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Mendicância

Erika de Lima
| Tempo de leitura: 9 min

Crise também afeta pedintes nas ruas

Texto: Erika de Lima

A situação financeira anda ruim até mesmo para os pedintes, que ficam nas ruas esperando por algumas "gorjetas"

Segurar uma caixa de sapato sentado em uma cadeira, pedir um "trocado" ou tocar algum instrumento na calçada enquanto espera-se a gorjeta são situações vividas por várias pessoas que, ultimamente estão enfrentando problemas financeiros. Eles têm famílias e vivem com elas, mas sem emprego tentam se manter através das moedas dadas por algumas pessoas pelas ruas da cidade.

Há mais de dois anos, nos tempos da "vaca gorda", os pedintes e músicos arrecadavam cerca de R$ 15,00 por dia. Atualmente, é raro o valor ultrapassar R$ 10,00, relatam.

Em Bauru, uma das maiores preocupações, senão a maior, daqueles que sobrevivem através do dinheiro doado pela população é a redução desse valor. Pedintes e músicos estão tensos com a atual situação, porque não conseguem arrecadar tanto quanto há dois anos.

Não se sabe se o número de pedintes aumentou, mas vê-se que o bolso da população está cada vez mais "apertado", devido as contas que têm que pagar e aos preços abusivos de determinados produtos.

Mesmo com o apontamento de uma pesquisa, realizada pelo Ministério do Trabalho, de que o desemprego na cidade diminuiu sensivelmente nos últimos anos, os pedintes estão descrentes na parte financeira do município e até do País.

João, (nome fictício, porque o entrevistado não quis identificar-se), 61 anos, está no Calçadão da rua Batista de Carvalho há mais de cinco anos. Ele tem paralisia no braço direito e, por isso, não conseguiu emprego e, hoje, está tentando aposentar-se.

Sua reclamação é a respeito da pouca quantia que está recebendo, porque há mais de dois anos ganhava o dobro e, conseguia manter-se e também sua mãe.

"Minha mãe tem 82 anos e recebe uma pensão de R$ 130,00. Antes o que ganhava no Calçadão ajudava-a a pagar o aluguel da casa e comprava até roupa, já hoje, apenas consigo comprar comida", conta.

Na mesma situação encontra-se o sanfoneiro José da Costa Filho, 47 anos, que também arrecada dinheiro no Calçadão através das apresentações de músicas. Ele notou que o dinheiro ganho pelas exibições das músicas, tocadas na sanfona diminuiu. "No início a renda era boa, isso há mais de dois anos, mas hoje, estou tendo dificuldades para comprar até comida", enfatiza.

Filho está com o aluguel da casa atrasado há cinco meses. Os R$ 150,00 por mês acumularam e transformaram-se em R$ 650,00. Além disso, sua esposa Otina Modesto de Souza, 49 anos, teve dois derrames e já precisou tomar um remédio de R$ 426,00, para reabilitar sua saúde.

Entretanto, ele não conseguiu o dinheiro e, um dos filhos de Otina, que mora em Penápolis, comprou um outro medicamento similar para lhe dar. "Estamos passando por dificuldades, porque ganhamos o suficiente para comer, nossa conta de luz e

água sempre são pagas no último dia do prazo. Quem nos ajuda é a população, mas se aumenta o desemprego ou o valor da alimentação conseqüentemente há uma diminuição na nossa doação", reflete Filho.

Eles ainda contam com os dias em que são liberados os pagamentos dos funcionários de várias empresas. "Nesses dias aumenta um pouco o valor doado", lembra João.

R.S.F., 12 anos, começou a pedir dinheiro há um ano. Ele vê que o número de pedintes aumentou e, isso reduziu o dinheiro ganho no Calçadão. "Antes eu conseguia receber R$ 15,00 por dia, hoje me dão R$ 5,00", disse.

Garotos também aproveitam

Mais de dez meninos aproveitam o Calçadão da rua Batista de Carvalho esquina com a rua 13 de maio para pedir uns

"trocados" para as pessoas que vão à uma lanchonete comprar sorvete. O caixa e o balcão do estabelecimento ficam na esquina dessa rua e, isso tende a facilitar a abordagem das crianças.

Em geral, os meninos pedem dinheiro às pessoas quando estão na fila do caixa para comprar o sorvete. Como elas têm às mãos uma bolsa ou um porta-níqueis acabam tirando daí facilmente algumas moedas que são dadas aos garotos. Esses metais valiosos são trocados por cédulas, as quais são entregue às mães.

T.A.R., 11 anos, e seu irmão, estudam de manhã e

à tarde vão ao Calçadão para arrecadar dinheiro para sustentar sua família. "Minha mãe

é surda e aposentada, mas trabalha catando papelão e, para ajudar em casa ficamos na rua Treze de Maio para pedir dinheiro", afirma.

Além disso, T. também ganha lanches. Ele disse que

é mais fácil conseguir alimentação do que moedas.

N.S.F., 12 anos, que fica na "esquina" da Treze, também leva o dinheiro para sua mãe. Ele é irmão de R. e ambos só vão ao centro da cidade quando não têm aulas e também aos sábados, para ganhar dinheiro e comprar mistura para suas refeições.

Opiniões se divergem sobre esmola

Dar ou não esmola é uma situação que além da questão financeira do doador, envolve toda uma visão social

Dar ou não dinheiro aos pedintes é uma questão que deixa muitas pessoas em dúvida e chegam a divergir de opinião. Um dos questionamentos feito por alguns dos entrevistados é a respeito da destinação do dinheiro.

A maioria diz não dar dinheiro porque não sabe o que será feito com ele. O pedinte quando é idoso ou criança acaba dando uma impressão melhor do que adultos ou jovens e, conseguem dinheiro mais facilmente, segundo alguns entrevistados.

"Se a pessoa que pede dinheiro é idosa fico com dó e dou algumas moedas, caso contrário, penso que é para beber então não dou", afirma a auxiliar de produção Miriam Jacinto dos Santos, 26 anos.

Entretanto, há outras pessoas que não vêem o dinheiro como uma forma de solucionar o problema. "Dar dinheiro aos pedintes não resolve nada, mas se dermos alimentação será amenizada a fome do dia e a pessoa ficará fortalecida", ressalta a cabeleireira Enedina Assumpção Molina.

Se o pedinte estiver sempre no mesmo local algumas pessoas não páram para dar colaborações. A emprega Lucinéia dos Santos, 25 anos, é um exemplo de que só ajuda pedintes que são novos "na praça". "Se já vi o pedinte outras vezes não dou dinheiro, mas se é um outro então ajudo, apenas para que ele compre alguma comida", conta.

Os entrevistados concordam que é necessário ter uma estrutura social mais forte para trabalhar com os pedintes, para que as esmolas sejam apenas meras lembranças. (EL)

Para ganhar mais, andarilhos percorrem cidades

Andarilhos e pedintes entrevistados contam que já foram profissionais que trabalharam na construção civil e no campo, mas atualmente estão sem rumo e, em sua maioria não há uma qualificação profissional. Eles percorrem cidades para que o rendimento seja maior e, que as pessoas sempre esteja ajudando-os.

Em geral, os pedintes têm entre 25 e 45 anos e levam uma vida nômade. Alguns desenvolvem trabalhos artesanais como enfeites para canetas, brincos e pulseiras, para se manter, outros dependem da boa vontade de pessoas para viver.

Eles deixaram suas famílias quando ainda eram meninos ou deixaram filhos e mulheres para trás porque começaram a beber. Sem lenço e até sem documento, os pedintes procuram um abrigo para não passar as noites ao relento, no entanto, não exitam em voltar para casa.

Uma pessoa que está nessa situação é o lavrador Sebastião Nascimento dos Santos, 22 anos, de Mamborê (Paraná). Ele disse que seus pais morreram quando tinha 14 anos e a partir desse dia começou a morar com parentes, não adaptou-se e foi viver em outros lugares.

"Já corri o mundo, quando tenho fome peço comida e se preciso durmo no pasto. Não tenho dinheiro, mas também não roubo ninguém", relata Santos.

Além dos seis irmãos, Santos deixou a namorada em Vitória, no Espírito Santo. Dela, ele só traz uma foto 3x4 e as boas lembranças.

Mesmo sendo um lavrador, ele demonstra habilidades com trabalhos manuais, um deles é um enfeite que faz em canetas, com fios de cobre.

A história do pedreiro Ataíde Padilha, 34 anos, não é tão diferente. Ele não perdeu os pais, mas deixou a esposa e quatro filhos em São Paulo, seu filho mais novo tem dois anos. "Comecei a andar pelas ruas, porque queria me separar dela, mas tenho saudades dos meus filhos", conta Padilha.

O presidente do Albergue Noturno, Richard Simonetti, afirma que só em dias muito frios surgem os pedintes e andarilhos no albergue. "Nós atendemos normalmente, as pessoas albergadas, aquelas que vêm dormir no albergue todas as noites. Já os andarilhos, que não são da cidade, vêm aqui quando está muito frio e no dia seguinte vão embora", afirma.

Ele vê, que a maioria das pessoas que procuram o albergue são alcoólatras e, 90% são homens. Simonetti lembra que, há uma migração dentro do próprio Estado, ou seja, de uma cidade para outra. Diferentemente de tempos atrás quando havia uma migração de um Estado para outro, quando pais procuravam um emprego, para levar a família junto. (EL)

Ex-andante decide "recomeçar" vida

Paulo Alves Leite, 42 anos, depois de ser traficante, viciado em drogas e andante decidiu mudar a direção de sua vida e recomeçá-la. Ele está vendendo brincos e pulseiras artesanais na rodoviária da cidade para conseguir se manter, mas já chegou a pedir dinheiro para muitas pessoas.

"Quando estive em Campinas por dez dias, vigiava alguns carros para me manter. Já aqui (em Bauru) estou vendendo artesanatos na rodoviária para refazer minha vida", relata.

Paulo disse que trabalhou na Praça Rui Barbosa com a venda das bijuterias, mas decidiu partir para outro lugar para vender mais. Ele pretende juntar dinheiro para comprar o material das bijuterias e assim fazer (manualmente) as pulseiras e brincos.

Quando se trata de dinheiro, Paulo também vê que as pessoas não estão ajudando muito. "Antigamente as pessoas colaboravam mais, hoje há muita desconfiança e, até mesmo por causa da crise financeira, muitas pessoas não dão dinheiro", salienta.

Apesar das dificuldades enfrentadas o ex-andante não desanima, pelo contrário, mostra que tem forças para continuar sua trajetória. (EL)

Sanfoneiro do "Calçadão" espera melhorias

O sanfoneiro José da Costa Filho, 47 anos, que toca há 18 anos, no Calçadão da rua Batista de Carvalho, espera que a colaboração das pessoas através de doações pelo seu trabalho o ajude a viver dignamente. Filho faz apresentações de músicas na Batista para tentar manter sua família. Ele desenvolveu o lado artístico desde seus dez anos.

Filho disse que começou a tocar teclado há um ano, para ter mais uma variedade de som para o público. "Eu quis dar um visual novo e apresentar uma novidade ao público", relata Filho.

Ele tem deficiência visual, mas toca diferentes estilos de músicas como sertanejo e pagode tanto na sanfona quanto no teclado, para receber algumas moedas e sobreviver. Sua esposa Otina Modesto de Souza, 49 anos, às vezes, o acompanha. Ela o leva para o Calçadão às 10h30 e permanece no local até às 17h30. "Não tenho um horário fixo porque dependo de circular tanto para chegar quanto para ir para casa", conta. (EL)

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