Entidades se organizam para a discussão da dívida externa
Texto: Paulo Toledo
Cerca de 130 pessoas participaram da reunião para discutir a organização do plebiscito sobre a dívida externa brasileira, que será realizado de 2 a 7 de setembro, visando gerar uma discussão nacional sobre a questão dos pagamentos da dívida externa, que consumiram cerca de US$ 126 bilhões entre 1995 e 1998, segundo os organizadores do movimento.
De acordo com a coordenação do plebiscito, em Bauru, participaram da reunião representantes de associações de moradores, sindicatos, associações de classes, leigos de diversas paróquias da Igreja Católica e partidos políticos. Como a Diocese de Bauru é uma das organizadoras, pessoas de cidades da região também vieram para o encontro.
No País, o plebiscito está sendo organizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), Central Única dos Trabalhadores (CUT), União Nacional dos Estudantes
(UNE).
Valéria Cristina Gomes, da coordenação estadual do plebiscito, destaca que a intenção é mobilizar a população para uma discussão sobre a questão da dívida externa brasileira e sobre os acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que tanto influenciam na vida da população. "É necessários que os cidadãos e cidadãs brasileiras discutam com o governo para que haja uma solução para as dívidas sociais do Brasil", destaca.
De acordo com números apresentados por Lucilene Fernandes, da coordenação de Bauru do plebiscito, entre 1980 e 1999, a dívida externa brasileira cresceu de US$ 64 bilhões para US$ 241 bilhões, num percentual de 276,56%. Além disso, somente em 1999, a amortização e o pagamento dos juros consumiram US$ 67 bilhões, dos quais US$ 15 bilhões em juros.
Somente no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso
(PSDB), entre 1995 e 1998, foram destinados US$ 126 bilhões aos credores internacionais (Veja quadro sobre o que é possível se fazer com US$ 126 bilhões). "Todo esse dinheiro poderia ter sido aplicado na geração de empregos, no aumento do salário mínimo, em moradia, educação, saúde, assentamentos, crédito rural, e em muitos outros setores. Além disso, na verdade, o País já pagou a dívida externa várias vezes. Para cada R$ 1,00 que o governo investe na área social aqui no Brasil, R$ 6,00 são mandados para fora do País para pagamento da dívida", diz Rodney José Bastos, presidente do Conselho Diocesano de Leigos.
Dificuldades
Hélio Inforsato, do Centro Bauruense de Ação Comunitária (Cebac), que participa da coordenação local do plebiscito acredita que, mesmo se o Brasil sofrer retaliações em caso suspensão do pagamento da dívida externa, a maioria da população não sentirá os efeitos, uma vez que é altamente penalizada pelo atual modelo de pagamento, já que deixa de investir no País para pagar aos credores.
Quem vota
Depois da conscientização, que os organizadores admitem ter um tempo curto para trabalhar na cidade, a etapa final da campanha será o plebiscito, do qual poderão participar e votar todas as pessoas acima de 16 anos, mediante a apresentação da carteira de identidade ou do título de eleitor.
Na cédula constarão três perguntas relacionadas ao problema da dívida externa para serem respondidas pelos votantes (veja modelo na página 9).
O presidente do Conselho Diocesano de Leigos observa que, com a campanha do plebiscito, os organizadores pretendem desenvolver um processo educativo para que a maioria da população entenda o verdadeiro significado que a dívida externa tem no dia-a-dia de cada um. Há uma preocupação em se levar o maior número de pessoas possível à votação, mas com a consciência da realidade.
Para isso, as entidades e associações participantes vão buscar fazer um trabalho educativo, no qual pretendem envolver especialistas e entidades, como o Conselho Regional de Economia (Corecon), para que todos possam saber o que se passa com a dívida externa brasileira.
Vale ressaltar, também, que a campanha não é vinculada exclusivamente à Igreja Católica. "Trata-se de uma campanha liderada por diversos órgãos que fala sobre cidadania e todos devem participar, porque trata-se de uma questão que atinge todos os brasileiros".