Coração é o grande prejudicado
Texto: Sabrina Magalhães
Roer as unhas, arrancar os cabelos e ferir a pele são alguns dos hábitos bastante comuns em momentos de estresse
Apesar de promover alterações em praticamente todos os órgãos e sistemas do organismo, o principal prejudicado pelo estresse é o coração. "Não que os outros não sejam importantes, mas quando o coração
é atingido, traz conseqüências mais graves", explica o cardiologista Caio Mário de Almeida Pessoa. Ele observa que o sistema digestivo é uma das principais válvulas de escape para o estresse, podendo levar a uma gastrite, um quadro de diarréia ou mesmo uma úlcera. "Só que a gastrite não é tão preocupante como um infarto", ressalta.
De acordo com Caio, já está mais do que provado que o estresse é um sério fator de risco para o desenvolvimento de cardiopatias. Inclusive para pessoas que não têm qualquer outro fator de risco.
Ele observa que, na Cardiologia, os pacientes são classificados em dois tipos: A e B. Os de tipo A são aqueles que estão sempre ansiosos, muito preocupados com a vida, sempre lutando contra as preocupações. É a pessoa que tem uma carga importante de estresse no dia-a-dia. Já os de tipo B são as pessoas que convivem com o estresse sem se angustiar. É a pessoa mais tranqüila, que digere os problemas com naturalidade, que leva a vida "numa boa".
"O tipo A tem muito mais chances de ter uma angina ou um infarto do que o tipo B. Então, quando o paciente chega ao consultório, temos que determinar a que grupo ele pertence. Porque todos nós temos problemas. O interessante é como cada um enfrenta. Alguns enfrentam de maneira inadequada, têm comportamentos inadequados. São pessoas predisponentes a ter um tipo de alteração patológica no coração. E isso falando só das pessoas que não têm outros fatores de risco associados. O estresse sozinho faz isso."
Numa situação de estresse, além de um aumento considerável da freqüência cardíaca (número de batimentos por minuto), há também uma constrição dos vasos periféricos (espasmo), ou seja, diminui a quantidade de sangue que chega à superfície da pele para aumentar o fluxo nos músculos. Conseqüentemente, aumenta a quantidade de sangue que passa pelo coração, forçando sua capacidade.
"Acredita-se também que estas alterações levem a uma ruptura de placas de arteriosclerose (placas de gordura depositadas na parede das artérias). Aí, o material que tem dentro das placas se espalha no sangue, formando coágulos
(tromboses). Aí o indivíduo infarta. Isso naquela pessoa supostamente saudável, que até então não tinha nada. É muito freqüente a pessoa infartar porque vai prestar um concurso, está disputando um cargo na empresa ou se aposenta."
Cardiopata
Para quem já tem um problema cardíaco ou apresenta outros fatores de risco, como a obesidade, colesterol alto, é fumante, diabético, hipertenso ou sedentário, o estresse aparece como um verdadeiro vilão, prestes a aniquilar seu "inimigo". Isso, evidentemente, porque o sistema cardíaco já está sobrecarregado e pode não suportar um esforço de adaptação, como o aumento da freqüência, por exemplo.
"O estresse faz aumenta a pressão, o que é um veneno para o hipertenso. A pessoa que tem uma insuficiência cardíaca, com o aumento dos hormônios no estresse, ele descompensa. Então, é ruim para pessoas saudáveis e muito pior para o cardiopata, sem dúvida. Quer dizer, esse estresse exagerado é ruim para qualquer um", ressalta Caio.
Pele, unha e cabelo
Quem é que nunca levou a mão à boca numa situação de estresse? Não precisa nem ser para roer a unha, mas só para arrancar uma "pelinha solta", ou tirar o esmalte, ou mesmo para dar uma mordida.
É um reflexo muito comum nos momentos de dúvida, medo ou raiva. Fora de controle, chega a causar doenças dermatológicas.
"Há pessoas que roem tanto as unhas que chegam a provocar deformidades nos dedos", conta o dermatologista Ivander Bastazini.
"E não é só nas mãos. Tem pessoas que têm fixação em cortar a unha do pé, provocando não só o aspecto feio da unha, mas chegando a quase ficar sem unha. Agressões que vão deformando os dedos."
Quedas de cabelo também são queixas freqüentes nos consultórios dermatológicos e muitas vezes estão relacionadas a fatores estressantes. Nesse caso, pode tanto haver queda difusa, do tipo que a pessoa percebe que o cabelo está caindo mais que o normal, mas sem alterar a estética, como pode haver uma queda mais séria, do tipo que leva ao aparecimento de áreas falhas no cabelo. "Inclusive com queda de todo o cabelo e, às vezes, de todos os pêlos do corpo
- sobrancelha, cílios, pêlos axiliares, pubianos, tudo pode cair em função do estresse", salienta o médico.
Há também a dermatite factícia, que é quando a própria pessoa "cutuca" a pele provocando lesões. Ao mexer na pele, faz-se uma escoriação que pode ser infectada, dando o aspecto de acne. A pessoa vai ao dermatologista dizendo que está cheia de espinhas e, na verdade, é ela quem está ferindo a própria pele. E como a manipulação do local é constante, formam-se lesões escuras, manchas.
"A parte mais visada, geralmente, é o rosto. Mas todas as áreas que estão ao alcance das mãos podem ser vítimas dessa manipulação agressiva e constante que a pessoa faz sobre sua própria pele. Lesões que enfeiam a pessoa. Aí, isso se torna mais um agravante para aquele problema emocional que ela tem e você cria um círculo vicioso; a pessoa cada dia mais vai se provocando mais escoriações e lesões."
Questionado se a pessoa é capaz de perceber que está se ferindo, Bastazini diz que não. Que na maioria das vezes elas chegam ao médico dizendo que estão com alguma doença de pele, quando, na verdade, elas estão infringindo a si mesmas. Quando se conscientizam disso e param de mexer, o problema logo desaparece. "Só que nem sempre ela consegue perceber isso sozinha. Ela vem ao dermatologista, nós identificamos o problema e encaminhamos para uma terapia. Porque existe sempre uma característica física da doença. Na queda de cabelo, o fio que cai sozinho tem uma característica, o que é arrancado tem outra e assim por diante."
O médico ainda lembra que existem várias doenças dermatológica que estão diretamente ligadas ao sistema emocional. É o caso da psoríase, uma descamação da pele que coça muito e surge ou é agravada em momentos de estresse. Ou o vitiligo, que pode começar a partir de uma lesão provocada pela pessoa. Nesses casos, só de mudar de ambiente ou afastar-se da causa estressora, o problema já é reduzido ou mesmo desaparece.