A arquitetura do perdão
Um quadro criado recentemente pelo dominical "Fantástico", da "Rede Globo", tem remetido muitos telespectadores a uma profunda reflexão. No programa, são exibidas cenas de pessoas que visitam condenados por diferentes crimes contra familiares, especialmente. O objetivo é perdoar o ato. Porém, ser indulgente, neste aspecto, não
é tão fácil assim. Envolve, também, sentimentos mais complexos. Perdoar, de livre-arbítrio, significa eliminar a mágoa, a revolta e o ressentimento de uma ofensa. O cristianismo ensina a perdoar. "Se você não perdoa não será perdoado", lembra monsenhor Arnaldo Beltrami, do Vicariato das Comunicações da Igreja de São Paulo.
Para perdoar é preciso abrir uma ferida, entrar em contato com a nossa raiva, tentando dominar um sentimento incontrolável. O perdão depende do tipo de ofensa que sofremos e da nossa capacidade de lidar com o assunto. "Se o perdão é isentar o outro da responsabilidade, então caímos numa armadilha", avisa Elisabete Rodrigues, psicóloga. Quando sentimos raiva experimentamos depois uma certa tranqüilidade, uma sensação de alívio por extravasar algo que nos incomodava. "Para perdoar, precisamos passar primeiro por um
período de luto, respeitar e vivenciar a tristeza que a agressão nos causa", define Elisabete.
"À medida que eu perdôo, também serei perdoado", lembra Beltrami. O cristianismo é a única doutrina que ensina o perdão, segundo o religioso. Mas a incoerência pode esbarrar no amor ao próximo, que
é o principal ensinamento do cristianismo. Se a compaixão com o agressor proporciona o indulto voluntário, então não dependemos de uma condição recíproca para o perdão.
Laura* acredita que ser católica ajudou a passar pelo pior momento de sua vida, quando dois irmãos foram mortos durante uma tentativa de assalto. "Não sinto raiva do assassino e rezo para ele. O perdão me conforta e dá forças para eu aceitar", diz tranqüila. A forte ligação com Deus cria suportes para dificuldades. "O indivíduo torna-se inatingível, a sua fé é seu escudo", revela Elisabete, reforçando a posição de Laura: "Perdoar é uma questão de fé".
No entanto, a religião corre o risco de criar uma única visão da situação e isentar as responsabilidades do agressor. "A vítima transfere a responsabilidade para Deus, proferindo que Ele quis assim", lembra Elisabete. Laura enxerga a culpa do assassino dos seus irmãos, porque acredita que a falta de fé resulta em más ações.
"Para essas pessoas, tanto faz morrer ou matar. Eles se interessam somente pelos bens materiais desse mundo", ressalta. "Meus irmãos eram pessoas de bem e tenho certeza que eles estão em paz."
A obrigação do perdão e a dor
O perdão honesto não é fácil. Algumas pessoas precisam perdoar em virtude dos seus valores, caso contrário, elas sentem-se tão más quanto o agressor. "Às vezes, não se enfrenta a raiva por medo. Medo de se sentir ruim, querendo vingar-se", explica Elisabete. Mas a vingança
é outro estágio e prejudicial. "Não resolve nada", afirma.
Júlia Marquez experimentou um momento bastante difícil quando, com apenas 5 anos de idade, viu seu pai abandonar a família.
"Não o perdôo, porque ele foi covarde. Nunca se preocupou se precisávamos de alguma coisa", conta. Tudo que não for sentido e vivido, explicam os especialistas, aparecerá em algum momento da nossa vida, e pode se manifestar mais tarde de forma drástica. "Dependendo do que aconteceu não estamos preparados para lidar com a
dor", avisa Elisabete. Guardar raiva pode contaminar outros sentimentos, "corremos o risco de viver nossa vida em função de um trauma", conclui.
Encarar a dor indica que podemos mudar a situação e evita reprimir sentimentos, que podem desencadear uma depressão.
"Desprende-se muita energia para guardar um sentimento que precisamos extravasar. Esse é o principal fator desencadeador da depressão", avisa a psicóloga. Em determinados ambientes, a raiva e a culpa crescem. No entanto, a culpa pode ser limitada. "O pai falhou como pai, a mãe falhou também, não pode ficar isenta. Mas 'eu' cresci, enxerguei todos os lados da questão e não posso usar meu pai ausente como desculpa para todos os meus problemas", exemplifica a especialista.
A redatora Vanessa* sempre achou sua relação com o pai, Orlando*, um
pouco "difícil". Certo dia, Orlando precisou de uma cirurgia cardíaca de urgência. Foi um momento extremamente difícil, por dois motivos: a operação foi bastante delicada e, surpresa, uma mulher chamada Shirley* apresentou-se como "namorada" do pai de Vanessa. "Eles eram amantes há mais de 10 anos, e nunca desconfiamos disso. Naquele momento, o mundo caiu para mim", ressalta. "Eu olhava meu pai na cama, inconsciente, todo entubado, e não acreditava.
Mergulhei num turbilhão de emoções indescritíveis. Ficava me policiando para não alimentar o ódio que tomou conta de mim, pois não queria passar uma coisa ruim para ele, que ainda precisava se recuperar. Mas, ao mesmo tempo, era extremamente difícil controlar isso", pondera Vanessa. "Só conseguia chorar, não o visitei mais no hospital."
Quando Orlando recebeu alta, suas malas já estavam prontas. Ele mudou-se para a casa da amante, que, por sua vez, decidiu romper o relacionamento. "Mesmo contra minha vontade, meu pai voltou para
casa depois de uns meses. Minha mãe o perdoou, mas eu ainda não consegui. Na verdade, acho que me senti muito mais traída do que ela. Não sei se um dia conseguirei perdoá-lo, também não sei se realmente desejo isso. Para mim, não importa mais."
Temos de perdoar para esquecer o que aconteceu ? "Não, não temos", esclarece Elisabete. "A ferida pode ser limpa, tratada, mas uma cicatriz ficará com certeza", completa. Com o tempo, aprendemos a conviver com o que aconteceu e a maneira como nos relacionamos com esses sentimentos será, ou não, uma vitória. "Transformar sentimentos, aprender com eles, mas nunca reprimi-los", ensina.
Mea culpa
Outra armadilha comum envolve a transferência de culpa para nós mesmos. Esse tipo de atitude já indica que nos perdoar não será fácil. "Se a pessoa tem confiança, auto-estima, tem uma chance de entender a situação", verifica Elisabete. A pessoa com baixa-estima irá se culpar e não conseguirá se perdoar. A pessoa com excesso de confiança, nunca verá sua culpa. Não precisa de perdão. "Os extremos são perigosos de qualquer forma", lembra.
A pessoa flexível analisa a situação colocando-se no lugar dos outros, inclusive do agressor. Isso aproxima o perdão. Ela aceita a situação, mas não isenta a responsabilidade do agressor. A contrição, ou arrependimento pelas próprias culpas, permite absorção do indivíduo.
"Não é necessário ser católico", avisa Beltrami. O arrependimento torna-se uma questão de consciência. Os católicos
utilizam a penitência para acabar com a culpa, quando reconhecem
seus erros.
O encontro com o agressor pode ser uma necessidade da vítima, um caminho que ela predispõe para o perdão. Ouvir os motivos ou tentar compreender o ofensor não garante a indulgência. "Ela pode dizer que perdoou, vai falar mais um pouco e entregar sua raiva, ou mágoa ainda pertinente. Isso indica que ela não conseguiu realmente perdoar", finaliza Elisabete.
Por Liliam Raña, da Agência Estado
Traição é imperdoável na opinião dos bauruenses
"Você é uma pessoa que perdoa facilmente? O que é imperdoável para você?" Veja o que as pessoas responderam na rua.
"Não. Não consigo esquecer rápido o que as pessoas fazem pra mim, demora um pouco. Com o tempo eu até consigo"
Nathaly de Oliveira Ciaramícolo, 16 anos
"Não perdôo muito fácil, depende da situação. Traição e mentira são as coisas mais difíceis de perdoar. Existem situações que só o tempo pode dizer se vão ser perdoadas ou não"
Júlio César Marçal, 22 anos
"Não muito. Depende do que acontece. A traição, em todos os sentidos é imperdoável"
Luiz Carlos dos Santos, 28 anos
"Perdôo facinho as pessoas. Mas uma traição muito grande é difícil perdoar, agora é duro saber se é possível ou não, só vivendo a situação"
Alessandra Batista Hernandes, 28 anos
"Com certeza, sim, mas traição é imperdoável, o resto, tudo bem"
Luzimar Aparecida Sampaio de Souza, 41 anos
"Sim. Mas não em qualquer caso. Acho assassinatos imperdoáveis, o resto dá para perdoar. Quem somos nós para não perdoar? No dia-a-dia a gente tem de saber perdoar as pessoas"
João Raval, 47 anos
"Perdôo tudo, sempre fui assim. Agora, por causa da idade perdôo mais ainda. Sou católico e acho que a gente deve perdoar para ser perdoado"
Carlos Melges, 88 anos
"Perdôo fácil, porque geralmente são coisas mínimas que incomodam a gente. Mas, às vezes,
é difícil não ficar com uma mágoa, mesmo depois de ter perdoado"
Suad Cury