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Estresse parte II

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

Estresse

Incidência é maior entre as mulheres

Texto: Sabrina Magalhães

Casa, família, trabalho e boa forma são fontes inesgotáveis de estresse para o chamado sexo frágil

Durante muito tempo, acreditou-se que o estresse era uma doença mais comum entre os homens, principalmente no meio executivo. Mas uma pesquisa realizada entre 1998 e 1999 apontou uma realidade bem diferente: é a mulher quem mais sofre com a Síndrome Geral de Adaptação (nome dado ao conjunto de sintomas desencadeados pelo estresse, na década de 30, pelo pesquisador canadense Hans Selye).

O estudo apontou que quase 80% das mulheres entrevistadas tinham sintomas de estresse. Entre os homens avaliados, o índice de estressados foi superior a 50%. "Que também é muito alto", comenta a psicóloga Sandra Leal Calais, da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista

(Unesp/Bauru), uma das autoras do trabalho.

Ela explica que, até então, a literatura apresentava várias pesquisas que haviam sido feitas com executivos e, evidentemente, apontavam uma incidência bastante alta de estresse entre os homens. "Até que a dra. Marilda

(também autora do trabalho) fez uma pesquisa no shopping. Ela pegou uma amostra grande de pessoas, fez perguntas e passou o teste. E ela viu que grande parte das mulheres era estressada e que os homens, nem tanto. Resolvemos verificar isso. Pesquisando, descobrimos várias pesquisas sendo feitas, inclusive uma, que mostra que nas crianças, as meninas são mais estressadas que os meninos. Então, iniciamos uma pesquisa envolvendo adolescentes e adultos jovens", conta Calais.

As psicólogas selecionaram algumas escolas particulares de São Paulo e formaram cinco grupos, conforme a escolaridade: alunos do 1.º Colegial, do 3.º Colegial, de um curso pré-vestibular, do 1.º ano de faculdade e do 4.º ano de faculdade. "Escolhemos a faculdade de Odontologia, onde há alunos de ambos os sexos e não trabalhamos com estabelecimentos de ensino público. Montamos os grupos com mais ou menos o mesmo número de homens e mulheres. Ao todo, foram 295 estudantes, de 15 a 28 anos, sendo 150 mulheres e 145 homens."

O método utilizado foi o Inventário de Sintomas de Stress (ISS), um teste já validado no Brasil, que foi aplicado a cada um dos alunos. Os resultados mostraram que 78,8% das mulheres apresentava sintomas de estresse, contra 51,8% dos homens. A maioria, de acordo com Calais, com alterações características da fase de resistência, a segunda fase do estresse (lembrando que a primeira fase é a de alerta e a última é a de exaustão, quando podem surgir problemas físicos de saúde, inclusive o infarto).

Trabalho ou cultura?

A psicóloga ressalta que, aparentemente, o estresse aumentado na mulher está ligado à dupla ou tripla jornada de trabalho, que inclui a limpeza da casa, comida, cuidado com marido e filhos, depois a responsabilidade na empresa, as exigências do patrão e, ainda, a inesgotável preocupação com a aparência física, cada vez mais exigida para e pelas mulheres.

O nível de estresse é tanto, que as adaptações já aparecem. Entre os casais mais jovens, a divisão de tarefas domésticas é regra e a tendência

é de que isso vá se tornando cada vez mais freqüente, principalmente porque, no mundo moderno, é preciso somar esforços para melhorar a renda familiar e, se o casal quiser ter algum tempo de lazer, todos têm que trabalhar em conjunto.

"Mas tem outra coisa importante e que nem sempre é levada em consideração", observa Calais. "O homem não aprendeu a identificar muito o que ele sente. A nossa cultura não privilegia falas de sentimentos para homens. Por mais que isso tenha passado, até hoje, homem não chora. Enquanto que a menina é, desde muito cedo, incentivada a falar e expressar seus sentimentos."

A psicóloga explica que a pesquisa feita com base no ISS tem que considerar este aspecto, pois o profissional faz perguntas e a pessoa responde. "A mulher tem mais facilidade em perceber o que incomoda. Então, você pergunta se ela está bem, e ela já responde que está brava, chateada ou irritada, se é com o chefe, com o namorado, com os pais. O homem não. Quando a gente pergunta se ele está bem, geralmente ele responde que sim. Ele até pode falar que o chefe é um chato, mas dificilmente ele vai comentar da relação dele com o chefe, com a esposa, filhos. Então, lavando isso em consideração, a gente não sabe exatamente se realmente as mulheres têm mais estresse que os homens ou se, na verdade, elas só aprenderam a falar mais sobre si mesmas e externalizam isso."

Raciocínio é mais afetado nos homens

Entre as mulheres, os sintomas mais relatados estão ligados à sensibilidade e emotividade. Elas choram e se irritam muito mais

A pesquisa das psicólogas também elencou os tipos de sintomas que aparecem com mais freqüência nos casos de estresse. Os resultados mostraram que as alterações de fundo psicológico são muito mais comuns que os distúrbios físicos. Mas mostraram também que existe uma nítida diferença entre o que é descrito por homens e por mulheres, sendo que eles se queixam, principalmente, das alterações de raciocínio.

"Durante o processo de estresse, a mulher tem uma sensibilidade excessiva, então, ela chora por qualquer coisa, fica irritada mais facilmente e também relata desgaste e cansaço. Nos homens, esses sintomas não aparecem (pelo menos não foram descritos durante a pesquisa). Eles elencam as dificuldades de memória, o pensamento recorrente (quando a pessoa não consegue se 'desligar' de um problema), enfim, problemas de rendimento mesmo, no trabalho ou nos estudos", afirma a psicóloga Sandra Leal Calais.

O problema é que quando a pessoa passa a relatar queda no rendimento, é um sinal visível de que o estresse está passando da fase de resistência para o esgotamento e o organismo já não responde mais com a mesma eficiência. Neste momento, o indivíduo torna-se extremamente suscetível ao desenvolvimento de outros transtornos de ansiedade, sendo os mais comuns a síndrome do pânico, as fobias e as doenças psicossomáticas.

De acordo com o psiquiatra Geraldo José Ballone (www.psiqweb.med.br), a doença do pânico é um quadro de ansiedade caracterizado por crises repentinos de um medo incontrolável. A pessoa tem a sensação clara de que vai morrer, desmaiar ou enlouquecer. Com o tempo, esta alteração pode ser acrescida de quadros fóbicos e depressivos, que acabam levando a pessoa ao isolamento.

Em casos extremos, o estresse rouba tanta energia do organismo que acaba resultando em alterações físicas, que vão desde a queda de cabelo e desconforto intestinal até o infarto, como descrito na última edição do JC Saúde. E há várias pesquisas tentando provar a associação entre estresse e o aparecimento do câncer. Alguns estudiosos acreditam que, ao roubar a energia do indivíduo, o estresse leva o sistema imunológico a se descontrolar, abrindo uma brecha para que as células se reproduzam desorganizadamente. E os tumores nada mais são que tecidos originados a partir do crescimento desordenado das células.

Sintomas do esgotamento

* Dores sem causa física (cabeça, pernas, peito);

* Alterações de sono (insônia ou sonolência excessiva);

* Perda de energia (desânimo, desinteresse, fadiga);

* Irritabilidade e ansiedade (apreensão, explosividade, inquietação, impaciência);

* Baixo desempenho (no sexo, na memória, concentração);

* Queixas vagas (tonturas, zumbidos, palpitações, falta de ar, bolo na garganta);

* Humor deprimido (tristeza, angústia, pessimismo);

* Redução no interesse (perda do prazer, desinteresse);

* Alterações no peso (para mais ou para menos);

* Alterações psicomotoras (agitação ou lentificação);

* Idéias sobre a morte (pensar sobre a morte, desejar a morte ou não se importar em morrer);

* Alterações da auto-estima (auto-desvalorização, sentimento de culpa e incapacidade).

Fonte: www.psiqweb.med.br

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