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Comportamento

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Rivalidade feminina: mito ou realidade?

Texto: Gustavo Cândido

É difícil encontrar uma mulher que não acredite que encontra em suas companheiras do sexo feminino uma rival em potencial. "Mulheres não são amigas das outras", algumas dizem. O fato é que, realidade ou exagero, as mulheres parecem sentir mais a concorrência de pessoas do mesmo sexo do que os homens sentem dos próprios homens, principalmente quando se trata de uma situação de namoro ou conquista. "Não dá para confiar em completamente em outra mulher quando você está com alguém, nem na melhor amiga ou na irmã, já ouvi muita história de traições por amigas e parentes", diz a estudante Aline Almeida Coutinho, de 19 anos. A novela "Laços de Família", traz uma situação onde a rivalidade entre duas mulheres, embora não declarada, está presente na briga pelo amor de um homem. Na disputa, estão mãe e filha, o que mostra que nem mesmo entre mulheres que se amam pode haver rivalidade. Ou não?

Para a estudante universitária Patrícia Toledo, de 24 anos, existe sim, uma maior competitividade entre as mulheres. Ela cita como exemplo o fato das mulheres se olharem mais entre si, para fazer comparações do que os homens. "Você nunca vê um homem olhando para o outro para saber se ele está bem vestido ou não", diz. A vendedora Mariana Segalla, de 19 anos concorda e diz que às vezes se sente constrangida ao perceber que está sendo "medida" por outra mulher. "É muito chato, você entra num barzinho ou outro lugar com o seu namorado e percebe que as meninas estão olhando você 'de cima em baixo'", conta. Na opinião da vendedora existe muita rivalidade entre as mulheres e por isso elas se "medem" tanto.

A professora Marcilene Sponton Ferri, de 27 anos, também acredita que as mulheres sejam mais competitivas que os homens e acha que essa característica faz parte de todo o espírito de competitividade que existe atualmente em relação ao trabalho e outros setores da vida. Por outro lado, a professora acredita que, no geral, o relacionamento entre os homens é aberto e sincero do que entre as mulheres, "os homens fazem amizade mais fácil do que as mulheres", explica.

Na opinião do psicólogo e psicoterapeuta José Luis Cremonesi, não é possível generalizar. Segundo ele não existe nenhum dado, cientificamente comprovado, que afirme que as mulheres são mais competitivas entre si do que os homens. "É preciso desmitificar o senso comum de há no universo feminino, muito mais competitividade do que no universo masculino. Embora isso possa ser um fato observável em nossa cultura, não é possível saber até que ponto isso corresponde à realidade", diz. O psicólogo destaca, porém, que algumas mulheres, por diversas razões são mais competitivas do que outras. A demonstradora Cristina dos Santos Oliveira, de 26 anos confira essa visão. "Não acho que eu seja competitiva em relação a outras mulheres, mas consigo perceber muitas, inclusive as que se dizem amigas, que na verdade estão brigando, disputando", conta.

Falsa impressão

Segundo José Luis Cremonesi, as mulheres aparentam ser mais competitivas do que os homens porque demonstram isso de uma maneira diferente. O psicólogo explica que, do ponto de vista socio-cultural, a agressividade é socialmente mais aceita e permitida nos homens do que nas mulheres. Isso facilita que os homens sejam mais objetivos na sua combatividade para conseguirem o que desejam e também sejam mais violentos do que as mulheres. Uma vez que no desenvolvimento do papel feminino, ser agressiva não "fica bem", essa agressividade que nelas

é igual a dos homens, acaba sendo escoada de outras formas. Ou seja: o homem é mais direto quando compete, por isso chama menos atenção no geral do que a mulher, que usa de artimanhas. "Quando um rapaz vê outro rapaz paquerando sua namorada, vai lá e quebra a cara dele ou vai tirar satisfação. Com isso está mostrando a sua competitividade, está protegendo sua parceira, numa atitude que é atribuída ao homem como sendo normal", diz Cremonesi.

Quando a mulher passa pela mesma situação, não vai brigar fisicamente, mas usar outros artifícios para desmerecer a concorrente, o que faz com que ela aparente ser uma pessoa dissimulada, que trama nos bastidores ao invés de atacar logo de cara. "Mas o fato é que existe rivalidade da mesma maneira tanto num sexo como no outro", define Cremonesi.

O psicólogo salienta outro fator que deferencia o comportamento das mulheres em relação ao dos homens. A proximidade entre elas. Como na nossa cultura as mulheres desenvolvem muito mais afetividade e intimidade do que é permitido aos homens fazerem (alguém já viu um homem chamar o outro para ir ao banheiro, por exemplo?), elas têm um conhecimento mais detalhado de quais são as armas usadas por elas. "As mulheres talvez tenham mais profundidade para entender as artimanhas que elas usam e por isso ficam mais atentas, observadoras, o que pode acabar aumentando a desconfiança e a competitividade".

Mãe e filha

"Do ponto de vista psíquico, a competitividade excessiva entre algumas mulheres, muito provavelmente tem base no relacionamento que cada menina desenvolveu com a sua mãe", diz José Luis Cremonesi. Isso quer dizer que, se o relacionamento mãe-filha foi uma relação de desconfianças, competitiva e de briga, geralmente pela atenção do pai, isso mais tarde vai se manifestar em forma de competição e desconfiança em relação às outras mulheres. "Na infância pode ser um competição mal resolvida pela atenção do pai, na vida adulta pode se transformar em uma competição por um companheiro afetivo-sexual, pela atenção do chefe de trabalho ou qualquer pessoa ou situação que lembre o que a figura paterna lhe proporcionava".

Insegurança

"Se a menina tem um problema com a mãe, que é o seu exemplo de feminino, ela vai ter um problema com a sua própria feminilidade mais tarde", afirma o psicólogo. A rivalidade entre as mulheres então seria o fruto da insegurança em relação ao seu lado feminino, "se ela está segura da sua própria feminilidade ela não precisa ficar preocupada se a outra tem mais ou menos, é mais ou menos bonita do que ela, ela confia no seu taco", diz Cremonesi.

O psicólogo explica que nem todas as relações mãe-filha tendem a apresentar uma competitividade, embora, normalmente exista uma "disputa" das duas pela atenção da figura masculina, o pai. "Mas existem mulheres que não se importam com isso e não deixam que isso se transforme num problema". Quando essa disputa acontece, precisa ser desfeita aos poucos, conforme a menina vai crescendo. Algumas pessoas param nessa fase, que fica mal resolvida, o que acirra a questão da competitividade em relação às outras mulheres (que representam a figura da sua mãe) no futuro.

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