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Por Texto: Padre Beto | Especial para o JC C
| Tempo de leitura: 4 min

Diferentes formas de ser pai

Texto: Padre Beto / Especial para o JC Cultura

A expressão "Ele é como um pai para mim!" não só diz muito sobre uma determinada relação com um grande amigo, mas é também uma das provas que ser pai não é somente um fenômeno biológico, mas principalmente um fenômeno ético e cultural. Na verdade, ser pai é um relacionamento.

Este é construído e definido através de papéis e funções que são determinados pela cultura e mentalidade do grupo social. Por isso, a figura do "paizão" está sujeita a transformações dependendo da época e do local em que se vive.

A significação do ser pai no século passado não era a mesma que temos às portas do novo milênio. Sendo também um fenômeno cultural, o ser pai é vivido hoje de forma diferenciada nos diversos cantos do mundo, apesar da atual globalização e virtualidade on-line.

Não há necessidade de irmos para as tribos indígenas da Amazônia ou para países orientais, como Índia ou Japão, para encontrarmos as diferenças. Com toda a certeza, a alegria de ter um filho é normalmente a mesma tanto em uma cultura germânica (Inglaterra, Alemanha, Holanda ou Países Escandinavos), como em uma cultura latina (Portugal, Espanha, Itália ou Brasil).

Mas, a partir daí, começam a surgir as diferenças

éticas que acabam caracterizando diferentes formas de ser pai. Por exemplo, as responsabilidades do pai em relação a seus filhos parecem ser no Brasil mais prolongadas do que na Alemanha.

Os pais alemães se sentem responsáveis pelos filhos durante sua

infância e parte da juventude. Mas, quando o filho atinge seus vinte e poucos anos, já é convidado a encontrar seu próprio canto. Aqui o tema ainda não é casamento, mas sim independência.

Normalmente, um jovem de vinte e poucos anos é considerado adulto, portanto não deve continuar morando com os pais. Já no nosso mundo latino, a juventude parece ser mais longa, o que faz com que os pais se sintam responsáveis pelos filhos por muito mais tempo.

É claro que a situação socio-econômica acaba levando a isso, pois quando o filho está desempregado o paizão é talvez a única ajuda.

Mas, se na Alemanha a independência do filho em relação ao pai chega mais cedo, o tornar-se pai demora um pouco mais. O jovem alemão normalmente será pai depois dos trinta. A tendência na sociedade alemã é a opção por morar sozinho durante um bom tempo para depois se casar.

Para o jovem são prioridades: o curso universitário ou profissionalizante, as muitas viagens pelo mundo (dentre os europeus os alemães são os que mais investem em viagens) e a estabilidade financeira.

Outra forte tendência entre casais é a opção por viverem juntos e só depois de alguns anos (cinco ou sete anos), quando há uma segurança na relação, tomarem a decisão de terem um filho.

Aqui sim entra em questão o tema casamento. Bem antes da gravidez é então oficializado a relação dos dois

com o casamento civil e religioso. No nosso mundo latino o ser pai chega muito mais cedo, apesar de muitas vezes os filhos não terem ainda a necessária independência em relação aos pais (às vezes até a aposentadoria do paizão entra em jogo).

Em muitos casos, uma gravidez não planejada é a razão para o início de uma vida a dois. Por se casarem normalmente depois dos trinta, os alemães geralmente possuem poucos filhos (a média é de dois filhos).

Já no mundo latino, a falta de planejamento familiar e, conseqüentemente, famílias numerosas, ainda são uma tendência.

Outra diferença é a expectativa em relação ao futuro dos filhos. Como os alemães estabelecem bem cedo uma independência entre pais e filhos, os primeiros parecem não criar expectativas em relação ao futuro dos últimos.

Normalmente as decisões dos filhos sobre suas vidas são aceitas com grande liberdade pelos pais. Já na nossa mentalidade, ser pai nos garante o direito de opinar sobre o futuro dos filhos, que acabam muitas vezes sendo instrumentos da realização dos sonhos dos pais.

Se os pais alemães exigem dos filhos que tenham cedo sua independência, quando atingem a velhice não admitem também a dependência deles em relação aos seus filhos. O número de asilos para idosos na Alemanha

é impressionante.

Apesar de serem condomínios de muito conforto, a solidão porém é companheira do dia a dia. Sem dúvida alguma, o aforismo de Marx é uma verdade: "Não

é a consciência dos homens que determina o seu ser,

é o seu ser social que determina a sua consciência".

O importante é não esquecer que este ser social não é absoluto, mas sim mutável. Uma ajuda para refletir sobre o ser pai e os relacionamentos humanos é o filme de Paul Thomas Anderson, "Magnólia", um épico do cotidiano que chega esta semana nas videolocadoras. Parabéns a todos os pais!

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