Incidência é maior em mulheres
Texto: Sabrina Magalhães
A freqüência da doença é bem mais alta nos países frios, o que aumenta as possibilidades de que haja influência de fatores ambientais
"A incidência da esclerose múltipla em mulheres
é de 1,5 para cada homem. Ou seja, para cada três mulheres com diagnóstico da doença, há dois homens portadores da patologia", afirma Laertel Fassoni. Mas ele ressalta que isso só vale para casos em que a doença se manifesta em adultos jovens. Para pacientes que apresentam os primeiros sintomas já em idade mais avançada, esta relação pode ser invertida ou equivalente.
Quanto à distribuição geográfica da esclerose múltipla, não existe uma uniformidade. Em geral, a freqüência aumenta de acordo com a latitude, sendo praticamente inexistente nas proximidades da linha do Equador e mais comum conforme se distancia para norte ou sul dos hemisférios.
"Parece que ela acomete mais as regiões frias. Há uma ocorrência maior nos países frios, embora haja descrição da doença em qualquer parte do mundo."
Segundo o livro Tratado de Neurologia (Lewis P. Rowland, 1986), em latitudes mais distantes do Equador, a prevalência da doença chega a 60 casos por 100 mil habitantes, o que é considerado muito alto pelos especialistas. Em algumas regiões, como as ilhas da costa escocesa, os dados apontam para mais de 150 casos por 100 mil habitantes.
Um dado interessante, no entanto, é que há indícios de que a população negra está menos susceptível
à doença. Uma pesquisa realizada na África Central apontou que a patologia aparece em alguns negros descendentes de holandeses (colonizadores), mas chega a ser ausente entre os negros africanos.
Entre os japoneses a incidência também é baixa, mas não se sabe se esta resistência dos povos asiáticos
é de origem genética ou ambiental.
Influência ambiental
As suspeitas de que fatores ambientais interfiram no aparecimento da doença são fortes. Alguns estudos envolvendo migrantes permitem avaliar melhor esta influência. Em Israel, por exemplo, a incidência da esclerose múltipla entre filhos de imigrantes asiáticos é maior que a de seus pais, o que faz supor que o fator ambiental seja mais forte do que a resistência genética à doença que os povos asiáticos têm.
Outro estudo revela também a importância da idade por ocasião desta migração. "Supondo uma pessoa que sai de um país onde a freqüência da esclerose é baixa e vai para um país que tem mais casos de esclerose: se ela migra com mais de 20 anos, o risco de desenvolver a doença continua baixo; mas se ela migra com menos de 10 anos, vai ser mais fácil ela apresentar esclerose."
O neurologista comenta que estas análises estatísticas permitem inferir que realmente existe uma relação entre a idade, o clima, a predisposição genética e mesmo à resistência física, já que a pessoa pode estar bem e, logo depois de uma febre ou uma gripe, desencadear a esclerose.
Mas ele observa que todos esses dados devem ser considerados com muita cautela, já que o diagnóstico da esclerose múltipla é tão complicado e leva em consideração sintomas muito subjetivos, que podem ser, inclusive, de origem psicológica.
Sintomas variados
Uma das principais características da esclerose múltipla
é que não existe uma forma clássica da doença. Ela pode se manifestar das mais diferentes maneiras entre um portador e outro. Mas dentre toda a multiplicidade de sintomas relacionados a ela, alguns são mais importantes.
Os distúrbios de visão estão entre os sintomas mais comuns. A pessoa que nunca apresentou qualquer dificuldade visual, de repente, começa a perceber a visão embaçada ou dupla. Algumas vezes, pode haver falhas no campo visual, como se a "lente" do olho estivesse riscada. Outras vezes, a pessoa deixa de perceber as cores, começa a enxergar em preto e branco, ou tem dificuldade de distinguir verde e vermelho, como no dautonismo.
Na esclerose, estas manifestações costumam ser agudas, ou seja, a pessoa enxerga com perfeição e, de repente, não enxerga mais. Há casos, inclusive, de cegueira momentânea. Todos estes sintomas podem aparecer apenas de um lado, ou de ambos e, inicialmente, podem ser atribuídos a enfermidades da oftalmologia, passando a ser encarada como esclerose só depois de outras manifestações concomitantes.
As dificuldades de movimento e coordenação motora também são muito comuns. O portador da doença pode apresentar formigamento nas mãos ou nos pés, pode ter tremores repentinos ou, ao contrário, dificuldade em flexionar os membros, como se estivessem adormecidos. Algumas pessoas apresentam perda total ou parcial da sensibilidade nos membros ou mesmo na pele.
Dificuldades para andar e manter-se de pé, sensação de fadiga constante ou perda de força também são freqüentes. Conforme a localização da esclerose, a pessoa pode apresentar paralisia nos membros ou na face. A fala e audição podem ficar prejudicadas. A memória ou a capacidade de raciocínio podem ficar alteradas, levando a família a pensar que a pessoa está com problemas mentais.
Subjetividade
Na maioria das vezes, todas as sensações descritas pelo paciente não têm qualquer comprovação em exames clínicos ou laboratoriais. Muitas são, inclusive, difíceis de serem descritas. Além disso, os sinais variam muito ao longo do tempo, podem começar e desaparecer em poucos segundos, ou persistir por meses.
Alguns pacientes realmente chegam a distúrbios mentais, com rompantes de agressividade ou alucinações. A variação de humor torna-se incontrolável, podendo oscilar entre a euforia e a depressão, com crises histéricas e tendência do paciente a exagerar seus sintomas, alegando, por exemplo, estar com a visão alterada em ambos os lados, quando o problema atinge apenas uma das vistas.
Em fases avançadas da doença, o portador acaba tornando-se dependente para as funções mais rotineiras, podendo perder o controle sobre suas funções intestinais e urinárias, ou podendo chegar a um estado de invalidez.
Essa perspectiva e a falta de informações concretas sobre a doença tendem a agravar as alterações psicológicas, pois a esclerose geralmente se manifesta em indivíduos que estão no auge da produtividade profissional, época em que são tomadas as decisões mais importantes da vida e, subitamente, elas perdem a perspectiva de futuro.