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3ª idade

André Tomazela
| Tempo de leitura: 6 min

3ª idade: da apatia à superatividade

Texto: André Tomazela

Grupos de 3ª idade estão mudando a forma com que idosos encaram a vida e aumentando a expectativa de vida desta população

A terceira idade, num passado não muito distante, era sinônimo de um período da vida em que os idosos não tinham muitas atividades produtivas. A apatia tomava conta das pessoas pertencentes a esse grupo, que depois de passarem a vida se dedicando

à criação dos filhos e ao trabalho, viam-se com tempo de sobra e com muito poucas atividades para preenchê-lo.

Nos últimos dez anos, a vida apática de boa parcela dos idosos que representam 5,5% da população do Estado de São Paulo, está se transformando em vida muito produtiva, o que, em alguns casos, deixa alguns idosos em situação de ansiedade. "Ansiedade porque eles querem fazer tudo ao mesmo tempo. Algumas pessoas não conseguem participar de uma atividade integralmente porque já estão pensando em outra. Muitos saem antes de acabar a atividade", comenta a psicóloga e coordenadora da Universidade Aberta

à Terceira Idade, da Universidade do Sagrado Coração

(USC).

Segundo a psicóloga, no semestre passado, as atividades foram programadas de modo que algumas ficavam em horários coincidentes, o que gerava ansiedade nos idosos participantes.

"Neste semestre, fizemos uma correção. Colocamos as atividades distribuídas em horários diferentes para que eles não fiquem estressados", comenta.

A Universidade Aberta à Terceira Idade da USC, é um serviço que oferece à comunidade de pessoas idosas diversos tipos de atividades, entre as quais destacam-se os cursos de informática, oficina de matemática, cursos de língua, passeios culturais e oficinas de criatividade. Além disso, os cerca de 100 alunos inscritos têm a possibilidade de participar das aulas das disciplinas dos cursos de graduação juntamente com outros estudantes.

Todas as quartas-feiras, cerca de 60 idosos, participam da "Lição dos Grandes Mestres", ciclo de palestras que, a cada semana, aborda um assunto diferente. Segundo a coordenadora Gislaine, houve uma quarta-feira em que o tema abordado foi sobre o estresse na 3ª idade e várias pessoas se identificaram com as características da patologia apresentadas pelos palestrantes.

"O estado de apatia é prejudicial mas o exesso de atividades neste período da vida não é produtivo, gera ansiedade", conclui.

Sem estresse

Organizar bem o tempo para poder aproveitar todas as atividades organizadas pelo Sesi e pelo Sesc não deixa a aposentada Aparecida Ribeiro Marques, nem um pouco estressada. Ela conta que participa de grupos de atividades voltadas para a 3ª idade há 23 anos e não fica cansada com as viagens promovidas pelo Sesc e com os bailes do Sesi. "O que eu mais gosto de fazer é dançar e viajar. Viajo duas vezes por ano para a unidade Bertioga do Sesc, em excursões promovidas pelo Sesc Bauru." Antes de descobrir os grupos de 3ª idade, Aparecida ficava em casa assistindo televisão. Ela via todas as novelas. Agora ela assiste, no máximo, a uma novela e dedica o tempo restante para as atividades promovidas pelo Centro de Aprendizado Doméstico do Serviço Social da Indústria (Sesi) Bauru. "Antes eu participava de ginástica e hidroginástica, mas o que eu gosto mesmo e de participar dos bailes. Gosto muito de dançar", afirma.

O Sesi possui dois grupos voltados para a 3ª idade, o "Roda Viva", de trabalhos manuais, e o "Vivendo a Vida", com atividades esportivas e recreativas. Participam dos dois grupos mais de 150 idosos.

Segundo a coordenadora do Centro de Aprendizado Doméstico do Sesi, Maria Cristina de Andrade Bastos Magalhães, os idosos estão hoje participando de várias atividades ao mesmo tempo em função da solidão. "Participando de vários grupos, os idosos resolvem o problema da solidão e a qualidade de vida deles aumenta", afirma a coordenadora. Os idosos que participam de grupos sentem mudanças na vida pessoal. Disposição para sair de casa e uma participação maior na vida da comunidade são duas qualidades apontadas pela coordenadora Maria Cristina na sua convivência com os idosos no Sesi.

Depressão profunda é o que sentia a aposentada Milza Prado Marques antes de começar a participar do projeto Revi -vendo da Universidade de São Paulo (USP) campus de Bauru. No início do ano de 1994 ela e o seu marido, que estavam morando em São Vicente, há cerca de 4 anos, resolveram voltar para Bauru porque não haviam se adaptado

à cidade. "Eu estava completamente perdida e decidi buscar ajuda. Foi quando fiquei sabendo do grupo de 3ª idade da USP e comecei a participar", conta Milza. No início, ela começou a aprender teclado. Logo depois se interessou por pintura, artes plásticas e teatro. A depressão acabou, conta Milza que ainda arranja tempo para ficar um pouco com o marido e cuidar do filho, engenheiro formado, que ainda mora com ela. "Hoje sou uma pessoa feliz", comenta.

O projeto Revi-vendo é coordenado pelo professor Farid Lawi e conta com a presença de cerca de 160 idosos que participam de várias atividades como música, pintura em seda, artes plásticas, teatro, ginástica etc.

Mais diposição e vontade de viver

Mais voltado para as áreas de assistência social e de saúde, os idosos contam também com o Programa Municipal de Atenção ao Idoso (Promai), que foi inaugurado em 1993. Segundo a enfermeira do Promai, Agostinha Silvestre de Carvalho, deste a inauguração do programa, a principal mudança que ocorreu na vida dos 3.461 idosos cadastrados, foi a segurança que eles passaram a sentir ao saber que poderiam contar com uma instituição municipal que pudesse atendê-los. O Promai oferece atualmente assistência ambulatorial, assistência domiciliar e promove reuniões de terapia ocupacional. O programa conta com a participação de uma equipe multidisciplinar formada por médicos, assitente social, psicóloga, nutricionista, enfermeira, fisioterapeuta e tem parceria com Universidade do Sagrado Coração (USC) no setor de fonoaudiologia. Oferece ainda programas para o combate a diabete e hipertensão arterial.

A médica do Promai, Fátima Moreno, relata que, em sua experiência com atendimento ao idoso, nos últimos anos, vem percebendo várias mudanças. A tendência atual é que a população idosa está vivendo mais e com maior qualidade. As pessoas, nessa fase da vida, estão com muito mais disposição e vontade de viver. "Um exemplo disso é a dona Jandira, que

é atendida aqui no Promai. Ela tem 79 anos e está muito empolgada porque vai se casar com um senhor de 74 anos, no dia nove de setembro, na Igreja Aparecida", comenta a médica.

Talvez esse tipo de comportamento não fosse tão comum há cerca de 10 anos. Os grupos de terceira idade estão conseguindo mudar radicalmente a forma de vida de grande parcela das pessoas idosas. Hoje é muito mais fácil encontrar idosos interessados em estudar, aprender coisas novas, com muito mais vontade de continuar vivendo. Apatia nunca mais.

"Está havendo uma mudança na forma como a sociedade encara a 3ª idade", comenta Fátima.

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