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Recuperação

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 7 min

Ex-Policial brasileiro luta pela vida em Miami

Texto: Paulo Toledo, enviado especial a Miami

Um ex-policial civil de Ribeirão Preto, Danilo Ávila, 34 anos, desde 1990 luta por sua vida e pela conservação da sua dignidade, buscando recuperar parte dos movimentos de seu corpo, depois de receber, há 10 anos, um tiro entre a quarta e a quinta vértebras da coluna cervical, ao salvar a vida de um casal de Ribeirão Preto, sua cidade natal. O ato o deixou tetraplégico e, hoje em dia, ele participa de um trabalho de recuperação em Miami, nos Estados Unidos.

Danilo Ávila conseguiu a duras penas ser incluído no programa "The Miami Project to Cure Paralysis" do Jackson Memorial Hospital, gerenciado pelo médico Bernard S. Brucker, o mesmo que cuidou e recuperou Emerson Fittipaldi após o acidente na Fórmula Indy em 1995. Desta vez com ajuda de alguns amigos, Ávila até o dia 23 de maio desenvolve parte do avançado tratamento de recuperação dos movimentos naquele hospital-escola da Faculdade de Medicina da Universidade de Miami.

Porém, como no Brasil nem sempre os heróis têm o lugar que merecem, Danilo vê minguarem os seus recursos e está prestes a descontinuar o tratamento, em razão dos altíssimos custos do sistema de saúde norte-americano. Esta é uma semana decisiva para Danilo Ávila não paralisar, por falta de meios, os avanços alcançados: o braço esquerdo já dá sinais de movimentos, um dos resultados iniciais do trabalho de reabilitação da equipe médica do doutor Brucker.

Em Miami, autoridades policiais do Miami-Dade Police Department, do West Palm Beach Sheriff's Office, e de instituições como o Youth Crime Watch of America, a Police Beneficent Association e a International Police Association, se empenham na busca de uma ajuda mais efetiva para Ávila.

O Consulado-Geral do Brasil, por seu turno, se desdobra para viabilizar a assistência ao ex-policial. O Cônsul-Geral do Brasil em Miami, embaixador Luiz Fernando Benedini, vem trabalhando, pessoalmente, para obter junto a empresários brasileiros e outras fontes, os US$ 25 mil necessários para se prosseguir com esta etapa do tratamento.

A mobilização nos Estados Unidos partiu sobretudo de Michael Delong, do Xerifado de West Palm Beach e presidente da regional da International Police Association (IPA); Ronald Boerst, vice-presidente nacional da IPA; Gerald Rudoff, tenente do Miami-Dade Police Department e presidente do Youth Crime Watch of America (YCWA); Terrence Modglin, diretor-executivo do YCWA; e Steven Shai Gold, diretor de área do Jackson Memorial Hospital.

O acidente

Danilo, aos 24 anos, foi ferido, em Ribeirão Preto, na madrugada de 13 de maio de 1990, ao salvar a vida de um casal que estava sendo assaltado por dois homens. "Como policial, jamais poderia me omitir a um assalto", lembra. Na tentativa de impedir a concretização do crime, o ex-policial deu voz de prisão a um dos assaltantes. Sem contudo perceber a presença de um segundo marginal, por trás, "à queima-roupa" foi atingido por um tiro entre a quarta e a quinta vértebras da coluna cervical. Resultado: a violência da agressão o deixou tetraplégico.

No curso da sua hospitalização, ele teve três paradas cardíacas e uma pneumonia grave, ficando quase 30 dias em Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Depois, graças aos esforços de seus companheiros policiais, foi transferido para o Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, onde ficou internado por 19 meses, na busca de, reabilitado, voltar a reintegrar-se

à sociedade. "Foi lá que aprendi sentar em uma cadeira de rodas, ter os cuidados com sondas e laxantes, além dos medicamentos que teria que tomar diariamente", conta.

Em Brasília, sua mãe Dora dos Santos, que largou tudo para cuidar do filho, teve os primeiros aprendizados sobre o que seria necessário para manutenção do ex-policial que não teria mais movimentos do pescoço para baixo.

Dora conta que superou o desespero inicial, largou suas atividades de representante de vendas, e vem se dedicando, diuturnamente, 24 horas por dia, para cuidar do filho.

Apesar dos dez anos de cadeira de rodas, ele não tem nenhum membro atrofiado, graças às fisioterapias procedidas pela própria mãe, em razão de não ter condições de pagar um profissional especializado. Dora conta com ajuda de outros familiares e se tornou mais do que mãe e artífice da recuperação do filho: é a melhor amiga, secretária, motorista, entre outras coisas.

Superação

Dono de uma personalidade marcante, Ávila vem lutando para ser um homem normal. Dentro das limitações que o acidente lhe impõe, mesmo assim, é um ativista dos trabalhos em prol dos portadores de deficiências. Apesar das dificuldades, faz sempre questão de dizer que não está em busca de esmolas, de mendigar a assistência que lhe é devida; fica até constrangido em informar o número de sua conta bancária para fins de receber colaborações.

Danilo Ávila revela que os primeiros seis meses depois do acidente foram "terríveis". Naquele período pensou até em suicídio. Porém, católico e temente a Deus, com o dia a dia no hospital de Brasília e a convivência com outras pessoas que passavam por problemas semelhantes, despertaram a vontade de viver de Ávila, que queria voltar para casa e estar mais perto da família.

"Era um mundo novo que estava começando a surgir. Sempre tive Deus no meu coração e tenho a esperança de voltar a andar", disse emocionado.

Pós-graduado

Danilo teve a casa em Ribeirão Preto adaptada para as circunstâncias. Com a ajuda da mãe, voltou a estudar e na faculdade, concluiu o curso de Análise de Sistemas. Não contente com isso, foi à luta e fez, também, uma pós-graduação em Redes, obtendo nota dez com louvor na defesa de sua tese.

Em Ribeirão, Danilo Ávila se tornou um ativista pelos direitos dos portadores de deficiência, trabalhando pela queda das barreiras arquitetônicas existentes naquela cidade. Planeja criar em Ribeirão um hospital nos moldes do Sarah Kubitschek. É um projeto que começou a ser desenvolvido, mas ainda não se concretizou, apesar do apoio da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). "O centro de reabilitação é um sonho para que as pessoas possam ter uma assistência especializada, sem ter que ir a Brasília. Nem todos têm a oportunidade que tive" afirmou.

O ex-policial ajudou a formar profissionais e montou, ainda, uma cooperativa de informática, em Ribeirão Preto, que, inicialmente, gerou 60 empregos. "Não poderia ficar parado", afirmou.

O sonho de Danilo Ávila é constituir família, poder trabalhar e se autosustentar, e dinheiro suficiente para pagar os profissionais da área médica e os medicamentos de que precisa para viver. No entanto, os pouco mais de R$ 800,00 que recebe de aposentadoria sequer cobrem as suas mais básicas necessidades.

O Tratamento

O programa coordenado por Bernard Brucker, tem ajudado o ex-policial Danilo Ávila a se redescobrir. As sessões do tratamento já "ensinaram" o ex-policial a como mexer o braço esquerdo. Para ele, isso é um grande passo, pois é o caminho para que tenha uma independência maior.

A chegada de Ávila a Miami se deu graças à indicação de pessoa que conhecia o trabalho realizado pelo doutor Brucker. Porém, na época, a escassez dos recursos não lhe facultou o tratamento. Mais tarde, através de contato com o médico Luiz Botelho - que trabalhou em Miami - veio a conhecer Brucker. Há três anos ocorreu a primeira viagem aos EUA. Naquela oportunidade foi feita sua avaliação médica inicial e Danilo então considerado apto, pôde registrar-se no tratamento do programa "The Biofeedback Laboratory". Lamentavelmente contudo, uma vez mais, as condições financeiras o impediram de dar seqüência ao tratamento.

Desta vez, Ávila foi para os Estados Unidos com a garantia de fazer dez sessões. Porém os simpatizantes de sua causa querem obter o valor total para a etapa completa do tratamento. O ideal é que no processo de reabilitação, o ex-policial passe três meses, no Jackson Memorial, por fisioterapia e reeducação. Uma estimativa otimista sugere um custo de US$ 25 mil.

Ávila destaca além dos amigos policiais americanos citados, o apoio que vem tendo do embaixador Benedini, "um caso raro de interesse de um diplomata brasileiro por uma causa humanitária deste porte" e do delegado-geral de Polícia de São Paulo, Marco Antônio Desgualdo, e da Associação dos Investigadores do Estado de São Paulo, entre outras pessoas que estão tendo papel decisivo no tratamento, como o vice-cônsul Huberth Neiva, que vem articulando o trabalho nos Estados Unidos.

Recentemente, Danilo Ávila recebeu a visita e o apoio do tenente Jorge Duarte Miguel, da Polícia Militar de Bauru, que esteve em Miami. (PT)

Serviço

Qualquer contribuição em favor de Danilo Ávila poderá ser feita através da família do ex-policial nos seguintes telefones: (11) 5082-1213 e (16) 610-8107, ou diretamente para sua conta em qualquer agência do Banco do Brasil agência 0028-0, conta 16.533-6.

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