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Privatização

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

Bauru perdeu 3000 empregos estatais

Texto: Nélson Gonçalves

Privatização de setores estratégicos e fechamento de unidades provocou a eliminação de postos de trabalho em prestação de serviços

O movimento de privatização, concessão de serviços públicos ou enxugamento de segmentos da máquina administrativa gerou consequências amplamente negativas para a economia de Bauru e região. Bauru está entre a cidades que mais perderam com a redução dos serviços estatais. Levantamento feito entre as entidades sindicais instaladas na cidade demonstra que 3036 empregos diretos foram eliminados nos últimos quatro anos somente em Bauru. O reflexo deste índice para a economia local é muito significativo, sobretudo em função da característica da economia local, que tem na prestação de serviços um de seus principais alicerces. Para se ter uma idéia do que significa este número para a economia da cidade, a Tilibra conta com 1200 empregados. A mão-de-obra desempregada dos serviços públicos em Bauru, portanto, é suficiente para a operação de duas Tilibras e meia.

Para os agentes políticos, que convivem com os problemas e virtudes da cidade, o movimento que tem levado diferentes segmentos de serviços públicos para as ruas é um reflexo combativo contra essa realidade. As manifestações públicas das últimas semanas reuniram, em cidades do interior como Bauru, além de São Paulo e Brasília

(DF), a maioria dos representantes desses grupos. Professores, bancários, estudantes secundaristas, universitários, profissionais da saúde, sem terra, sem teto, eletricitários e ferroviários estiveram ocupando o noticiário as principais emissoras de televisão e os principais jornais do País, nos últimos meses.

Para a economia local, o movimento de desestatização, ou desmonte dos serviços públicos, teve reflexos profundos. Para uma economia estruturada em grande parte no comércio e na prestação de serviços, a privatização e fechamento de empresas gerou consequências amplamente negativas. O levantamento feito pelo JC dá uma idéia do impacto do movimento de desestatização sobre a economia local. Conforme dados colhidos junto aos sindicatos de cada uma das categorias consultadas, ocorreram 3036 demissões no serviço público na cidade, a partir do final de 1995, quando as primeiras empresas públicas foram colocadas em leilão.

Os efeitos dessa realidade estão por todos os lados, num encadeamento de processos negativos para a vida da cidade. Do aumento da atividade informal ao empobrecimento da população, a perda de postos de trabalho atinge todos os setores. Há a queda no faturamento, na circulação de capital, de riqueza, a consequente redução no recolhimento de impostos e, sobretudo, a perda ainda maior da qualidade de vida nas regiões mais pobres da cidade, a periferia. A grande maioria daqueles que perderam o emprego estatal está na inatividade, outros estão na informalidade e alguns nas fichas policiais.

Desemprego em massa

O quadro ao lado mostra os números de postos de trabalho e demissões nos últimos quatro anos. O setor ferroviário foi o mais atingido. Conforme o sindicalista Roque Ferreira, o Sindicato dos Ferroviários registrou cerca de 500 demissões na antiga Fepasa e outras 625 na ex-RFFSA. "As demissões foram em massa e de empregos diretos, fora os indiretos. A atividade econômica dessas empresas, produtiva, caiu vertiginosamente.

É uma catástrofe para a cidade, a região e centenas de trabalhadores. É só verificar os serviços públicos hoje para concluir que os grupos econômicos tiraram proveito das antigas empresas estatais, auferiram lucros fantásticos e estão dilapidando o patrimônio público", critica Roque Ferreira.

O sindicalista adverte que o efeito cascata das demissões

é profundamente negativo para a economia local. "Quando um chefe de família perde o emprego, no mínimo quatro pessoas passam a procurar ocupação, que não

é emprego e, na maioria, sem registro em carteira. Ocorre que essas ocupações estão sendo consideradas como emprego. Esta é a tragédia que vivemos em todo o País. O marido, a mulher e os filhos vão para a rua procurar ocupação. O Governo contribuiu amplamente para a explosão da criminalidade. De um lado, não tem político para a geração de empregos. De outro, ainda entregou as empresas públicas para a especulação financeira e produtiva", avaliou Ferreira.

Segundo Roque Ferreira, A ex-RFFSA (Novoeste) tinha 1800 empregados, sendo 2/3 no Estado de São Paulo e 1/3 no Mato Grosso. Com a passagem da empresa para o Noel Group (americanos que já deixaram a empresa), ocorreram 625 demissões. Hoje, a Novoeste conta com não mais que 125 funcionários e o patrimônio público está sendo dilapidado. Para os ferroviários, cerca de 90 funcionários demitidos aceitaram o Plano de Demissão Voluntária, outros aproveitaram para se aposentar. Entretanto, a grande maioria ficou sem carteira assinada. Uma parte, segundo o sindicato da categoria, conseguiu vaga nas novas empresas de ônibus coletivo que se instalaram na cidade, outros estão na economia informal. Na Fepasa (Ferroban) tinha 600 empregados, hoje não passa se 100, conforme a entidade.

Desempregados de estatais vêm dos ferroviários, eletricitários, bancários

Os ferroviários foram os mais prejudicados com a venda de estatais, ou concessão de serviços públicos. Por outro lado, na fila de desempregados também estão centenas de eletricitários, bancários, telefônicos e outros segmentos. Fora isso, o movimento da desestatização ainda fechou órgãos públicos. É o caso do Cesec do Banco do Brasil e a Ceagesp em Bauru. Só na Ceagesp foram 120 demissões.

Os ex-servidores dos serviços de telefonia também estão na lista de desempregados. Conforme os representantes do setor, foram 900 demissões na Telesp, que atingiram postos de trabalho também na região. A antiga Telesp tinha cerca de 1300 servidores. Entre aqueles instalados na cidade, a telefonia é considerada a menos prejudicada com o movimento de privatização. Segundo a entidade da classe, grande parte dos trabalhadores conseguiram vagas em empresas criadas em função da privatização.

O setor elétrico ainda reclama a perda de postos de trabalho. Mais que isso, o Sindicato dos Energéticos (Sinergia) também vem denunciando a falta de investimento na manutenção da rede, com a consequente queda na qualidade dos serviços. Além disso, os consumidores protestam contra o fechamento de escritórios de atendimento ao público. Bauru, localizada na região central do maior Estado do País, só tem comunicação com a central de atendimento ao consumidor em Campinas (SP).

Segundo o sindicalista Jesus Garcia, as empresas do setor de energia elétrica contavam com 2031 servidores públicos antes da venda. Destes, 1581 estavam na Cesp e outros 450 na CPFL. As duas empresas somam em torno de 526 demitidos. Como essas empresas ainda contavam com seções em municípios da região, não estão computados, nesse cálculo, aqueles que foram atingidos nestes postos. Cidades da região, como Agudos, Arealva, Pederneiras, Presidente Alves e Iacanga, também perderam com o desemprego das ex-estatais. (NG)

Bancários criticam enxugamento

Os serviços bancários merecem um capítulo a parte. O sindicato da categoria ainda convive com a resistência ao que chama de preparação para a privatização. O contexto, apesar disso, é parecido com os de outros segmentos. Para o Sindicato dos Bancários, o Governo primeiro executa uma política de redução dos quadros para a posterior venda das empresas públicas.

Segundo dados fornecidos pelo Sindicato dos Bancários de Bauru, a categoria contava com 850 mil trabalhadores no País no final da década de 80. Já os balanços de 1999 apontam 400.091 bancários. Somente os bancos estatais preenchiam 186 mil postos de trabalho, em 1995. Atualmente, os bancos públicos contam com cerca de 100 mil bancários no Brasil. Em Bauru, cinco bancos estatais contavam com 100 empregados, em 1995. Hoje são 550.

O Sindicato dos Bancários argumenta que "o processo de desmonte dos serviços públicos também foram prejudiciais para os bancários e os consumidores da região. Além de demitidos, os trabalhadores perderam direitos e tiveram seus salários congelados nos últimos anos. Quem conseguiu ficar trabalhando, convive com o aperto na despesa. Apesar disso, os bancários lançam que a escalada dos lucros não parou de crescer entre os banqueiros. As tarifas bancárias também sofreram reajustes muitas vezes maior que os mais pessimistas índices de inflação.

Entre os bancários, o sindicato explica que a maior parte das demissões foram fruto de Planos de Demissão Voluntária. Os conhecidos PDVs tomaram conta dos departamentos de recursos humanos dos bancos. Os maiores números estão no Banco do Brasil e no Banespa. Segundo o sindicato, os bancos somaram 465 demissões em Bauru. Deste total, 270 são do Banco do Brasil, 150 do Banespa, 22 do Banerj, 18 do Meridional e 5 do Banestado. (NG)

Números do desemprego

Empresas Demissões

RFFSA 120

Fepasa 625

Ceagesp 120

Cesp 300

CPFL 226

Telesp 900

Bancos (PDV) 465

Total 3036

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