Uso da tecnologia pode trazer riscos
Texto : Ana Maria Ferreira
A civilização do século XXI está sendo considerada como místico-tecnológica por alguns e não é difícil experimentar situações que mais parecem saídas de um livro de ficção, mas que são reais, parte integrante dos resultados da evolução tecnológica científica. A formação de uma tecno-sociedade é o resultado do descontentamento do homem com as possibilidades do real passando a residir no virtual jogando seus anseios, desejos e emoções, de acordo com artigo dos professores da ECA/USP, Glória Kreinz e Renato Pignatari.
Os avanços da tecnologia implicam, também, numa mudança de hábitos sociais, já é preciso aprender a utilizar essa tecnologia disponível para se beneficiar dos recursos por ela oferecidos, ou seja, é necessário criar novas formas de se fazer o que se fazia antes, aliada à idéia de "melhoria da qualidade de vida" e economia de tempo.São aparelhos eletroeletrônicos que prometem uma verdadeira revolução no dia-a-dia, informação, rapidez e conforto; alimentos mais fortes e resistentes a um custo menor; medicamentos mais eficazes para o tratamento e a cura de doenças que assolam a humanidade entre tantas outras "descobertas" . Hoje já estamos diante da iminência do lançamento da terceira geração de aparelhos celulares, com imagem e transmissão de dados via Internet, e de microcomputadores portáteis que surgem como símbolos da modernidade. A interligação de aparelhos domésticos feita somente por transmissão de ondas, na cozinha da dona de casa high tech, já é uma realidade nos Estados Unidos e no Japão. O mundo sofreu um verdadeiro abalo, em fevereiro de 1997, com o anúncio da clonagem da ovelha Dolly e o teletransporte de partículas de luz, anunciado por pesquisadores da Universidade de Innsbruck, na Áustria. Esse final de século revelou imagens do planeta Marte, feitas durante a missão Pathfinder, o mapeamento do DNA, a descoberta dos menores seres vivos, os nanóbios, a observação da explosão de raios gama, a possibilidade de que o homem de Neandertal não seja nosso antecessor, o oceano de Europa, lua de Júpiter, entre outras. As descobertas não param de chegar à mídia. A modernidade é uma realidade, mas, no entanto, a possibilidade da existência de riscos para a saúde do ser humano ainda não foi totalmente afastada. As críticas recaem sobre os aparelhos celulares, os fornos de microondas, os alimentos transgênicos e novos medicamentos, mas as pesquisas não foram conclusivas.O técnico de manutenção do IPMet de Bauru, Ailton Piva, não vê problemas no uso constante de celulares, microcomputadores, microondas etc, porque segundo ele, esses aparelhos emitem radiações não-ionizantes, que não afetam o ser humano, apenas geram um efeito térmico. "Ainda está em discussão os efeitos da emissão de radiação por aparelhos eletroeletrônicos. Há dois tipos de radiação, a não-ionizante que é aquela que não provoca alteração na célula, no caso câncer, e a única radiação ionizante é o raio-x, que provoca essa alteração, por ser onda eletromagnética numa freqüência muito altas. Onda de rádio, televisão, microondas, computador, tudo que tem corrente elétrica circulando emite corrente eletromagnética. O espectro é muito amplo começando em 60 Mhz, por exemplo, a energia de uma tomada, até raios gamas que vêm do espaço em freqüência muito alta. O celular opera numa faixa de freqüência de 900 Mhz, considerada baixa em relação ao raio-x, e não foi provado nada sobre a possibilidade de danos ao ser humano", declara Ailton. O forno de microondas, gera uma agitação térmica nas moléculas (calor) e opera numa freqüência próxima a do radar (2.8 Ghz). Ficar exposto a uma radiação desse porte pode causar queimaduras.
O engenheiro de segurança, José Eduardo Pereira da Silveira, segue as orientações do manual de segurança organizado pela Fundacentro, e no seu ponto de vista, o uso de aparelho celular ou do microondas não representa riscos para a saúde do homem, já que a ciência ainda não concluiu nenhum estudo que, efetivamente, comprovasse o fato. Os estudos que estão sendo feitos sobre as microondas e os efeitos térmicos, mostraram que quanto maior a freqüência, maior é o risco em órgãos internos. Por outro lado, quanto maior a potência e o tempo de exposição, maiores são as possibilidades de os expostos ficarem doentes e, em casos extremos, morrerem. As pesquisas em relação ao campo elétrico e magnético, mostram que, a longo prazo, as pessoas expostas podem sofrer de alta pressão no sangue, alterações do sistema nervoso central, do cardiovascular e endócrino, distúrbios menstruais. Aparelhos que utilizam microondas na faixa de 2.450 Mhz, usados potencialmente para secagem de cerâmica e porcelana, conserto de asfalto, destruição de microorganismos, tratamento têxteis, secagem de couro etc, devem ter atenção especial.Celular em especialOs telefones celulares têm sido apontados por médicos, institutos de pesquisa e órgãos de defesa do consumidor de todo o mundo como uma das causas mais visíveis, apesar de nova, de diversas doenças degenerativas como câncer, mal de Parkinson, mal de Alzheimer, leucemia entre outras. O que poucas pessoas sabem é que suas ondas eletromagnéticas também podem afetar rins e coração, segundo estudo divulgado por um jornal britânico.A pesquisa, realizada pelo Imperial Medical School, de Londres, descobriu que a exposiçãocontínua à radiação de baixa freqüência emitida pelos telefones celulares afeta o nível dehemoglobina no sangue, o que pode incitar a formação de pedras nos rins e facilitar osurgimento de doenças cardíacas. O acúmulo dessa substância no organismo pode levar a doenças cardíacas e dos rins, especialmente devido ao hábito da maioria dos usuários de usar o celular no bolso ou preso ao cinto, diz a pesquisa.A discussão em torno dos efeitos nocivos das ondas eletromagnéticas tem levado diversosgovernos, especialmente dos países nórdicos, a aprofundarem suas pesquisas. No entanto,apenas dois países caminham rumo ao estabelecimento de políticas oficiais de proteção aosconsumidores. No ano passado, o governo americano determinou que as próximas gerações de telefones celulares emitam menores quantidades de radiação eletromagnéticas. Já em Israel, o Parlamento acaba de aprovar uma lei segundo a qual os telefones celulares deverão exibir um alerta sobre os males que podem causar à saúde dos usuários.
Novos alimentos
A polêmica sobre as recentes pesquisas científicas e o seu uso, em larga escala, incluem os alimentos transgênicos que, no Brasil, são comercializados na forma de produtos industrializados, como batata frita e outros, mas o plantio de sementes geneticamente modificadas ainda não foi liberado.
Um assunto em discussão no meio acadêmico é a decretação do fim dos aditivos químicos para evitar a infestação dos alimentos por microorganismos, que serão substituídos pela irradiação. O Instituto de Pesquisas Nucleares e o Centro de Energia Nuclear para a Agricultura da USP, desenvolveram estudos sobre a irradiação de alimentos e afastam a possibilidade de haver radiação nos alimentos, já que eles não entram em contato com a fonte irradiadora.
A novidade já atingiu os produtos para exportação que são irradiados já na embalagem, evitando assim a reinfestação imediata. Podem ser irradiados, entre outros, feijão, arroz, batata, milho, cebola, tomate, laranja, morango, banana, peixes e aves.
A irradiação de alimentos tem três utilidades principais: controlar a infestação por insetos, inibir a deterioração do vegetal e descontaminar alimentos que contenham microorganismos. Descobriu-se que os produtos químicos usados nas lavouras deixam resíduos cancerígenos que se acumulam no organismo e um outro destrói a camada de ozônio.
As mudanças demandam tempo para serem assimiladas e incorporadas
à vida do cidadão comum, cabendo a responsabilidade sobre os efeitos nocivos desta ou daquela tecnologia tanto ao governo, no papel de fiscalizador e estabelecendo as regras gerais de comércio dos produtos, quanto ao consumidor que deve estar consciente de sua escolha.