Erradicação de doenças confirma eficácia de vacinas
Texto: Sabrina Magalhães
Passado, presente e futuro
Nas últimas décadas, sempre que se fala em saúde e qualidade de vida, a ordem é prevenir. Neste caminho, atividade física regular, alimentação balanceada e cuidados com a higiene são essenciais. Mas não são suficientes.
Em 1956, as principais instituições de saúde anunciaram a primeira erradicação mundial: a varíola estava completamente eliminada do globo terrestre. Foi a grande vitória da história das vacinas. No Brasil, a principal conquista dos últimos anos foi com a poliomielite (paralisia infantil), que hoje está praticamente erradicada graças
às campanhas nacionais de multivacinação, que ganharam força há cerca de 10 anos, quando foi criado o mascote Zé Gotinha.
Mas como funciona a vacina? A vacina é um produto que contém vírus ou bactérias modificados em laboratório. Ao ser ingerida ou injetada, o organismo entende que está adoecendo e reage, produzindo anticorpos (soldadinhos de defesa) contra aquele "invasor". É como na gripe, por exemplo: quando o organismo percebe a presença do vírus, a pessoa começa a espirrar e tossir, tem febre, o nariz escorre, num conjunto de alterações em que o objetivo
é, unicamente, expulsar o vírus.
Com a vacina, o organismo é induzido a essa reação, só que com uma quantidade muito pequena de vírus, que não chega a causar a doença, mas é suficiente para a produção dos anticorpos. Assim, no futuro, quando o germe tentar invadir o organismo, encontrará um
"exército" pronto para a batalha. A doença não se manifesta ou, em casos raros, manifesta-se com sintomas bastante atenuados.
Alguns destes anticorpos vão permanecer no organismo por toda a vida. Outros não. Por isso, muitas vacinas precisam ser repetidas e reforçadas, inclusive na idade adulta. E se a pessoa não toma as outras doses e reforços, a proteção será diminuída ou mesmo anulada. Convenhamos: se existe uma maneira tão simples de prevenir, por que correr o risco de ter que remediar? "Às vezes, fala-se destas doenças como se fossem inofensivas. Mas quando você lembra como foi a sua catapora ou a do seu filho, você agradece a vacina", destaca a infectologista Denise Arakaki.
Origem
De acordo com o professor Luiz Jacintho da Silva (leia mais na página 4), as origens da vacina se perdem no tempo. Sabe-se que muitas alternativas foram tentadas, como usar crostas da mucosa nasal do doente para imunizar pessoas sadias. Mas foi a partir do final do século XIX que começaram os estudos científicos, com destaque para as descobertas de Louis Pasteur. A partir daí, a vacina passou a ser utilizada como forma rotineira de prevenção de doenças.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, a história das vacinas divide-se em pré e pós 2.ª Guerra Mundial. Antes do conflito, foram descobertas as vacinas contra varíola (1798), raiva (1885), praga (1897), difteria (1923), coqueluche (1926), tuberculose e tétano
(1927) e febre amarela (1935). Depois da guerra surgiriam a vacina injetável contra poliomielite (1955), a vacina oral (gotinha) contra a pólio (1962), sarampo (1964), caxumba (1967), rubéola (1970) e hepatite B (1981). Mais recentemente, outras vacinas surgiram, como a da gripe, da catapora, meningite, pneumonia, entre outras.
Inicialmente, as vacinas eram aplicadas em indivíduos que apresentavam maior risco para as doenças. A partir de 1900 começou a implantação dor programas de vacinação em massa, resultando numa baixa significativa da incidência daquelas doenças. As pesquisas continuam em todo o mundo e as descobertas permitem afirmar que em 10 anos, muitas outras doenças poderão ser combatidas através de Calendário varia conforme doenças do País
Adultos também precisam tomar vacinas periodicamente, mas a maioria da população desconhece isso
De acordo com a infectologista Denise Arakaki, o calendário de vacinações varia de um país para outro conforme a incidência e a freqüência das doenças em cada região. No Brasil, por exemplo, a vacina contra tuberculose é administrada logo no primeiro mês de vida do bebê, o que não é feito nos chamados países de primeiro mundo, onde as condições sanitárias são melhores e os riscos de contaminação, menores.
"No Brasil, foi adotada a BCG para evitar que a tuberculose se manifeste nas suas formas mais graves, o que pode acontecer quando acomete crianças muito novas. A tuberculose pode evoluir para meningite tuberculosa ou para tuberculose disseminada
(quando se espalha por outros órgãos do corpo, além do pulmão), que são doenças graves e de alta letalidade. Então, os pais ficam em dúvida se devem vacinar ou não, porque a vacina tem cicatrização prolongada e pode dar desconforto à criança. Mas nós recomendamos que sim, porque sabemos que o bacilo da tuberculose circula muito na nossa população."
Segundo Denise, as vacinas são aplicadas com intenções específicas, não apenas para prevenir a doença. Então, a BCG tem o objetivo de evitar as manifestações graves da tuberculose em bebês. A tríplice (coqueluche, tétano e difteria), está prevenindo doenças cujo diagnóstico é muito difícil e que têm altas taxas de mortalidade.
"Já a tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) é para prevenir basicamente a rubéola congênita. O que a gente pretende? A médio prazo, chegar ao ponto em que praticamente todas as mulheres em idade fértil estejam imunizadas contra a rubéola, para evitar que nasçam crianças deficientes. Porque a gestante pode pegar rubéola durante a gravidez e não ter nenhum sintoma. Só que para o feto, a doença traz inúmeros prejuízos. A criança pode ter alterações na formação cerebral, cegueira, surdez, retardo mental, malformações, dependendo da fase da gestação em que acontece. Mas quando acontece, costuma ter um desfecho muito trágico."
Questionada se a mulher que tem intenção de engravidar deve tomar a vacina ou não, a médica explicou que este não é um procedimento adequado, já que o vírus mantém-se ativo no organismo por algum tempo e, se a mulher engravidar neste período, o feto vai ser prejudicado. O melhor a fazer é o acompanhamento pré-natal, que vai garantir uma evolução tranqüila para a gestação.
Contra-indicações
Sabendo-se que vacinas são compostas por vírus ou bactérias modificados em laboratório, pode-se afirmar que todas elas apresentam contra-indicações e podem levar a reações adversas. Isso vale, principalmente, para aquelas que são produzidas a partir de vírus vivos que tiveram seu poder de infecção atenuados. Estas vacinas são contra-indicadas, principalmente, para os imunodeprimidos (pacientes com aids ou transplantados, por exemplo) e para pessoas que têm infecções graves ou crônicas (problemas renais, cardiopatias, entre outros).
Entre as reações, as principais delas são a vermelhidão e dor no local da aplicação, que pode durar até 48 horas, conforme o tipo de vacina. Mas também pode haver uma manifestação sutil dos sintomas da doença que se pretende prevenir. Por isso,
é raro, mas pode acontecer de aparecerem bolinhas vermelhas na pele da criança imunizada contra sarampo. Nestes casos, são reações esperadas e que desaparecem em poucos dias. Significam que o sistema imunológico está demorando um pouco mais para produzir anticorpos. Mas o problema desaparece logo, sem grandes repercussões.
Vacina para adultos
"Excetuando as campanhas, a população não liga para vacinas", observa Denise Arakaki. Segundo ela, a maior prova disso é a vacina antitetânica, cujo
último reforço é tomado aos cinco anos de idade. Depois disso, é preciso repetir a dose a cada dez anos, portanto, aos 15, 25 e assim por diante.
"Se formos fazer um levantamento, vamos ver que a maioria dos adultos não está vacinada. Claro que o tétano
é mais grave em crianças e idosos, mas em qualquer idade pode deixar seqüelas."
A infectologista informa que as vacinas do calendário oficial estão à disposição em todos os núcleos de saúde da cidade (veja quadro). A maioria pode ser tomada a qualquer momento. Apenas algumas, como a da febre amarela, são aplicadas com dia e hora marcados.
Antigripal para prevenir pneumonia
Algumas vacinas ainda não fazem parte do calendário oficial, mas podem ser tomadas em consultórios particulares
Nos últimos anos, algumas vacinas foram incluídas no calendário oficial. Entre elas, a antigripal foi a que mais gerou polêmica, pois o Governo optou por oferecê-la apenas para idosos (acima de 65 anos), deixando a dúvida da sua validade para pessoas mais jovens. Segundo Arakaki, para a saúde pública, a administração desta vacina não visa, propriamente, à prevenção da gripe, mas à atenuação dos quadros gripais no intuito de se evitarem as complicações da gripe, destacando-se a pneumonia. Na população idosa, é muito comum a gripe evoluir para a pneumonia e, neste caso, a recuperação é bem difícil, podendo levar o paciente a óbito.
Para evitar essas complicações, então, o Governo incluiu a vacina antigripal no calendário. Mas por ser um produto caro, decidiu-se oferecê-la apenas para os idosos e pessoas que têm doenças respiratórias crônicas. A partir disso, foi sugerido às empresas que oferecessem a imunização aos funcionários, objetivando a redução no número de faltas ao trabalho que são anualmente registradas no outono/inverno.
"Não é uma recomendação do serviço público, não há uma indicação formal para a vacinação de adultos jovens, mas não deixa de ser um benefício que o empregador dá aos funcionários. Em contrapartida, ele ganha na produção", ressalta Denise Arakaki.
Hepatite B
A vacina contra a hepatite B é considerada a primeira vacina contra o câncer. Isso porque a hepatite B é uma doença viral grave, altamente contagiosa (transmissão por via sexual, contato com sangue contaminado e com outras secreções), que atinge o fígado deixando sérias seqüelas, entre elas, o câncer do fígado e a cirrose.
O problema é que a infecção pode ser assintomática
(sem sintomas) e as complicações aparecem muitos anos depois, já com quadros quase sempre irreversíveis. Ao prevenir a hepatite B, que não tem cura, está-se prevenindo o câncer de fígado.
A vacina está indicada para bebês ainda no primeiro mês de vida, com repetição da dose aos 2 e 9 meses. Adolescentes e adultos também devem ser vacinados, principalmente aqueles que pertencem a grupos de risco, como os profissionais de saúde (que lidam com sangue e secreções de pacientes potencialmente portadores da doença), hemofílicos
(que fazem transfusões sangüíneas), portadores do vírus da aids (pela imunodeficiência), usuários de droga (pelo possível uso de seringas contaminadas) e pessoas que viajam para regiões endêmicas.
A eficácia da vacina, quando são tomadas as três doses, é estimada em 98%. Além de oferecer proteção
à hepatite B, ela também previne a hepatite D.
Tríplice
A vacina tríplice (DPT) atua na prevenção da difteria, coqueluche e tétano. A difteria, também chamada de crupe, é uma infecção bacteriana grave, que pode atingir o coração, o sistema nervoso central, rins e fígado. Nas vias respiratórias, forma placas no nariz e garganta que podem causar asfixia, exigindo até um traqueostoma (quando é necessário perfurar a traquéia, localizada na base do pescoço, para a passagem do ar).
A coqueluche também é uma patologia bastante grave, responsável por grande mortalidade em recém-nascidos. Manifesta-se no trato respiratório e é caracterizada por acessos de tosse de grande intensidade, podendo, inclusive, haver hemorragias.
E o tétano é uma doença bacteriana que pode ser contraída pelo contato com terra ou materiais sujos, como ferimentos com metais enferrujados, por exemplo. Muito grave, pode levar ao óbito.
Esta vacina deve ser tomada por todos: crianças, adolescentes, adultos e idosos, com indicação especial para gestantes, na prevenção do tétano neonatal (no umbigo do bebê). Geralmente causa reação no local da aplicação, com dor e vermelhidão. Mas a eficácia é de 100%.
HIB
O haemophilus influenzae do tipo B é o agente mais preocupante em termos de incidência e gravidade de infecções variadas em crianças entre 3 meses e 5 anos. É responsável pela meningite, pericardite, pneumonia, artrite e osteomielite, sendo a principal causa de meningite em crianças, deixando seqüelas bastante graves, como a surdez. No calendário oficial de vacinação, ela está prevista aos 2, 4 e 6 meses. Mas é indicada também para pessoas com problemas crônicos de saúde, pacientes imunodeprimidos e idosos.
Raramente provoca reações, a não ser desconforto local e febre nas 24 horas seguintes à aplicação.
Tríplice viral
A tríplice viral protege contra caxumba, sarampo e rubéola. A caxumba é uma infecção viral da parótida que pode atingir também ovários e testículos. E uma séria causa de esterilidade em homens. Caracteriza-se pelo inchaço da região lateral do pescoço
(debaixo da orelha) e face, acompanhado de dor e febre.
Sarampo é uma doença viral grave, já sob controle no Brasil, apesar de pequenos surtos que foram notificados recentemente em alguns pontos do País. Dá febre alta, conjuntivite, fraqueza e pode complicar com pneumonia, otite e encefalite. E na rubéola, como foi descrito, a principal preocupação é com gestantes.
Pólio
A poliomielite (paralisia infantil) já foi totalmente erradicada em alguns pontos do globo terrestre. No Brasil, está sob controle há cerca de 10 anos, graças à vacinação.
É contra-indicada para pacientes com aids e pessoas que convivam com esses pacientes.
Pneumococos 9
Pneumococos são bactérias que causam infecções no sistema respiratório do homem. Atingem principalmente crianças e idosos, sendo a causa mais importante de pneumonia, podendo ser causadora de otites. Em casos mais raros, pode levar
à quadros de meningite. Portadores de doenças no pulmão, coração, rins e imunodeficientes estão mais suscetíveis às infecções por pneumococos.
A vacina é indicada para crianças a partir de 2 anos, adolescentes e adultos portadores de doenças crônicas, como asma, bronquite, nefropatias, cardiopatias, imunodeficiências, etc. E deve ser tomada pelos idosos acima de 60 anos como rotina.
Meningite e catapora: casos à parte
As vacinas contra meningite e catapora são consideradas casos à parte. Com relação à meningite, Arakaki comenta que, para ser realmente eficaz, a vacina teria que ser aplicada em massa. Isso porque não adiantaria ter uma criança imunizada num lugar onde haja circulação da bactéria. A proteção não seria suficiente e a criança, apesar de ter menos riscos, ainda poderia ser infectada.
"A vacina só funcionaria se vacinássemos uma comunidade inteira. Aí, teríamos um cinturão barrando a entrada da bactéria. Do contrário, não
é interessante. Neste sentido, podemos afirmar que a vacina contra meningococo funciona bem em situações de bloqueio, ou seja, quando temos um surto de meningite, mobiliza-se a comunidade, vacina-se todo o mundo, de modo que a quantidade de anticorpos nessa comunidade é maior que a de bactérias e a doença é controlada. Mas uma única pessoa imunizada no meio de muitas bactérias, não estaria protegida."
Quanto à vacina contra a catapora, não há nada que a desabone. No entanto, ela ainda não foi incluída no calendário oficial, sendo encontrada apenas nos consultórios particulares.
A catapora, também chamada de varicela, é uma doença viral muito contagiosa e responsável por epidemias sazonais em todo o mundo. Caracteriza-se por um quadro de lesões na pele acompanhadas por febre, mal-estar, perda do apetite e prurido intenso. Além de muito desconfortável, o paciente fica impedido de exercer suas atividades normais por pelo menos dez dias. Geralmente é uma infecção benigna, mas pode haver complicações, como feridas de grande proporção na pele, que podem deixar cicatrizes, e o herpes zoster, que pode se manifestar tardiamente.
A vacina está indicada para crianças a partir de um ano de idade e para adolescentes e adultos, com indicação especial aos pacientes em tratamento imunossupressivo, pacientes com perspectivas de transplante de órgãos e pacientes com doenças crônicas. Raramente apresenta reações, mas pode manifestar-se com as famosas bolinhas vermelhas da catapora
(4% dos casos).
Recomenda-se que não sejam administrados remédios que contêm ácido acetilsalicílico durante seis semanas após a aplicação da vacina.
Controle absoluto
De acordo com a infectologista, a vacinação é uma coisa que funciona muito bem no sistema público de saúde. Tudo é perfeitamente controlado, desde a distribuição dos lotes até a dosagem necessária para o melhor aproveitamento do produto.
"Principalmente no que diz respeito à temperatura de estoque. As vacinas são armazenadas em geladeiras separadas, sob uma temperatura ideal. Mantemos um termômetro em cada geladeira, que mede a temperatura máxima e a mínima de um período. Três vezes ao dia um funcionário verifica o termômetro. Quando há queda ou elevação da temperatura adequada, a Secretaria de Saúde é notificada e todo produto é separado."
Conforme a médica, uma amostra dos produtos é enviada para exames laboratoriais. Algumas vezes, devido à perda proporcional da potência da vacina, é alterada a dose para aplicação e o produto volta a ser usado. Quando essa perda é acentuada, todo o lote é inutilizado, não importando o prejuízo econômico que isso possa significar.
"São perdas financeiras geralmente altas, mas é melhor do que vacinar a população com uma substância que não tem efeito nenhum."
Aids e câncer são principais expectativas
Apesar da polêmica em torno dos alimentos transgênicos, especialista comenta que a mesma técnica pode permitir a "invenção" de vacinas comestíveis
A grande expectativa dos cientistas hoje, em todo o mundo, é descobrir vacinas contra a aids, o câncer, a malária e a dengue. E segundo o especialista Luiz Jacintho da Silva, estas descobertas estão bem próximas. Ele acredita que muitas novidades devem surgir nos próximos dez anos.
Jacintho é professor na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, superintendente da Sucen (Superintendência do Controle de Endemias) e da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Ele esteve recentemente em Bauru ministrando a palestra "Vacinas: presente e futuro", numa parceria da Associação Paulista de Medicina (APM-Bauru) e Unimed.
Na opinião dele, a história das vacinas teve um marco na década de 40, quando Jonas Salk e Albert Sabin desenvolveram a técnica de cultivo de bactérias em tecidos. Antes disso, os germes eram cultivados em ovos embrionários ou cobaias. A partir daí surgiria a primeira vacina moderna: contra a poliomielite. "Isso permitiu o desenvolvimento de outras, como a do sarampo, rubéola, caxumba, raiva, varicela, hepatite."
Mais tarde, viria a biologia molecular, abrindo inúmeras possibilidades, como a vacina para hepatite B e rotavírus. Atualmente, além da biologia molecular, os estudos estão centrados nas vacinas de DNA e nas vacinas comestíveis.
Vacinas de DNA
"As vacinas de DNA são a grande promessa, porque prometem baixo risco (ao paciente). Resume-se em pegar um pedaço do DNA do germe e inocular na pessoa. O DNA da célula (humana) estimula a produção do antígeno, permitindo uma imunidade completa, duradoura e sem efeitos colaterais."
Ele explica que esta é uma promessa incrível para a prevenção do câncer. "Abre um portal imenso para o futuro. Imagine você poder vacinar as meninas, ainda bebês, contra o câncer de mama, por exemplo. O câncer de mama hoje exige um tratamento agressivo, com quimio e radioterapia, mutilação. É uma vacina muito esperada."
Mas há problemas a serem vencidos. Um deles é na aplicação, que teria de ser feita com uma pistola gênica, que é excessivamente cara. Outra questão que se coloca é, na teoria, existe um risco de que o DNA do germe se incorpore ao DNA do hospedeiro (o homem). Não se pode prever, com exatidão, quais as repercussões disso no organismo dos filhos deste hospedeiro, ou seja, é preciso avaliar a repercussão que este tipo de vacina teria na evolução da espécie humana.
Vacinas comestíveis
"Nem tudo nos vegetais transgênicos é ruim", observa Jacintho. Ele afirma que algumas vacinas comestíveis já estão sendo testadas. O objetivo inicial dos transgênicos era produzir alimentos que não atraíssem as pragas. Mas a mesma técnica de modificação em laboratório está sendo usada para fazer do alimento um condutor de vacinas. Neste sentido, os cientistas estão testando o tabaco, a batata, banana, tomate, alfafa. "Uma beleza, porque você pode plantar vacinas, ao invés de estocar, o que baixaria imensamente os custos."
Aqui também há problemas. Um deles é que os vegetais só são eficazes para a produção de vacinas a partir de proteínas vegetais. Além disso, seria preciso a pessoa ingerir muito vegetal para conseguir um pequeno resultado. E uma terceira questão que tem que ser ponderada é que o alimento, para veicular vacinas, tem que ser ingerido cru. O cozimento anularia o poder de imunização. Neste caso, a batata já estaria descartada, dando preferência
às bananas. "É uma área que tem ainda muitos problemas. Mas é extremamente promissora."
Vacinas combinadas
Outra modalidade citada por Jacintho é a combinação de produtos. A idéia é unir o máximo possível de vacinas numa única aplicação. Algumas combinações já estão sendo usadas rotineiramente, mas já se sabe que alguns germes não podem ser misturados com outros, porque diminuem a resposta do sistema imunológico. O que falta é continuar os estudos para aperfeiçoar a técnica.
Questionado a respeito de uma possível sobrecarga ao sistema imunológico, o especialista respondeu que aparentemente isso não acontece. "A proteção para uma ou outra doença pode ser menor. Aparentemente pode haver um limite na resposta. A vantagem do DNA estaria aí. Mas essa é uma preocupação teórica, que precisa ser melhor avaliada."
Conforme observou Jacintho, os caminhos para novas vacinas são inúmeros a partir destas novas técnicas. No entanto,
é preciso trilhá-los ainda e os estudiosos só estão engatinhando. Ainda assim, o ritmo da evolução, em todas as áreas, vem se acelerando a cada dia e os resultados que, décadas atrás, demorariam 50 anos para serem observados, já podem ser observados em 5 anos. "É um futuro muito promissor. Muito se fez nos últimos 20, 10 anos. Nos próximos 10 anos deve surgir muito mais."
Revolta da vacina
Rio de Janeiro, capital federal, 1904: o povo amotinado levanta barricadas. Bondes são depredados e incendiados. Lojas saqueadas. O episódio fica conhecido como a Revolta da Vacina. O Rio de Janeiro é uma cidade com ruelas estreitas, sujas. Cheia de cortiços onde se amontoa a população pobre. A falta de saneamento básico e as condições de higiene fazem da cidade um foco de epidemias, principalmente Febre Amarela, Varíola e Peste.
Em 1895, ao atracar no Rio de Janeiro, o navio italiano Lombardia perdeu 234 de seus 337 tripulantes, mortos por Febre Amarela. Situação tão alarmante, que uma companhia de viagem européia tranqüilizava seus clientes, no início do século, com a propaganda: "Viaje direto para Argentina sem passar pelos perigosos focos de epidemias do Brasil".
1902: Rodrigues Alves assume a presidência do Brasil com o programa de sanear e reformar o Rio de Janeiro, nos moldes das cidades européias. Os motivos são manter o turismo e atrair investidores estrangeiros. Mais de 600 cortiços são derrubados no centro da cidade para a construção de avenidas. Populações de bairros inteiros, sem ter para onde ir, são desalojadas à força e se refugiam nos morros. As favelas começam a se expandir.
O médico sanitarista Oswaldo Cruz é encarregado de combater as epidemias. Para acabar com a peste, transmitida pela pulga do rato, um esquadrão de 50 homens percorre a cidade espalhando raticidas e removendo lixo. Um novo cargo público é criado: o dos compradores de ratos, que saem pelas ruas pagando 300 réis por rato capturado. Para atacar a Febre Amarela, Oswaldo Cruz segue uma teoria de médicos cubanos, que aponta um tipo de mosquito (Aedes aegypti) como o seu transmissor. Brigadas de Mata-Mosquitos desinfetam ruas e casas. A população acha uma maluquice responsabilizar um mosquito pela Febre Amarela. Quase toda a imprensa fica contra Oswaldo Cruz e ridiculariza sua campanha.
Mas foi a Varíola que pôs a cidade em pé de guerra. Apoiadas em uma lei federal, as Brigadas Sanitárias entravam nas casas e vacinavam pessoas à força. Setores de oposição ao Governo gritavam contra as medidas autoritárias de Oswaldo Cruz. Em novembro de 1904, explode a revolta. Por mais de uma semana as ruas do Rio de Janeiro vivem uma guerra civil. A Escola Militar de Praia Vermelha, comandada por altos escalões do Exército, alia-se aos revoltosos.
Militares insatisfeitos com o presidente Rodrigues Alves armam um golpe de Estado. O Governo reage. Tropas leais atacam os revoltosos. No centro da cidade, pelotões disparam contra a multidão. O número de mortos da Revolta da Vacina é desconhecido. O de feridos ultrapassa cem. Mais de mil pessoas são presas e deportadas para o Acre.
As medidas sanitárias continuam.
Em 1903, 469 pessoas morrem de Febre Amarela. No ano seguinte, este número cai para 39. Em 1904, a varíola havia matado cerca de 3.500 pessoas. Dois anos depois, esta doença faz apenas 9 vítimas. A cidade fica livre das epidemias. Mas começa a sofrer com a proliferação das favelas.
Fonte: Site O Motim - http://members.tripod.com/~omotim/Vacina.htm