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Sexo

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Sexo

Sem compromisso

Texto: Gustavo Cândido

Esperar pelo príncipe encantando, de preferência com um cinto de castidade é, definitivamente, uma coisa do passado no universo feminino. É cada vez maior o número de mulheres que parte para a conquista com a intenção de ter relações sexuais sem compromisso algum, por uma ou duas noites apenas. Com isso, foi-se o tempo em que apenas os homens podiam achar uma mulher interessante num bar, por exemplo, levá-la para a cama, sem ter necessariamente um vínculo afetivo. Hoje, muitas mulheres já se liberaram do sentimento de culpa e estão preocupadas em satisfazer suas necessidades sexuais, ter prazer. Geralmente em grupos, elas saem e, como os homens sempre fizeram, partem para a "caça", sem se preocupar muito com quem vai ser a "vítima". Um detalhe apenas importa na hora da escolha: que o eleito seja bonito.

Quem comprova essa tese com números, é a psicóloga americana Pamela Regan, diretora do Laboratório de Relações Sociais da Universidade de California State, Ph.D em psicologia e em estatísticas. Ela lançou recentemente nos Estados Unidos, o livro, "Lust - What We Know About Human Sexual Desire" ("Luxúria - O Que Sabemos Sobre o Desejo Sexual Humano"), onde, baseada em informações de dois mil entrevistados (mil homens e mil mulheres), chegou

à conclusão que 50% das mulheres praticam o sexo casual, de apenas uma noite. Isso significa o dobro do que era a vinte anos atrás. Embora a pesquisa tenha sido feita nos Estados Unidos, segundo Regan, os dados valem para grande parte dos países ocidentais, inclusive o Brasil.

"Já fui muito mais 'encanada' em relação a isso antes, agora acho até normal. Homens e mulheres devem ter os mesmo direitos em tudo", conta a estudante universitária Silvana*, de 25 anos. Ela, que está sem um namorado "fixo", há sete meses, diz que não vê problema algum em transar com um rapaz que ache interessante sem que isso signifique um possível namoro. "Na verdade toda mulher tem necessidade de sentir prazer", justifica, mas ressalta, "também não quer dizer que vou para cama com qualquer um, sem me proteger. Primeiro ele deve ser bem escolhido, depois também não é uma coisa obrigatória, do tipo 'sai, tenho que transar', se estiver com vontade rola, senão fica só no papo. É ter a opção que

é legal", explica.

Segundo o biólogo e doutor em Psicologia, professor do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Sandro Caramaschi, o que as mulheres estão procurando é liberdade e prazer sexual. Ele explica que a procura pela satisfação das necessidades é uma tendência natural da espécie humana, mas homens e mulheres possuem prioridades diferentes. Enquanto os homens pensam em sexo em primeiro lugar, as mulheres

(que pensam em sexo da mesma maneira), colocam essa necessidade em segundo plano. "O que está acontecendo agora é que antigamente as pessoas consideravam o sexo casual como uma atitude desagradável ou mal vista socialmente. Hoje a sociedade está menos repressora e a mulher está aproveitando isso para buscar prazer", afirma Caramaschi. Mas o professor explica que, mesmo as mulheres que procuram uma relação sexual sem compromisso inconscientemente, pensam num possível vínculo afetivo, por que isso é natural do ser humano. A mulher instintivamente se preocupa com manutenção da espécie, por isso, lá no fundo, mesmo sem saber, analisa "o macho" como um possível par para uma relação duradoura futura.

Beleza é fundamental

Outro dado apontado no livro da psicóloga americana Pamela Regan, é que a maioria esmagadora das entrevistadas escolhem seus parceiros de uma noite pela forma física e pela aparência.

"Quando você sabe que vai ficar com alguém e não vai se envolver, não precisa ficar analisando se ele é uma pessoa muito inteligente, o que você quer é um 'corpo'", brinca a bancária Ana Cristina*

, de 26 anos. De acordo com ela a beleza do homem é o principal ponto observado na hora da conquista. "Não sou só eu quem pensa assim. Todas pensam isso", diz. A bancária conta que a única análise que faz além da visual da sua presa é de caráter, pelo menos do que é possível perceber. "Lógico que conversando vou percebendo se o cara é legal ou não, se é normal. Tem um monte de louco solto por ai e não me arrisco indo com qualquer um para o motel", revela.

O professor Sandro Caramaschi explica: "segundo um trabalho de um autor chamado Kenrick, no qual as pessoas, homens e mulheres, foram perguntadas sobre o quais as características desejáveis em um parceiro, a exigência aumenta de acordo com o nível de comprometimento". diz. Desse modo, se a mulher espera que o seu envolvimento dure apenas uma noite, vai escolher o homem pela beleza apenas. Se achar que o romance vai ser mais longo, começa a ser mais exigente e se quiser aquele parceiro para um relacionamento estável, vai se preocupar muito mais com outras características dele do que a estética.

"As mulheres, de um modo geral, são mais exigentes que os homens, mas existe uma inversão. Os homens valorizam muito mais a beleza do que as mulheres para todos os tipos de relacionamentos, enquanto as mulheres só enfatizam a beleza quando o intuito é o sexo sem compromisso. Quando for um compromisso mais duradouro, ela vai considerar mais a inteligência e, principalmente a estabilidade social", diz Caramaschi.

Jogo

Segundo o professor, que cita o livro "Guerra do Esperma", o sexo casual é uma forma de garantir, de alguma maneira, a participação de um outro homem que possa ter qualidades interessantes, no caso, a beleza. Mais uma vez é a história do instinto da espécie. "No caso de se procurar um homem extremamente bonito, quando se trata de sexo, é uma maneira de estar garantindo uma maior possibilidade de que os seus descendentes sejam também bonitos. Na verdade é uma espécie de jogo. Já que você não pode garantir que esse parceiro bonito fique com você para sempre, pelo menos que a relação sexual seja com alguém com o patrimônio genético positivo", explica Caramaschi. Tudo isso, vale lembrar, inconscientemente.

"Hoje em dia as pessoas se previnem, usam camisinha, pílula, então de certa forma se desvincularam da causa primária que é reprodução", diz.

Eles não querem mais casar!

Na opinião de Sandro Caramaschi, a mudança de comportamento das mulheres em relação ao sexo casual trouxe uma maior liberdade mas também tem suas desvantagens. "É muito comum ouvir as mulheres dizerem que não encontram mais homens que queiram se casar e isso é um reflexo desse tipo de comportamento", afirma. O professor explica que antigamente as mulheres eram pouco acessíveis, por isso os homens tinham de namorar, pegar na mão durante um mês, garantir um vínculo, para depois casar e depois ainda, ter relações sexuais. "Isso é uma estratégia evolutiva, chamada de estratégia da falsa timidez, que exige do macho um grande empenho para conseguir a reprodução. Isso acontece em muitas espécies", diz Caramaschi.

Com a revolução sexual, que liberou o sexo sem culpa, as mulheres se tornaram mais disponíveis. Ou seja: a possibilidade do homem conseguir sexo sem precisar do casamento é muito maior hoje do que antes, por isso a necessidade e a motivação de um vínculo duradouro da parte do homem diminuiu e as pessoas estão se casando cada vez mais tarde. "Hoje o homem pensa primeiro em se formar, arrumar um emprego, se estabilizar, comprar um apartamento, um carro... para depois casar", explica o professor. "Isso prejudicou o processo de formação de casais e as mulheres são as maiores prejudicadas, no meu ponto de vista, provavelmente porque os homens se tornaram menos disponíveis e essa disponibilidade tornou os casamentos mais frágeis também. Porque embora já existisse a possibilidade de traições e infidelidade antes, isso aumentou muito mais e vem aumentando porque a disponibilidade de mulheres dispostas a transar sem compromisso é maior", afirma Caramaschi. Para o professor, a repressão sexual tinha um papel na sociedade, que, certamente, deixava as pessoas menos felizes, mas que tinha mais chances de garantir a continuidade da família, que era mais coesa do que hoje.

* As entrevistadas preferiram ocultar seus nomes verdadeiros

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