Sob críticas, privatização da Telefonica faz dois anos
Texto: Patrícia Zamboni
O Grupo Telefonica está completando dois anos de atuação no Brasil, desde que o setor de telefonia foi privatizado. Apesar de ter sido alvo de inúmeras reclamações por parte dos usuários durante todo esse tempo, a empresa de origem espanhola enaltece e comemora o trabalho que vem sendo realizado, principalmente, no que diz respeito ao crescimento do número de terminais instalados desde o início das atividades do Grupo no país e em relação
à geração de empregos. A Telefonica atua nos segmentos de telefonia fixa e móvel nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, no mercado de Internet, call center e listas telefônicas.
De acordo com informações da Assessoria de Imprensa da empresa, o Grupo tem contribuído significativamente para a criação de empregos. Atualmente, segundo dados fornecidos pela Assessoria, são 78.100 empregados diretos e contratados (terceirizados), incluindo os empregos gerados por duas novas empresas criadas em 1999, a Atento (call center) e a Terra (Internet). Segundo a Assessoria, antes da privatização as empresas que atualmente são controladas pelo Grupo Telefonica empregavam 32.100 pessoas.
Em relação à instalação de linhas, a empresa informa que, atualmente, o Estado de São Paulo possui 10 milhões de linhas instaladas e a maior densidade de telefones por grupo de 100 habitantes no país. Desde que assumiu a operação da Telesp, em agosto de 1998, a Telefonica colocou em funcionamento cerca de 3 milhões de novas linhas, aumentando em 43% o número de telefones no Estado de São Paulo. Até o final de 2001, a empresa afirma que irá atender à demanda de telefonia fixa ainda existente no Estado, calculada em mais 3 milhões de linhas, o que deverá acabar com a fila de espera por um telefone. Se isso acontecer, a Telefonica estará antecipando em um ano o cumprimento das metas estabelecidas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
De acordo com a Assessoria de Imprensa, o número de telefones instalados em residências da classe D passou da marca de 11,3% assinantes da operadora em agosto de 1998 para 30% em abril deste ano. No mesmo período, a classe C, que representava 35,5% dos assinantes, teria subido para 57%. Nas classes A e B, o crescimento teria sido de 79,7% para 88%.
Em Bauru, os dados fornecidos pela empresa dão conta de que houve um crescimento de 24,6% no número de terminais em serviço. Segundo a Assessoria, em julho de 1998 eram 76.535 telefones. Em junho deste ano, essa quantidade teria passado para o total de 95.372 telefones, sendo 69.628 residenciais, 37.081 comerciais e 2.512 públicos. O índice de terminais em serviço por cada 100 habitantes seria de 29,9% em Bauru. Já o índice de telefones públicos por mil habitantes estaria na marca de 7,9%. Segundo a Assessoria de Imprensa da empresa, tratam-se de ótimos números que colocam Bauru como uma das cidades melhor servidas pela Telefonica em todo o Estado.
De acordo com o presidente do Grupo no Brasil, Fernando Xavier Ferreira, a Telefonica é a empresa que mais investe no país, com R$ 12,1 bilhões comprometidos no triênio 1999/2000/2001 em expansão e modernização da rede. "Os investimentos da Telefonica têm refletido de forma significativa na economia do país. Em 1999, pagamos R$ 3 bilhões em impostos e, em 2000, serão R$ 4,6 bilhões, sendo R$ 3,2 bilhões em impostos estaduais e R$ 1,4 bilhão em impostos federais", afirma o presidente.
Número de reclamações continua alto
Embora o Grupo exponha números grandiosos e diversas conquistas alcançadas durante esses dois anos de privatização, em Bauru a Telefonica continua sendo a campeã em números de reclamações registradas no Procon, órgão de defesa do consumidor. Segundo o técnico André Iwata, no início deste ano os registros de atendimentos a usuários dos serviços da empresa dispararam no Procon. Segundo Iwata, de janeiro até o último dia 26, foram contabilizadas 127 reclamações contra a Telefonica, sendo 35 feitas somente entre os dias 1 e 26 deste mês. Segundo Iwata, a maioria dos casos que chegam ao Procon
é de ligações cobradas na conta de telefone que não teriam sido feitas pelo assinante, entre outros problemas.
Muitas reclamações também já chegaram ao Jornal da Cidade durante esses dois anos. Alguns casos, inclusive, foram noticiados, como o de Rose Cabreira Anzolin. A assinante possui três linhas, sendo que uma é utilizada somente para acesso à Internet, uma que nunca teria sido utilizada, e uma terceira, através da qual Rose faz suas ligações normais. Segundo ela, no início deste mês percebeu que técnicos de empresas terceirizadas pela Telefonica estavam trabalhando na rua onde mora. No mesmo dia, sua linha foi desligada e ela ficou sem telefone por uma semana. Em contato com a empresa por várias vezes, depois de dizer a uma das atendentes que estaria gravando aquela ligação, a assinante conseguiu falar com uma supervisora que, segundo Rose, solucionou seu problema no dia seguinte. Depois, ela recebeu a informação de que os técnicos tinham invertido as linhas e, a que permaneceu em funcionamento, foi a que estava ligada somente até o poste.
Na ocasião, a Telefonica informou que a assinante não teria ficado sem telefone porque o número que ela não usava anteriormente continuava ligado. Porém, a usuária não sabia disso. Ainda segundo a empresa, o trabalho de expansão da rede que a Telefonica está fazendo em Bauru pode ocasionar alguns problemas. De acordo com informações da empresa, de janeiro até 20 de julho deste ano foram instalados 14 mil novos terminais na cidade e que, para este segundo semestre, está prevista a instalação de mais 17,5 mil linhas.
Outra questão muito discutida pelos usuários da Telefonica é o problema da data de vencimento do pagamento das contas. Os assinantes têm seis opções de data para escolher, porém, muitos reclamam que, mesmo escolhendo o dia, esse sistema não estaria funcionando adequadamente. Isso faria com que algumas contas chegassem atrasadas, o que também atrasa o pagamento e faz o usuário correr o risco de ter a sua linha desligada.
Também em Bauru, o Ministério Público Federal
(MPF) enviou um ofício à Anatel questionando a segurança dos usuários de linhas telefônicas, já que tanto o Ministério quanto o Procon receberam inúmeras reclamações de ligações registradas na conta que não teriam sido feitas. A suspeita é de que funcionários de empresas terceirizadas que prestam serviços de manutenção à Telefonica, e até mesmo ex-funcionários insatisfeitos, estariam fazendo ligações diretamente nos postes de iluminação pública, através da fiação telefônica. Alguns depoimentos colhidos pelo MPF confirmam essa possibilidade.
A Assessoria de Imprensa da empresa diz que a Telefonica toma diversos cuidados para que casos como esse não aconteçam, inclusive, trocando periodicamente as chaves das caixas de fiação instaladas nos postes. Segundo a Assessoria, podem haver muitos casos de usuários que se aproveitam de situações como essa para dizer que não são os autores de determinadas ligações. Porém, qualquer acusação deve ser provada através de investigações adequadas. O MPF está aguardando a resposta da Anatel.
Empresa se defende
Em relação ao número de reclamações feitas por usuários dos serviços da Telefonica, a Assessoria de Imprensa da empresa afirma que, tanto em Bauru quanto em todo o Estado de São Paulo, a Telefonica tem conseguido resolver grande parte dos casos e que os problemas vêm diminuindo gradativamente. Segundo informações, das 10.045 reclamações registradas pelo Procon/SP em 1999, a maioria, ou 86,3% do total, foi feita durante o primeiro semestre do ano. A Telefonica justifica o fato dizendo que, naquele período, a empresa empreendeu grande esforço para entregar os 450 mil planos de expansão vencidos e não entregues pela antiga Telesp. A reversão desse quadro teria sido constatada pelo Procon a partir de julho, quando foi iniciado o restabelecimento da qualidade do serviço prestado pela operadora. Segundo a Assessoria, das 10.045 reclamações, a Telefonica atendeu 9.610, ou 95,6% dos casos. No segundo semestre do ano passado, as reclamações teriam caído cerca de 84,2%, segundo a empresa.
Por outro lado, em Bauru, o número de reclamações continua alto. A solução dos casos pode ter aumentado, como, inclusive, confirma o técnico do Procon, André Iwata. Segundo ele, a Telefonica tem resolvido muito mais casos dos últimos meses para cá. Porém, os problemas continuam ocorrendo e muitos usuários, insatisfeitos.