no entanto, é demorado e complexo. Para que um processo desse tipo seja aberto, a professora precisará levantar os móveis disponíveis, seu estado de conservação e características que o caracterizem como parte de determinado período histórico. O valor de uso dos objetos também deverá constar no trabalho.

Rosio pretende concluir o levantamento até o final do ano e apresentá-lo aos conselheiros que compõem o Condephaat no início de 2001. Se os técnics do conselho comprovarem o valor desses móveis, eles poderão ser tombados.

Apesar do prazo longo, Rosio já sonha com a destinação desses móveis. "As locomotivas, por exemplo, poderiam ser usadas para programas culturais, transportando estudantes para conhecer a região e sua história ferroviária", planeja.

Atualmente, parte desses móveis, o que inclui vagões e mobiliário, encontram-se espalhados pelas unidades da ferrovia. Em Bauru, parte deles está amontoado em um dos galpões das oficinas, sofrendo a ação do tempo.

Para Cleide Biancardi, diretora da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp e autora do projeto de tombamento da antiga Estação da Noroeste, tanto os móveis quanto os imóveis da antiga Estrada de Ferro Noroeste poderiam ser recuperados por meio de um mutirão comunitário.

"Tenho certeza que muitos ferroviários aposentados ficariam felizes em contribuir com algumas horas de trabalho para a recuperação desse patrimônio de Bauru", afirma Cleide.

Projeto de tombamento

começou na década de 80

O projeto de tombamento do Parque Ferroviário de Bauru tem, pelo menos, 14 anos de existência. O primeiro trabalho concreto para a preservação desse patrimônio foi feito pela professora Cleide Biancardi, diretora da Faac da Unesp de Bauru.

Em 1986, Cleide participou de um curso sobre patrimônios de São Paulo. Na ocasião, o professor do curso sugeriu a ela que realizasse um projeto de tombamento, preferencialmente relacionado a algum edifício pertencente ao Parque Ferroviário da Estrada de Ferro Noroeste de Bauru.

Cleide aceitou a proposta e escolheu o prédio da antiga Estação da Noroeste, construído em 1910. Mergulhando em seguida em jornais antigos, a professora levantou informações históricas e arquitetônicas e anexou fotos aéreas do local. "Me apaixonei pelo trabalho", lembra a professora.

O trabalho, apresentado ao professor e encaminhado à direção da Noroeste e ao Condephaat, resultou no tombamento do edifício, na década de 90.

Além disso, o projeto de Cleide serviu de base para a abertura processo de estudo de tombamento de todo o Parque Ferroviário de Bauru, iniciado em 1992 pelo arquiteto Nilson Ghirardello, então representante do curso de arquitetura e urbanismo da Unesp no Condephaat.

Em 1999, a professora Rosio Fernández Baca Salcedo, como nova representante da Unesp no Condephaat, retomou o processo e solicitou a inclusão de outros importantes edifícios para tombamento: a Estação Central, a Vila de Funcionários e as oficinas.

Para fundamentar a inclusão, Rosio orientou uma pesquisa de opinião junto à população de Bauru, na qual constatou-se que 20% dos entrevistados consideravam a Estação Central um dos mais importantes patrimônios históricos de Bauru.

Finalmente em 3 de abril de 2000, durante reunião do Condephaat, Rosio e Carlos Dêgelo apresentaram parecer favorável ao tombamento do Parque Ferroviário, que foi acatado pelos outros conselheiros do órgão. Dessa maneira, Bauru ganhava seu primeiro conjunto de edifícios tombados e considerados patrimônio histórico e arquitetônico do Estado de São Paulo. (DB)

Conheça os patrimônios

histórico e arquitetônico

* Antiga Estação da Noroeste

Construída entre 1905 e 1908, atualmente abriga o Museu Ferroviário. Mantém a infra-estrutura física original e está em bom estado de conservação. Foi o primeiro edifício a ser tombado.

* Vila dos Funcionários

Foi construída em 1918. Inicialmente, era formada por 14 casas germinadas. Atualmente, a vila tem 12 residências, sendo que muitas delas já sofreram alterações nas fachadas e no espaço interno, encontrando-se em regular estado de conservação.

* Oficinas

Foram construídas em 1918. Nelas fabricava-se e restaurava-se tudo que a EFN necessitasse: locomotivas, equipamentos mecânicos, trabalhos de marcenaria e serralheria. Os galpões das oficinas, atualmente, são depósitos das maquinarias e estão em regular estado de conservação.

* Estação Central

Foi inaugurado em 1939. Por sua imponente dimensão e arquitetura em estilo art-decô, é considerada uma das maiores do País. Nela, por muitos anos, operariam as companhias Noroeste, Paulista e Sorocabana. O edifício mantém as características físicas originais. Atualmente, o primeiro e o segundo pavimentos estão desocupados e o pavimento térreo abriga alguns funções da estação.

* Área envoltória

Os edifícios que estão em volta da Praça Machado de Mello também foram incluídos no tombamento. Seu tombamento é parcial, o que significa que não podem ser alterados seus recuos e restrições de gabaritos de altura, como forma de assegurar ao bem tombado (Parque Ferroviário) a ambientação adequada e evitando prejuízo à sua visibilidade e espacialidade.

Fonte: Prof.ª Rosio Fernández Baca Salcedo

Comentários

Comentários