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Violência

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 11 min

Para coronel, violência desafia classe política

A Polícia Militar efetua, em média, de seis a sete mil flagrantes por mês o que significa quase 1oo mil, por ano. Apesar disso, poucos estão na cadeia.

Texto: Rita de Cássia Cornélio

A onda de violência que assola o país não será minimizada sem uma atitude séria dos governantes. Segurança é um assunto complexo que não pode ser solucionado com medidas imediatista. Não podemos exigir que 82 mil homems atuem sempre da mesma forma e nem que a polícia tenha atitudes de primeiro mundo, quando oferecemos condições de terceiro. Esta é a opinião do coronel e professor de tiro defensivo, especialista em armas, Nilson Giraldo. Ele acha que a polícia evoluiu na mesma velocidade que a criminalidade e que somente leis mais severas vão inibir os crimes.

JC: Na sua opinião o governo tem a solução para a onda de criminalidade que assola o país?

Giraldi: O governo não tem um plano definido. Assunto segurança é extremamente complexo não dá para ser solucionado com medidas paliativas ou imediatista. Segurança e violência são assuntos extremamente complexos. O governo está perdido na questão. Os pais não sabem o que fazer com os filhos. Os professores e a sociedade todos só exigem dos outros, mas também não sabem lidar com a situação.

JC: De quem é a culpa?

Giraldi: Há um conjunto de culpados. Dentro desse conjunto, existem alguns segmentos que são mais culpados.

JC: Quais são esses segmentos?

Giraldi: A falta de leis mais severas que estabeleçam punidades reais para os agressores. Desde a Constituição de 88 houve um abrandamento dessas leis. Ainda agora, o governo estuda uma fórmula de colocar em liberdade agressores que estão condenado por crimes graves.

JC: O povo brasileiro é violento?

Giraldi: O nosso povo talvez seja até melhor que os povos de primeiro mundo. O que nós não temos são as leis de primeiro mundo. Esse negócio de falar que o povo de primeiro mundo é evoluido, educado e outras coisas mais, é uma mentira. Eles são assim mediante a coerção da lei. O brasileiro é muito melhor que outros povos, somos mais pacíficos porque somos um país de terceiro mundo com problemas gravíssimos e essa população pobre que tem no Brasil, suporta essa situação.

JC: Muitos acreditam que a violência é fruto da pobreza. Isso procede?

Giraldi: A maior parte da população brasileira sobrevive com menos de dois dólares por dia e essa população não é violenta nem agressora. Então ligar a violência ou a agressividade a pobreza é um crime que se faz contra essas pessoas. A violência está presente em todas as camadas sociais.

JC: Os marginais estão usando armas pesadas e a polícia continua usando armas obsoletas?

Giraldi: Em parte é verdade. As quadrilhas especializadas usam a armas especiais. Os agressores comuns, que são a maioria, utilizam armas comuns. Aquela arma que estava com o sequestrador do Rio era uma arma comum.

JC: Como essas armas estão entrando no país?

Giraldi: Aquisição clandestinas, contrabando, Há também, os casos de roubos e furtos.

JC: Porque os marginais estão colocando em risco a vida de terceiros por tão pouco?

Giraldi: É porque ele sabe que não será punido, mesmo no caso de ser preso em flagrante. A PM faz em média de seis a sete mil flagrantes por mês. Quase 100 mil por ano. Flagrante é uma coisa difícil. Os policiais têm que pegar o agressor executando o crime. Apesar disso, não fica ninguém preso. Tem muitos benefícios. A lei não segura mais ninguém na cadeia. O delegado faz o flagrante corretamente, o juiz não tem respaldo na lei para manter o marginal preso.

JC: Como os marginais conseguem deixar a prisão?

Giraldi: Há uma quantidade muito grande de recursos que são permitidos pela lei. Eles respondem em liberdade. Nos Estados Unidos tem mais de dois milhões de encarcerados. Lá as leis são cumpridas. Aquele que vê mais de dois milhões de encarcerado, coloca sua barba de molho. Pensa pensa duas vezes antes de infringir a lei.

JC: Quantos mandados de prisão existem no Brasil para ser cumpridos?

Giraldi: No Brasil temos mais de 150 mil mandados de prisão a serem cumpridos. Se forem cumpridos não teria prisão suficiente. Estes 150 mil homens estão por soltos e continuam roubando e matando.

JC: O planeta não estava preparado para receber uma população tão grande?

Giraldi: Quando Jesus nasceu, há dois mil anos, calcula-se que a população do mundo era de 300 milhões de habitantes, o que corresponderia a população atual dos Estados Unidos. Para essa população dobrar, demorou 1.600 anos. Só no ano de 1.600 essa população era de 600 milhões. Agora, no ano de 1960, a população era de 3 bilhões, para dobrar demorou apenas 39 anos, foi o ano passado. O ano passado o planeta tinha 6 bilhões de pessoas. A dobrada anterior demorou 1600 anos, esta 39, isto significa que metade da população do mundo tem no máximo 39 anos. O planeta não estava preparado para receber três bilhões de habitantes em 39anos. Nos próximos 25 anos, a população vai para 12 bilhões. A situação vai piorar.

JC: O aumento da população mundial foi maior onde?

Giraldi: Este aumento da população foi muito maior nos paises subdesenvolvidos. Na Europa o aumento populacional está quase que estabilizado. Nos Estados Unidos, aumentou muito pouco. Nos paises subdenvolvidos, a média é de 7 filhos por mulher analfabeta. A mulher culta tem 1 a 1.2 filhos. O distanciamento entre as duas classes é muito grande.

JC: Quais os outros fatores que influência na violência?

Giraldi: A banalização das drogas, a ociosidade, o juntamento de pessoas jovens, a banalização das armas formam um caldeirão do diabo para que a violência se instale. Os pais não sabem resolver os problema das drogas, armas e violência. Os professore e o Estado não sabem lidar com a situação e dai surgem os sem teto, sem comida, sem isso e sem aquilo.

JC: O governo sabe disso e não tona nenhuma atitude?

Giraldi: O governo deveria atuar e já houve em São Paulo, um prefeito que autorizou a laqueadura para as mulheres pobres. Conseguiu a antipatia das igrejas. A igreja defende tabus. O sexo para eles é para gerar filhos. Isso era aceitável antigamente, quando faltava gente na terra. Hoje sobra e eles continuam com mesmo discurso.

JC: A polícia caminha na mesma velocidade que a marginalidade?

Giraldi: Pode parecer que a polícia continua no seu passinho, mas não é verdade. A polícia está no seu limite de atuação. Nós não podemos exigir que 82 mil homens atuem sempre de forma correta, sempre haverá erros, como houve no seqüestro do Rio de Janeiro.

JC: Porque a polícia recebe tantas críticas?

Giraldi: Porque ela lida com o esgoto da sociedade. Com o que não presta. Quando nós admitimos um policial militar e nós mandamos para o Corpo de Bombeiros este homem está sujeito a elogios e aplausos. Quando ele vai para o Resgate é o mesmo. Porém se este mesmo homem for colocado no serviço policial estará sujeito a constante críticas e interpelações. Porque o serviço

é extremamente complexo, quase impossível de ser realizado em sua plenitude. Só lidamos com essa classe que desrespeita totalmente as leis.

JC: A PM é a mesma do passado?

Giraldi: A PM se adapta as novas tecnologias. Ela é mutante. A PM não é a mesma do passado, ela se sente impotente em inúmeras situações para desenvolver o seu trabalho, porque não tem na sua retaguarda o apoio que precisa. Principalmente a existência de leis que mantenham os agressores presos.

JC: O policial brasileiro é respeitado pela população?

Giraldi: Não. Mesmo assim ele cumpre o seu dever de defender a sociedade. Está morrendo um policial militar por dia em defesa da sociedade, virou banalidade. Em Nova York, cidade padrão do mundo, morreram dois policiais nos últimos três anos. Outro dia, um policial frânces foi espancado e o Estadão publicou. Lá se alguém atacar a polícia, a pena dele dobra.

JC: Quantos policiais estão na cadeiras de rodas, vítimas dos marginais?

Giraldi: Temos uma instituição que tem 1800 deficientes físicos, em cadeiras de rodas. Todos vítimas dos agressores. Foram feridos no momento que defendiam a sociedade, Todos policiais militares. Eles fundaram uma associação, porque o governo não cuida deles.

JC: Quanto ganha o PM que está na rua defendendo a vida da população?

Giraldi: Ganha em média, 700 reais por mês. Quem nesse mundo iria receber esse ordenado para saber que pode morrer a qualquer hora? Estão morrendo, em média, um policial por dia. Para ajudar no orçamento mensal, ele faz bico nas horas de folga. Há cinco anos, eles não têm um centavo de aumento.

JC: A psicologia pode ajudar o policial a manter o equilibrio?

Giraldi: A psicologia normal é aplicada a pessoas normais em situações normais. Ela não consegue ser aplicada nesse quadro de violência, num confronto armado. Diante da morte, um PM fica totalmente alterado nas suas condições físicas e psiquicas e é daí que podem advir os erros.

JC: Qual é a sua sugestão para que o policial mantenha equilibrio?

Giraldi: O que nós ouvimos nós esquecemos. O que nós vemos, nós lembramos e o que o nós fazemos nós aprendemos. Hoje, o treinamento da PM do Estado de São Paulo é todo prático. Todas as vezes que você se vê diante de um fato novo e grave, você se perde. Só situação práticas, imitativas da realidade podem preparar o homem e é isso que estamos fazendo.Não adianta o psicólogo reunir um grupo de soldados e falar como eles têm que se comportar durante um confronto armado. O psicólogo não tem a mínima idéia do que se faz num confronto armado e como é lidar com o esgoto da sociedade.

JC: A simulação atinge o real?

Giraldi: Na simulação do seqüestro, o homem fica tão tenso e tão estressado como se estivesse numa situação verdadeira. Fizemos uma estatística e 92% disseram que se sentiram como numa situação verdadeira. O inconsciente pensa que está numa situação real. Cerca de, 4% acharam que na situação real ficaria mais estressado. Outros, 4% acharam que o treinamento

é mais estressante porque ele está sendo observado pelos seus superiores. O estresse é o maior inimigo do homem.

JC: Falta apoio para a polícia?

Giraldi: O presidente da república não dá apoio para as polícias. O governador do Estado é contra a polícia. Pessoas no meio da polícia são contra e não entendem de polícia. Não podemos generalizar, Bauru é uma exceção.

JC: Porque quando um PM atira para defender a sociedade

é retirado das ruas?

Giraldi: Pessoas, incluindo os psicólogos, generalizaram uma situação. Existem casos que o PM usa a arma inadequaddamente. É o caso daquele soldado no Rio de Janeiro, naquele seqüestro. Há os casos de policiais que usam adequadamente. Este deveria ser elogiado e não retirado das ruas, porque para ele isso significa uma punição. Generalizaram o disparo. Estão tratando da mesma maneira aquele que agiu corretamente e aquele que agiu incorretamente. Isso é um erro.

JC: Finalmente estão substituindo os revólveres calibre 38?

Giraldi: A arma calibre 38 é uma arma deste século que está acabando. Totalmente ultrapassada, inútil, imprópria e superada para a polícia. Não serve porque não tem poder de parada, acerta o coração e a pessoa não para. Ele continua em pé agredindo.

JC: A pistola calibre 40 é a ideal?

Giraldi: Nos últimos cinco anos encabecei uma luta para que se adotasse a pistola calibre 40. Eu sou um especialista em armas, um competidor em nível nacional e internacional, oito títulos internacionais. Nós aprovamos a aquisição da pistola austríaca para a PM porque ela é revolucionária e moderna, desenvolvida especialmente para a polícia.

JC: A pistola comprada para a PM é a ideal?

Giraldi: Conseguimos convercer que a arma correta seria a calibre 40 de origem austríaca. O exército disse que no Brasil tem a pistola Taurus, calibre 40 e que eles iriam comprar a Taurus. Essa arma tem um mecanismo antigo. Tivemos que decidir se a gente continuava com os revólveres 38 ou se comprava a pistola 40, que não é bom para a polícia mas é calibre 40. A austríaca é usada em mais de 80% das instituição americana e os Estados Unidos é um dos paises que mais fabrica pistola no mundo. Todo mundo exige da PM um trabalho perfeito, mas não dão material perfeito para executar este trabalho.

JC: Quem deveria usar colete à prova de bala?

Giraldi: Todo PM deveria ter um colete moderno à prova de bala, individual. Já vi policial olhando propaganda de colete e babando para comprar um, mas custa R$800,00 e ele não tem.

JC: A polícia tem problemas com viaturas?

Giraldi: O veículo é ideal para a nosso tipo de trabalho. O problema

é que o desgaste é muito grande, porque roda 24 horas por dia. A manutenção é cara e a verba

é curta. Podemos dizer que as nossa viaturas estão a altura dos nossos serviços desde que, em quantidade suficiente e com a retaguarda para manutenção e combustível.

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