Ninguém nasceu para ser anjo
Texto: Padre Beto / Especial para o JC Cultura
Existia certa vez um anjo chamado Seth, que vivia na cidade de Los Angeles. Seth levava uma vida normal como a de qualquer outro anjo: passava dia e noite observando os seres humanos.
Acompanhava-os em suas diversas aventuras e, no momento da morte, Seth os conduzia para a tão sonhada eternidade. Durante o nascer e o pôr-do-sol, Seth reunia-se com os outros anjos
à beira do mar para ouvir o canto celestial de glória ao criador.
Um momento mágico que somente alguns seres humanos são capazes de perceber por possuírem uma sensibilidade toda especial.
Durante suas andanças por Los Angeles, Seth começou a perceber nitidamente a diferença entre a vida dos seres humanos e a dos anjos: um anjo é, por natureza, imortal, já um ser humano surge para a existência em um determinado momento.
Este momento é único e acontece normalmente quando duas pessoas se amam. Estando na existência, o ser humano começa a se desenvolver, primeiro em sua "vida intra-uterina", isso visto pela perspectiva dos humanos adultos, pois para o novo ser, o útero é um universo próprio, repleto de emoções e coberto de segurança. Depois de um certo tempo, este mundo é ameaçado e passa por uma destruição, por uma verdadeira morte: o nascimento.
O novo ser humano nasce para um mundo muito maior do que o anterior. Neste novo mundo ele continua a desenvolver-se, passa pela infância, adolescência, juventude até atingir uma idade com a qual é considerado suficientemente maduro, é a chamada vida adulta. Mas esta não dura eternamente, em algum momento o ser humano salta para uma outra dimensão, para um outro mundo, que com certeza é muito maior do que este.
Esta passagem já não é chamada de
nascimento, mas sim de "morte". Seth foi percebendo então que diante da vida dos humanos sua imortalidade era sinônimo de monotonia. Enquanto um anjo é observador da vida, um ser humano vivencia a cada minuto o prazer e a dor de estar na vida.
Enquanto um anjo é um observador da história, um ser humano vive nela, podendo construí-la e transformá-la. O ser humano é o verdadeiro protagonista da história.
Diante destas diferenças, Seth começou a sentir um desejo de deixar aquela vida de anjo e tornar-se humano. Este desejo tornava-se desesperadamente forte sempre quando Seth aproximava-se de uma jovem chamada Meg.
Meg era uma médica que se debatia em uma crise existencial desde o momento que havia perdido um paciente na mesa de operação. Ela, que confiara tanto na ciência, sentia-se agora impotente diante de uma força que era muito maior que seus conhecimentos médicos.
A situação de Meg foi aos poucos sensibilizando Seth e fazendo nascer algo verdadeiramente mágico: o amor. Através deste novo sentimento, Seth foi tornando-se cada vez mais humano até "cair" definitivamente na realidade humana, tornando-se inteiramente gente.
A partir deste momento Seth passou finalmente a sentir de forma radical o prazer e a dor de ser humano. Esta pequena história
é na verdade o roteiro do filme "Cidade dos Anjos" do diretor Brad Silberling, com Nicolas Cage e Meg Ryan.
Com a história de Seth, "Cidade dos Anjos" não possui a intenção de fazer especulações sobre a existência de anjos e muito menos de ser uma descrição de suas vidas. Mais importante que isso, o filme é uma metáfora da própria vida humana. Aqui encontramos uma parábola que nos questiona sobre a postura diante da vida e quer ser um apelo para que nos tornemos mais vivos, mais humanos.
Muitos homens e mulheres vivem a vida, do nascimento até a morte, como se fossem verdadeiros anjos: são simples observadores da história. Deixam com que outras pessoas decidam sobre suas vidas, não expressam livremente suas opiniões, não lutam para realizar seus sonhos por medo da reação do grupo social em que vivem e acabam, finalmente,
aceitando aquilo que a maioria determina como correto.
Desta forma o ser humano perde a chance única que lhe foi dada: a de viver realmente, a chance de ser protagonista da história, transformando-a através de sua autenticidade.
Se somos mais um na "massa", deixamos de ser humanos e a vida perde totalmente seu sentido. Segundo a história de Seth, o caminho perfeito de humanização é o concreto sentimento de amor.
É o amor que cria em nós uma orientação ativa e produtiva em todas as esferas da vida. Se verdadeiramente amo alguém, escreveu Erich Fromm, então amo a todos, amo o mundo, amo a vida.