Dia do vizinho é comemorado hoje
Texto: Gustavo Cândido
Hoje, como acontece desde 1986, ano em que foi aprovada a Lei Municipal nº 2.686, é comemorado o Dia do Vizinho. A data foi escolhida em homenagem ao dia do nascimento da poetisa Ana Lins de Guimarães Peixoto Bretas, a Cora Coralina, dia 20 de agosto de 1889.
Segundo Nize Bretas, nora de Cora Coralina, falecida em 1985, ela sempre quis que o seu aniversário não fosse apenas uma data comemorativa para ela. A poetisa sempre valorizou muito a figura do vizinho, aquele que sempre está pronto para prestar uma ajuda numa emergência, já que a família, na maioria dos casos não está perto. Moderna para o seu tempo, Cora Coralina começou a escrever aos 14 anos e tinha o dom da oratória como poucas pessoas. Sua convicção na importância do vizinho na vida das pessoas a levou até a fazer várias poesias sobre o tema.
"Ela acreditava que o vizinho está sempre 'ali' nas horas das grandes dificuldades e achava que deveria haver um dia para se comemorar isso", diz Nize Bretas. A nora da poetisa afirma que a intenção na criação de uma data era promover uma confraternização especial entre os vizinhos pelo menos uma vez por ano, "a confraternização deve existir sempre mas hoje é dia de trocar uma palavra, um abraço, para comemorar essa amizade tão importante".
Poesias de Cora Coralina sobre os vizinhos
"Quem jamais deixou de ter em algum tempo o seu bom vizinho? Quem na idade adulta deixará de se recordar de um bom vizinho da casa paterna e dos folguedos com os meninos da vizinhança? Quem jamais deixou de se valer de seus préstimos em horas atribuladas? Ou não?
Vizinhos de paredes meias. Vizinhas de esquina. Vizinhos de frente, vizinhos do lado-de-cá e de-lá da rua. Vizinhos de apartamento...
O vizinho é sempre pronto, solícito e prestativo.
É ele que no silêncio da noite, na tranquilidade do seu repouso interrompe o seu sono ouvindo um movimento inesperado na casa pegada. Nem espera pelo chamado. Já está de pé, mal ajeitado, calças sobre o pijama. Procura saber o que é preciso. Doença súbita imprevista, mal estar inesperado, e vai bater na casa do médico, na porta da farmácia, chamar uma assistência, acompanhar esse doente no pronto-socorro, o que leva muitas vezes o médico a perguntar: O senhor é parente do doente? Não, doutor, sou apenas o vizinho. Nada mais expressivo para definir o bom vizinho. Que Deus o ponha sempre perto de nós! (Cora Coralina)
"Vizinhos de apartamento... desconfiados, fechados, inibidos, isolados uns dos outros. Encontros ocasionais nos corredores, comprimento frio, inaudível, convencional nos elevadores.
Alheiamento. Quanta ocasião irrecuperada para um convívio amistoso!!! Cada qual fechado na sua carapaça de gelo, percebendo o melhor da vida que é a boa e fácil convivência mesmo nos encontros rápidos e ocasionais. Por que nos fecharmos tão hermeticamente na nossa rudeza individual se a vida nos põe sempre juntos em encontros frequentes e cotidianos e se temos tanto para dar de nós e tanto para receber dos outros?..." (Cora Coralina)