30% da água de Bauru é desperdiçada
Texto: Daniela Bochembuzo
Problemas na tubulação e uso indiscriminado de
água pela população resultam em perda de 30,7 milhões de litros por dia
Do total de 97,2 milhões de litros de água produzidos pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) diariamente, 30,7 milhões de litros são desperdiçados. Esse volume, suficiente para abastecer uma cidade de 100 mil habitantes por dia, escoa em razão de falhas no sistema de tubulação do município e também pelo uso indiscriminado da
água pela população.
Juntos, os moradores de Bauru gastam desnecessariamente 4 milhões de litros a cada 24 horas. O processo de limpeza feito pela Estação de Tratamento de Água (ETA) é responsável pela perda de 3,98 milhões de litros. Já as falhas nas tubulações resultam no escoamento de 22,72 milhões de litros.
Uma reforma no processo de limpeza da água poderia diminuir as perdas da ETA em 2 milhões de litros. O projeto, que culminaria na limpeza das impurezas líquidas (hoje misturadas
à água), já está sendo desenvolvido e deve ser concluído entre setembro e outubro. Mas não
é esse desperdício que preocupa o DAE e os ambientalistas, mas sim a falta de consciência ambiental da população.
Sozinho, o bauruense consome hoje, em média, 212 litros de água. O ideal, de acordo com especialistas, é utilizar 200 litros por dia. Portanto, bastam 12 litros de economia diária para contribuir para a diminuição do desperdício. O problema é que poucas pessoas estão preocupadas em economizar água.
"Não existe a consciência de que a água
é um produto finito. Apenas 3% da água no mundo
é potável. É preciso mudar hábitos para garantir o abastecimento para todos", alerta a engenheira Nilcéia de Fátima Paes Lourenço, presidente do Fórum Pró-Batalha.
Atualmente, de cada litro de água utilizado pela população, 40% são incorporados à vida, seja por meio da ingestão ou da irrigação, que culmina na água pluvial escoada pela terra e pelas calçadas. Os 60% restantes retornam
à natureza em forma de esgoto.
"Tratar o esgoto é uma maneira de garantir a preservação dos rios e também de fazê-los processar a água com mais rapidez", explica Sérgio Macedo, presidente do DAE.
A preservação dos rios é extremamente necessária também em razão dos poços, hoje fixados em 30, terem um limite de armazenamento de água que dificilmente poderá ser reposto. "A água dos poços vem dos lençóis subterrâneos, os quais demoraram milhares de anos para serem formados", informa Macedo.
Por essa razão, a economia de água pela população poderia contribuir para a manutenção de sua oferta. Da mesma maneira, a preservação dos manancias pode garantir melhores condições de consumo e dificultar o assoreamento dos rios.
Atualmente, um dos principais problemas enfrentados pelo rio Batalha
é a retirada da mata ciliar de suas margens. Sem ela, o solo pode sofrer erosões e, conseqüentemente, o rio pode se tornar assoreado, tendo diminuído seu volume de
água.
Com tantos problemas à vista, não é difícil imaginar a razão das entidades governamentais e não-governamentais em terem escolhido a água como tema para a Semana do Meio Ambiente, que termina no próximo sábado. "Nosso desafio agora é manter essa consciência ecológica durante outros dias do ano", conclui Sérgio Macedo.
Descarga e banho demorado são vilões do abastecimento
Esqueça a torneira aberta e os vazamentos, o principal vilão do desperdício de água em Bauru é a descarga do vaso sanitário. Cada apertar de botão faz escorrer literalmente para o ralo 30 litros de água. Uma apertada mais demorada pode dobrar o desperdício.
A solução é simples e barata: utilizar vasos sanitários com caixas acopladas. O sistema pode resultar em uma economia de 12 litros a cada descarga, exatamente o que o bauruense deveria economizar por dia para chegar ao ideal de 200 litros de água consumida diariamente.
"Além da economia, esse tipo de vaso sanitário tem manutenção mais simples, já que não
é necessário quebrar a parede para consertá-lo", completa Sérgio Macedo, presidente do DAE.
Enquanto não se chega aos níveis de consciência ecológica do Canadá, onde a descarga de botão
é proibida, o bauruense também poderia economizar
água deixando de usar a "vassoura hidráulica", que no jargão da DAE significa usar a mangueira para limpar a calçada.
A "vassoura hidráulica", junto com o banho demorado,
é a segunda maior causa de desperdício junto à população. A solução nesses casos também é simples: balde e vassoura para limpar a calçada e banhos mais rápidos.
Cinco minutos a menos no chuveiro, por exemplo, pode significar uma economia de 45 litros de água. A estudante Thaís Guedes sabe disso, mas não consegue resistir ao banho quente e demorado. "Chego a ficar 40 minutos embaixo do chuveiro.
É um ritual", afirma.
Candidata ao curso de jornalismo, Thaís está informada sobre os problemas de abastecimento de água enfrentados pelo País, mas afirma que tem dificuldade para mudar seu hábito. "Sou preocupada com as questões ambientais, mas acho que, como o restante da população, só irei economizar quanto a falta de água for iminente", garante.
Enquanto não consegue mudar seu hábito, Thaís pode ficar atenta a vazamentos de água, outro fator de desperdício. Contas de água alteradas e bolor podem indicar o problema. (DB)
Bauruense pode aprender a economizar pelo bolso
Para Sérgio Macedo, presidente do DAE, uma das principais causas do desperdício está no preço da tarifa de água. Hoje, o bauruense paga 48 centavos por cada 1.000 litros de água. A taxa, de acordo com a autarquia, é a terceira mais baixa do estado de São Paulo.
"Para tratar a água e colocarmos nos canos do consumidor, o DAE gasta R$ 1,00", afirma Macedo. O lucro, nesse caso, vem com a tarifa de esgoto, que garante 60% do faturamento da autarquia. Para equiparar gastos e lucros, calcula o presidente, seria necessário elevar a tarifa para 95 centavos.
Nesse caso, o lucro seria mantido pelo conceito adotado atualmente na cobrança: quanto maior o consumo, maior o preço. Dessa maneira, uma família que consome 30 mil litros por mês passaria dos R$ 22,00 atuais para R$ 43,00, a mesma tarifa adotada em Marília.
Se fosse em Ourinhos, a mesma família gastaria R$ 44,00, contra R$ 47,00 em Jundiaí e R$ 67,00 em Marília. Se fosse atendida pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), ela poderia gastar R$ 138,00, de acordo com informações do DAE.
"O uso racional da água é muito importante para o DAE e para o meio ambiente. Se a tarifa fosse mais próxima da realidade, toda a população estaria economizando", acredita Macedo.
O aumento da tarifa vem sendo estudado pelo DAE há vários meses e pode ser a medida adotada pela autarquia para aumentar seu faturamento e, conseqüentemente, forçar a população a economizar. (DB)
A água que vai para o ralo
Produção diária: 97,2 milhões de litros
Consumo diário: 66,5 milhões de litros
Desperdício diário: 30,7 milhões de litros
Fonte: DAE
Onde a água é desperdiçada*
Estação de Tratamento de Água: 3,98 milhões
Domicílios: 4 milhões
Tubulações: 22,72 milhões
* Por dia
Fonte: DAE