No mundo dos games
Texto: Gustavo Cândido
O que mais impressiona quando falamos de Théo Azevedo são os números. Com apenas 18 anos de idade ele escreve toda semana para quatro jornais de diferentes pontos do Brasil, é lido por mais de um milhão de pessoas e possui um site na Internet que é acessado por 20 mil usuários por mês. Definitivamente, não é um jovem comum. Fanático por games desde a infância, Théo, que sempre foi considerado por muitos especialistas do meio como um menino-prodígio, está se tornando um prodígio em outra área, a Internet, onde cresce a cada dia mesmo sem ter (ainda) o apoio de um grande portal. Completando quatro anos de JC, onde começou a escrever sobre games, Théo falou ao Caderno Ser sobre sua relação com os jogos de computador, seu site e seu novo hobby: a música.
Jornal da Cidade - Como você começou a se interessar por games?
Théo Azevedo - Foi coisa de criança, eu tinha um Atari, que ganhei da minha tia, quando tinha 4 anos, daí
é aquela coisa: sai um videogame novo, você enche o seu pai até ele comprar, o meu comprava, e aí foi. De repente notei que as outras pessoas começaram a querer fazer outras coisas enquanto eu queria saber sobre aquilo, aprender mais. Meu pai trabalhava com informática, que, na época, era algo muito novo em termo de rodar jogos e tal. Eu fui muito resistente no começo, mas depois comecei a mexer no computador (386, que eram o máximo) e a rodar joguinhos, que eram muito diferentes dos videogames, mais elaborados e que exigiam um certo conhecimento de inglês. Comecei a gostar.
JC - E quando começou a escrever sobre jogos?
Théo - Surgiu uma oportunidade na Infoeste de 1995, eu estava no stand de uma loja de informática vendendo jogos quando o Eduardo Magalhães, na época, editor do caderno de informática do JC, me convidou para escrever sobre jogos. Eu sempre tive vontade de fazer jornaizinhos, cheguei a fazer um com a ajuda do meu pai, o Falcon Games. Rodamos mil exemplares e distribuímos nas escolas. Mas não passou da primeira edição, porque foi feito com muita brincadeira e sem apoio de ninguém, nós que pagamos, mas foi legal fazer, Depois disso eu senti que gostaria de escrever sobre jogos. Mas o convite para escrever no jornal acabou ficando meio no ar. Perdi o contato com o Eduardo, acho que até porque não fui atrás, não tinha maturidade. A coisa só foi se confirmar mesmo em julho de 1996, quando voltei a encontrar o editor do Infonews, ele disse: "E aí, vamos escrever ou não?', disse "vamos!", peguei um jogo que eu gostava, o Warcraft II, e escrevi, ele publicou no dia 27 de julho de 1996. Não parei mais de escrever.
JC - Como você conseguia os jogos?
Théo - Antes eu pedia emprestado das lojas, levava em consignação. Até que eu comecei a recebê-los em casa, o que para mim era um sonho, imagina, receber o jogo de graça para escrever sobre ele! Mas isso só começou depois que entramos em contato com as distribuidoras, que são as empresas que distribuem os jogos que são feitos no Exterior aqui no Brasil. Entramos em contato com a Brasoft, que é uma das mais tradicionais distribuidoras de games do País e eles começaram a mandar os jogos aqui em casa. A partir disso, as coisas começaram a tomar um vulto, eu já não era mais um garoto de 14 anos que as pessoas consideravam um menino-prodígio porque eu escrevia. Passei a receber os jogos de outras distribuidoras e a construir o meu nome no meio. Daí o meu texto semanal virou uma coluna e essa coluna também começou a ser publicada em jornais de vários estados do Brasil, no Pará, no Espírito Santo, além das colaborações ocasionais com a Folha de São Paulo. Surgiram também convites para escrever em revistas especializadas e agora estamos em contato para enviar a coluna para outros jornais também.
JC - E o site?
Théo - Em 1997 meu pai teve a idéia de montar um site na Internet e me sugeriu criar alguma coisa com os games na rede. Achei legal, mas até encontrar alguém que quisesse investir nisso demorou dois anos. No início de 1999 nós conseguimos começar o projeto e colocamos o site no ar em julho de 99. Naquela época eu já era conhecido, tinha uma certa expressão porque tinha contato com todas as assessorias do meio, já tinha colaborado com as revistas da Editora Abril, ou seja, já tinha um nome. Montamos uma equipe para ajudar na manutenção dele e hoje estamos aí, o site tem uma boa taxa de visitas e
é um dos mais famosos do setor na Internet. Talvez pudesse ser até mais visitado se a gente tivesse a oportunidade de fazer ele mais conhecido, o que é o mais difícil nessa área. Quando você não tem um portal que te apoie fica difícil, mas a nossa posição em termos de conteúdo é uma das melhores do Brasil, embora ninguém possa afirmar isso nesse meio. Mas nós somos tão valorizados quanto os sites da Uol ou do Zaz. Quando alguém lança uma cópia aberta de um jogo, uma cópia dele com certeza já está reservada para a Theogames.
JC - Quantas pessoas acessam o site por mês?
Théo - Cerca de 20 mil, o que é uma média muito boa para um coisa que surgiu do nada, que apareceu na Internet sem divulgação alguma. É um número heróico. Sites como o nosso, que não são ligados a um grande portal, existem dezenas, mas nenhum conseguiu tanto destaque. O estágio que nós atingimos de conteúdo e público - que está crescendo todo mês -
é muito bom.
JC - Muitas pessoas criticam o fato do computador "roubar" a infância das crianças, que passam mais tempo na frente dele do que brincando ao ar livro, por exemplo e também de estimular a violência através de alguns jogos. O que você pensa sobre isso?
Théo - A questão da violência é interessante, se você perguntar para um jovem que está preso numa Febem se ele jogava games e por isso ficou violento, vai ver que ele nem sabe direito o que são games. Mas é claro que se perguntar se ele teve acesso a armas muito cedo, se mexeu com drogas, vai ter outra resposta. Se um dia uma pessoa que cometeu um crime disser que foi por causa dos jogos eu paro de mexer com isso. Se o cara vai lá, bebe, usa drogas, anda armado e faz besteira, a culpa não é dos jogos. Eu não acho que os jogos influenciam uma pessoa a cometer um crime como disseram no caso daquele cara que atirou nas pessoas no cinema. Ela já tinha problemas psicológicos, não foi o jogo (Duke Nuken), que aliás ele nem citou. O cara tem que ter algum desvio para partir para a violência e não é o jogo que vai dar esse desvio. A questão das crianças realmente acontece muito, mas não acho que seja culpa delas, e sim dos pais. Quando você é mais velho, adolescente, sabe regular o tempo que fica na frente do computador, tem uma vida social, mas quando você é criança não percebe isso, então se os pais relaxam, a criança abusa porque não tem maturidade para saber que precisa praticar esportes também, brincar. Falta o pai orientar e ter pulso firme para fazer o filho ver que a vida não é só ficar jogando o dia inteiro, meu pai fazia isso comigo. Agora tem uma coisa: se eu morasse em São Paulo e tivesse um filho, ia preferir que ele ficasse jogando a deixar ele brincar na rua.
JC - Você começou a mexer com jogos muito cedo. Você nunca achou que perdeu um pouco da sua infância na frente da televisão ou do computador?
Théo - Se eu perdi foi por minha culpa, porque quando eu era mais criança até abusei um pouco dessa coisa de ficar mais em casa jogando, mas não acho que tenha sido muito. Tive a minha época de jogar futebol e só falar sobre isso, saí muito com a minha turma, viajei, fiz um monte de coisas da idade. É claro que às vezes deixei de fazer algumas coisas porque tinha que escrever ou jogar um jogo para poder falar sobre ele, mas não perdi nada. Hoje eu passo o dia inteiro no computador, quando chega o fim de semana eu não quero nem saber se o computador existe ou não. Já não sou mais um maníaco por jogos como antes, hoje a coisa é profissional, saí de uma brincadeira para ver a coisa como um profissional
JC - O fato de ser conhecido e ter um nome respeitado no meio não incomoda um pouco pelo fato de você ser muito jovem?
Théo - Sim, o glamour incomoda um pouco porque se eu me apresento para um cara da indústria ele ouve o meu nome e até pára. Numa coletiva para a imprensa também, mas antes era pior porque eu tinha só 15, 16 anos e todos ficavam espantados pelo fato de eu ser jovem, ficavam me chamando de menino-prodígio. Hoje eu trato isso com mais naturalidade, mas fora daqui não fico falando sobre computadores, até porque quando me perguntam o que eu faço, se eu disser que tenho um site de jogos, escrevo sobre games vou ficar com que cara perto de alguém da minha idade? É até chato, vai parecer que estou querendo aparecer. Por isso procuro separar bem as coisas, o Théo Azevedo do Théo.
JC - Você não joga mais como antes?
Théo - Jogo muito, mas mais pelo dever. Claro que não é contra a minha vontade, mas é mais como um hobby. Jogo muito quando o jogo é novo e tal, mas não tem mais aquilo de varar a noite jogando como eu fazia antes.
JC - Quais são os seus jogos favoritos?
Théo - Gosto muito do Mario 3 do Nintendo e do Rock n' Roll Racing do Super Nintendo. No computador gosto muito do Sin City, Star Craft, que eu joguei muito, e o Diablo II, que quando eu posso eu jogo por curtição.
JC - As pessoas preferem que tipos de jogos?
Théo - No geral elas gostam de jogos de ação, mas existem gêneros diferentes de jogos. Existem jogos com a ação em terceira pessoa, como o Tomb Rider, por exemplo, onde há uma personagem, e outros em primeira pessoa como o Doom, onde você tem a visão na tela como se fosse você mesmo. Tem também jogos de ação que são mais estratégicos, que são os que eu prefiro porque lidam mais com a inteligência, como o Tomb Rider e outros como o Quake, onde você só precisa apertar o botão e "matar" o que estiver pela frente. Mas tem alguns detalhes, o cara que joga um simulador de vôo, por exemplo, só joga aquilo porque geralmente
é um fissurado, compra todos os tipos de simuladores que existem. Mas a preferência geral é por jogos de ação, até porque a maioria dos jogos à venda são desse tipo.
JC - O computador vai acabar com o videogame?
Théo - O videogame tem uma vantagem sobre o computador que é o fato de você colocar um CD nele e ter a certeza que ele vai funcionar. No caso do computador, além de você precisar de uma configuração mínima, tem sempre a possibilidade de você colocar o jogo lá e ele não rodar. O videogame é mais funcional, mas está perdendo espaço para o computador e os fabricantes estão correndo atrás do prejuízo. O PC dita o mercado, mas acredito que o videogame ainda vá ter o seu espaço.
JC - Agora que o seu hobby virou profissão, você tem outro hobby?
Théo - Gosto muito de música popular brasileira, em especial de samba. Antes gostava de pagode, agora gosto muito de samba. Samba de verdade, não suporto mais pagode. Comecei a aprender a tocar cavaquinho por pura diversão e hoje
é o meu hobby, toco todos os dias, é como uma terapia anti-estresse para mim, mas não gosto muito de tocar na frente das pessoas, ainda estou superando isso. Mas tenho uma verdadeira paixão pela MPB.