Sem-terra invadem fazenda em Itapuí
Texto: Fábio Grellet
Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) ocuparam, na madrugada do último sábado, a fazenda Olho D'Água, situada às margens da estrada vicinal
Ângelo Poli, na zona rural de Itapuí. A propriedade pertence a Joaquim Álvaro Pereira Leite Neto, que mora em São Paulo e mantém três funcionários para tomar conta da fazenda. Eles moram em Itapuí e passavam o dia na propriedade, até que ela foi ocupada.
Segundo um dos coordenadores da ocupação, o sem-terra Sebastião Bonfim, a fazenda tem 310 alqueires. Outras informações extra-oficiais dão conta de que ela teria 250 alqueires. Como a propriedade fica na divisa entre os municípios de Itapuí e Bariri, há ainda uma terceira versão, de que essa área de 250 alqueires corresponde apenas àquela situada no município de Itapuí. No território que pertence a Bariri, haveria outros 350 alqueires. Em toda sua extensão, conforme o delegado de Itapuí, Roberval Fabbro, afirma ter ouvido dos funcionários da fazenda, não há qualquer cultivo. Existem galpões onde estão guardadas 8,5 mil sacas de café e haveria, ainda, 200 cabeças de gado. Há também várias casas e veículos, aparentemente abandonados.
A ocupação foi feita pelas famílias de sem-terra que estavam em Jaú - onde, desde o dia 28 de janeiro, ocuparam outras oito áreas do município, sempre tendo que deixá-las por decisão judicial. Há cerca de dois meses, as famílias passaram a ocupar uma área que pertence à Igreja Católica e fica situada na rodovia que liga Jaú a Brotas. A instituição autorizou que elas permanecessem ali, até que a Justiça permitisse a ocupação de outra área, devidamente liberada para compor o programa de reforma agrária. Na madrugada do último sábado, porém, os sem-terra começaram a deixar o local, transferindo-se para a fazenda Olho D'Água, em Itapuí.
Segundo Bonfim, todas as famílias que estavam reunidas no acampamento do MST em Jaú - cerca de 50 - devem se transferir para a área ocupada em Itapuí. Até ontem
à tarde, porém, havia cerca de 20, na nova área. Bonfim disse que as demais estariam a caminho da fazenda.
O líder do acampamento disse que manteve apenas um contato com os três funcionários que tomam conta da fazenda. Eles teriam conversado com os sem-terra na manhã de anteontem e, segundo Bonfim, não reagiram à ocupação. Antes, na noite de domingo, o sem-terra alega que uma camionete Chevrolet S-10, de cor cinza, parou próximo ao local onde os sem-terra estão acampados e, do interior dela, alguém disparou tiros para o alto. Bonfim atribuiu a ação ao proprietário da área, mas nem sequer um boletim de ocorrência foi feito, para registrar o caso. Na tarde de ontem, enquanto a reportagem do Jornal da Cidade estava na fazenda, uma S-10 da mesma cor e com placas de Agudos esteve rondando a área.
Conforme Sebastião Bonfim, o MST comunicou a ocupação da fazenda ao Instituto de Terras do Estado de São Paulo
(Itesp) e ao Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária (Incra), tentando agendar com os funcionários deste órgão uma vistoria, durante a qual seria avaliada a existência dos requisitos exigidos para que as terras sejam integradas ao programa de reforma agrária do governo federal. Mas os funcionários do Incra estão em greve. Segundo Bonfim, representantes do Itesp são aguardados no acampamento, para intermediar negociações entre os sem-terra e o proprietário da fazenda, evitando atritos entre eles. Informações não confirmadas oficialmente dão conta de que o proprietário da fazenda ingressou anteontem com uma ação de reintegração de posse, no Fórum de Jaú. Mas o juiz competente não teria se manifestado sobre o caso, ainda. Bonfim afirmou que os sem-terra não pretendem desocupar a fazenda.
Fazenda é depósito de carros, casas e café
A fazenda Olho D'Água pertence a Joaquim Álvaro Pereira Leite Neto e, segundo uma versão corrente entre os moradores de Itapuí, teria sido um presente de casamento que ele recebeu, em 1970. Durante os cinco anos seguintes, a área foi ocupada com o cultivo de café. Desde então as plantações estariam abandonadas, mas o local ainda serve como depósito de café. Três funcionários tomam conta da fazenda, onde ainda estariam vivendo cerca de 200 cabeças de gado.
Conforme moradores de Itapuí, a família de Pereira Leite teria sido, há cerca de 30 anos, uma das maiores produtoras de café do Brasil. Atualmente, além da fazenda de Itapuí, Joaquim Pereira Leite Neto teria fazendas em Garça e Campinas, além de uma propriedade em Pederneiras.
Bastante próxima do município de Itapuí - um dos acessos a ela fica a apenas quatro quilômetros da cidade, aproximadamente -, a propriedade rural de Itapuí ainda abriga gigantesca quantia de café. Em galpões espalhados pela fazenda, há 8,5 mil sacas do produto - segundo os funcionários contaram ao delegado de Itapuí, 5 mil contêm café em coco e outras 3,5 mil guardam o produto já moído. Aparentemente, a maior parte desse café tem mais de dez anos, e uma parcela já está embolorada.
Além dos galpões que guardam o café, há algumas casas - uma delas com uma piscina de dois níveis
- e vários veículos antigos abandonados - como um Landau, um Olds Mobile e uma camionete Ford F-100 que aparenta ter sido produzida na década de 60. Todos estão em péssimo estado de conservação.
Segundo o delegado de Itapuí, Roberval Fabbro, apenas entre agosto e outubro de 1998 foram furtadas 13 toneladas de café da fazenda, mas Pereira Leite nem sequer compareceu à delegacia, para se informar a respeito das investigações. Foram os funcionários que registraram a ocorrência. Em fevereiro último, outras três pessoas foram presas, quando tentavam furtar peças dos veículos guardados na fazenda.