Geral

Artista autodidata

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Exemplo de vida

Texto: Gustavo Cândido

Internada no Instituto Lauro de Souza Lima, onde veio realizar uma cirurgia em um dos pés, Dona Leomira passa a maior parte do seu tempo livre desenhando rostos e escrevendo poesias em um caderno. Isso não seria um fato especial não fosse um detalhe importante: Dona Leomira não possui a mão esquerda, amputada por causa de um tumor e os dedos da mão direita, perdidos pela hanseníase. Muita simpática, esta senhora de uns 68 anos de idade (vaidosa, ela não revela exatamente de jeito algum), natural de Potirendaba, no norte do Estado de São Paulo, conversou com o Jornal da Cidade e falou sobre seus trabalhos, sua vida e seu sonho: editar um livro com suas poesias.

Jornal da Cidade - Por que a senhora está em Bauru?

Leomira Gentini - Vim pela primeira vez para Bauru em 97, para cuidar da minha mão esquerda, que acabou sendo amputada por causa de um câncer. Voltei agora em 99 para fazer uma cirurgia nos pés. Assim que me recuperar volto pra casa.

JC - Como a senhora perdeu os dedos da mão direita?

Leomira - Eu trabalhava como telefonista em Presidente Bernardes. Trabalhei por 19 anos quando as minhas mãos começaram a encolher. Achei que não ia conseguir fazer mais o meu trabalho e pedi demissão e fui embora para São Caetano do Sul. Lá, ainda trabalhei como telefonista na Companhia Telefônica da Borda do Campo (CTBC), até que tive a idéia de abrir uma banca de jornais. Esse trabalho é pesado e eu não sabia, não tinha experiência. Aos poucos fui ferindo a minha mão e fui perdendo-a por causa da hanseníase. A gente vai perdendo e nem percebe. Na realidade não é a hanseníase que provoca a perda, mas sim os ferimentos, que não cicatrizam. Se a gente cuidar dos membros, eles ficam intactos. Meus pés, por exemplo, nunca me deram problema. A operação que fiz aqui foi só para colocar um dos pés na posição certa, ele estava entortando. Mas os dedos fui perdendo sem perceber, quando vi...

JC - Como a senhora se adaptou para viver sem as mãos?

Leomira - Fui acostumando. Para escrever coloquei um elástico na caneta. Prendo na minha mão e escrevo. Não faço todos os tipos de movimento, claro, tenho limitações. Mas escrevo com letra de mão e letra de forma e nem tive escola.

JC - Por que não?

Leomira - Na minha época as mulheres não eram muito valorizadas e os avós diziam que as filhas não precisavam ler e escrever. Isso era quase um crime. A mulher nascia para ser mãe, ter filhos, cuidar da casa e só. Mas eu fui um pouco auto-didata. Meu pai me ensinou um pouco, mas como ele tinha pouca paciência parou de me ensinar. Depois minha avó me ensinou mais um pouquinho.

JC - Quando a senhora começou a escrever poesias?

Leomira - Em 1959 comecei a escrever mais, mas já escrevia desde 1946, quando terminou a guerra. O negócio

é que eu nunca pensei em escrever como em 89, 91, 97, antes eu escrevia e jogava fora, não guardava. Agora tomei gosto pela coisa e comecei a escrever. A última que eu fiz foi em homenagem à semana da enfermagem (leia no boxe). Agora com os desenhos que estou fazendo tenho tido menos tempo.

JC - Quando a senhora começou a desenhar?

Leomira - Há um mês.

JC - Só isso? E ninguém ensinou?

Leomira - Não, comecei olhando uma foto. Tinha uma senhora aqui que olhava para a foto e desenhava, ai um dia veio um rapaz e deixou com ela uma foto para ela desenhar. Como ela teve alta eu pedi para ele deixar a foto comigo para eu tentar desenhar. Dai comecei e depois fui olhando um fotos de revistas para fazer outros desenhos. Ainda não desenho bem mas vou me aperfeiçoar.

JC - Mas a senhora já tinha tido alguma experiência com artes?

Leomira - Já tinha pintado quadros antes, pintura a óleo, mas nunca tinha desenhado rostos humanos. Estou aprendendo. Tem mais uma coisa, eu faço música também. Comecei na década de 60, fiz a letra e música, mas não escrevo a partitura, um maestro fez isso pra mim. Participei de um festival na rádio Record em 1966 e também participei de um festival no Rio de Janeiro, "Um Milhão por uma Canção", mas é claro que não ganhei. Tinha gente como Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil participando.

JC - As pessoas não ficam espantadas quando vêm que a senhora faz tanta coisa apesar de ter perdido uma das mãos e ter movimentos apenas parciais com a outra?

Leomira - Ficam e eu acho isso até normal...

JC - A senhora não se acha um exemplo de vida?

Leomira - Acho que sim, eu sou mesmo um exemplo de vida, sempre fui assim, mas eu não tinha a mentalidade que tenho hoje. Sempre fui muito teimosa, fiz o que estava com vontade de fazer e aprendi a fazer tudo sozinha. Aprendi a costurar, a bordar, agora a desenhar...

JC - Muitas pessoas poderiam se acreditar incapacitadas se estivessem no seu lugar...

Leomira - Muita gente que me vê assim acha que eu não faço nada, mas eu adaptei a caneta e escrevo, ou seja, se não tivesse feito isso, encontrado uma solução, não escreveria, não faria tudo sozinha e eu faço. O que eu quero agora é editar as minhas poesias, é o meu maior desejo.

JC - O que a senhora diria para pessoas que passam por situações semelhantes a sua?

Leomira - Eu diria que a vida continua sempre. Mesmo com seqüelas do jeito que eu estou e outras pessoas estão, a gente têm de enfrentar a vida. Não é o fim do mundo, para mim não foi o fim do mundo. As pessoas precisam ir sempre em frente e serem teimosas. Eu sou teimosa, se quero fazer uma coisa eu não sossego até conseguir. Eu tenho limitações mas não sou incapaz.

Homenagem à Semana da Enfermagem

Encontramos, nos atalhos da vida, caminhos guarnecidos de espinhos

Prontos para ferir o pé do cansado caminhante...

E desesperados de coração que buscam uma réstia de luz...

Para que a vida lhe seja menos decepcionante!

Encontramos, no percurso da vida, Anjos de Branco,

Num leve esvoaçar... num vai-e-vem pelos corredores...

Que a passos largos... apressados... ouvidos atentos...

Para aliviar; dos sofridos suas cruciantes dores!

Encontramos uma vida, que tremula por um fio...

Com o coração fraco... lento... prestes a parar...

E, gente que se agita... num vai-e-vem... num corre-corre

E, mãos que trabalham... pensamentos à orar!

Encontramos, a mãe aflita no silêncio da noite

Acalentando, em seus braços, o filho amado a chorar...

Os raios da aurora rompem... quebram a madrugada...

E o filho adormece... ela não, pois precisa ir trabalhar!

Encontramos passos firmes, querendo ir e não parar...

Olhos rasos d'água... mas o pranto encoberto

Pessoas que valorizam o sentido da vida,

Porque sabem que o tempo se apresenta sempre incerto!

Encontramos braços que estendem num abraço amigo

Mãos leves e delicadas que derramam esperanças...

Ao aflito que busca um porto seguro.

Certo que, depois da tempestade vem a bonança! Encontramos, palavras que nos consolam... nos confortam...

Mãos estendidas que servem... ouvidos para ouvir...

Gente de sorriso largo... caminhar brando...

Nos mostrando sempre a grandeza de servir.

Encontramos, um pequenino ser pedindo para nascer...

E a mãe que ora a Deus e, conta segundo por segundo..

De repente um choro, um choro forte como a dizer: "Mamãe?! Cheguei!"

E ela agradece à Deus e aos Anjos de Branco, por trazerem seu filho ao mundo.

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