Toxina botulínica: usos e abusos
Texto: Sabrina Magalhães
Uso cosmético da toxina é bastante amplo. Mas os dermatologistas advertem que a aplicação em local inadequado pode ter conseqüências muito desastrosas
O uso da toxina botulínica no tratamento dermatológico foi o assunto mais discutido durante o Congresso. Isso porque, apesar dos inúmeros benefícios estéticos promovidos pelo produto, o tratamento exige exatidão na hora da aplicação, pois a injeção da toxina em local impróprio pode ter conseqüências extremamente desastrosas, indo desde a dificuldade de mastigação até a deformidade facial temporária, pois a substância atua paralisando os músculos.
"Toxina botulínica: novos usos, abusos e pérolas" foi o tema da conferência ministrada por Sérgio Talarico. Segundo ele, o mais importante para o sucesso do procedimento
é que o profissional "tenha uma noção precisa da musculatura que será trabalhada, pois é isso que vai permitir que nós estudemos o efeito que vamos obter, considerando, por exemplo, que muitos destes músculos se inserem uns nos outros".
Talarico salienta que o uso cosmético da toxina é muito recente e que diversas pesquisas estão sendo feitas em todo o mundo no sentido de se descobrirem outros pontos de aplicação do produto e seus efeitos. Mas ele defende que, enquanto esses resultados não são devidamente comprovados, os dermatologistas devem restringir o uso da técnica aos pontos já conhecidos.
"Acho que nós temos indicações conhecidas e bem estabelecidas. E que hoje podemos dizer, já com um longo período de experiência, que é fascinante a maneira da toxina atuar. Então, é cativante que se busquem novas indicações e novas aplicações, mas nós temos que ser muito cautelosos para que a gente não tenha um desvio e uma perda dos benefícios do método."
Ele lembra que há casos de pacientes que receberam a toxina em determinado ponto da testa para atenuar as 'rugas de preocupação' e acabaram apresentando uma elevação no arco da sobrancelha que lhes conferiu um 'olhar diabólico'. Ou senão, um olhar de 'peixe morto'. Ou, ainda, pessoas que receberam aplicações em certos pontos ao redor da boca e passaram a ter dificuldade para beijar, assobiar ou sugar. Então, ele sugere cautela exatamente para que um procedimento tão importante não acabe caindo no descrédito.
O que é
A toxina botulínica tem a mesma origem do botulismo, uma doença que causa paralisia muscular e ficou mundialmente conhecida pela contaminação através do palmito. De acordo com Talarico, é conhecida desde a antigüidade. Mas foi em 1895, quando uma intoxicação coletiva na Bélgica matou três pessoas, que o agente causador da patologia foi descrito pela primeira vez.
Em 1920, pesquisadores começaram a estudar o efeito paralisante da toxina no intuito de dominar seu mecanismo de ação para uso terapêutico. Nesta época, um oftalmologista norte-americano iniciou testes em macacos, depois passou a tratar o estrabismo humano com a toxina. Mais tarde, seriam tratadas também as distonias musculares.
Até que, em 1987, um casal de oftalmologistas percebeu que os pacientes tratados com a substância relatavam atenuação considerável das rugas ao redor dos olhos (pés de galinha). Isso fez com que os dois começassem a pesquisar os efeitos da toxina em músculos normais, com vistas à estética.
Em 1989 eles conseguem aprovação do FDA (órgão responsável pelo controle de medicamentos nos Estados Unidos) para uso da toxina em distonias e músculos estriados e daí, a evolução não parou mais.
Hoje, por paralisar os músculos, a substância é usada no intuito de aliviar as rugas de expressão - aquelas que aparecem quando a pessoa sorri, quando sente raiva, quando está preocupada, entre outros.
Rejuvenescimento cervical
Uma preocupação constante também para as mulheres é o envelhecimento do pescoço. Até há pouco tempo, por mais plásticas que se fizessem no rosto, a idade sempre aparecia na flacidez cervical. A toxina botulínica aparece como solução imediata para o problema. "Desde que bem aplicada", ressaltou Alexandra Zacharkiv, no simpósio "Rejuvenescimento facial - o que há de novo".
Segundo ela, o envelhecimento resulta em várias alterações na região cervical. Entre elas, alterações na textura da pele, flacidez, formação de sulcos e rugas. A toxina vem sendo usada junto ao músculo platisma, responsável por diminuir a pressão exercida nas veias e artérias que passam pelo local. Ao diminuir a capacidade de contração do músculo, parte das rugas
é atenuada. "Mas certamente teremos que complementar o procedimento com retirada de gordura, peelings e outras técnicas."
Os resultados são excelentes, "mas é preciso cuidado com as complicações, principalmente com perfuração de estruturas nobres do pescoço e infecções". E a dermatologista Ada Regina Trindade Almeida completa: "A quantidade de toxina também requer atenção, pois, em excesso, pode levar o paciente a ter dificuldade de levantar a cabeça".
Então, repetindo o que foi dito por talarico, a toxina botulínica, bem usada, tem efeitos formidáveis. Mas é preciso muita cautela.