Doutor peão
Texto: Gustavo Cândido
Aos 33 anos, o dentista bauruense Célio Ricardo Domingues decidiu praticar um hobby um tanto quanto incomum, se tornou um peão de rodeio. Apesar da oposição da família, do estranhamento dos amigos e até da descrença do pessoal do meio, ele foi fundo e no primeiro ano em que começou a montar (1999) participou de provas do circuito nacional e se classificou para competir em Barretos, na maior festa de peão do Brasil e uma das maiores do mundo. Esse ano ele está de volta à capital nacional do rodeio, mas antes de viajar ele contou ao JC como foi a trajetória tardia do consultório para a sela, onde ele se sente como se estivesse "no sofá de casa".
Jornal da Cidade - Por que você decidiu começar a montar tão tarde?
Célio Ricardo Domingues - Então, eu estive num rodeio indoor o ano passado e gostei do que vi. Fiquei com vontade do montar, que era um sonho para mim. Escolhi o cavalo e não o boi. Mas aqui em Bauru não tinha onde aprender. Daí consegui uma pessoa para ensinar a montar, o Wilson Alves, ele me ensinou a categoria cutiano. Depois, acabei conhecendo um rapaz chamado Alex, de Pirajuí, com quem comecei a treinar. O pessoal de lá me incentivou a mudar de modalidade e competir na sela americana, que é uma modalidade que está começando agora. Mudei de estilo e comecei a participar do circuito nacional de rodeios e até cheguei na final em Goiânia. Para o primeiro ano eu fui bem.
JC - Mas como foi esse primeiro contato com o universo da montaria?
Célio - Fui com o Wilson numa chamada 'domingueira', onde o senhor Carlos Rino, que mais tarde me ajudou (e ainda ajuda) muito, estava, fiz amizade com ele, depois comprei uns cavalos que deixo na arena dele, que é onde eu treino. O interessante
é que a primeira vez que montei na modalidade cutiano eu parei em cima do cavalo e acho que isso me incentivou. Ninguém acreditava eu tinha conseguido. Depois disso comecei a treinar.
JC - Como você consegue conciliar a carreira de 11 anos como dentista com um hobby que exige tanto treinamento?
Célio - É difícil conciliar. O certo
é treinar todos os dias, mas eu só consigo treinar a cada 15 dias. É difícil, muitas vezes não tem ninguém para ir junto e a gente precisa de uma turminha para treinar. Esse esporte requer muito treinamento mesmo, do ano passado até agora já melhorei 100%, mas preciso treinar mais.
JC - Esse ano você já participou de todas as etapas do circuito?
Célio - Fiz Jaguariúna, São José dos Campos, Presidente Prudente, Americana, São João da Boa Vista, Goiânia.
JC - Como você foi em Barretos no ano passado?
Célio - Cai com 7 segundos. Meu cavalo pulou bem, se eu paro em cima dele estava na final. Minha bota saiu do pé. Acho que está me faltando um pouco de sorte ou talvez de bagagem. O ano passado eu montei, com treino e circuito, um total de 40 cavalos, o que é muito pouco. O ideal é montar 40 em um mês. Pela quantidade de cavalo que eu montei eu fui bem demais em 99.
JC - Você continua tendo alguém para te ensinar aqui em Bauru?
Célio - Não, hoje se for ver bem eu é quem ensino sela americana para os outros. Ensinei até para o Wilson Alves que havia me ensinado o cutiano. Fiz um curso com americano, então na teoria sei ensinar. Na prática, só fazendo mesmo, é treino, qualquer pessoa é capaz de fazer.
JC - Não é difícil?
Célio - Pode ser, o que importa são os detalhes. Quando você olha de fora, ficar 8 segundos em cima de um cavalo parece fácil, mas lá parece uma eternidade. A pressão na hora é muito grande. O duro no circuito
é que você só pega cavalos que pulam mesmo, animais selecionados. O ano passado só uma pessoa consegui parar em cima de um cavalo chamado Meteoro, eu peguei esse cavalo três vezes, então às vezes é sorte também, porque os cavalos são distribuídos por sorteio. É um conjunto, mas se você tiver sorte, vai longe.
JC - Você tem algum patrocinador?
Célio - Tenho a Taça Rodeios e o Ricardo Bentinho, de São Paulo, que também patrocina o José Antônio Fazion, de Pirajuí
JC - É um esporte muito perigoso?
Célio - Olha, é o segundo ano que eu estou montando e até agora só levei um pisão, há duas semanas, em Goiânia. Mesmo assim, não me machuquei. Joguei futebol por 12 anos e jogando bola já machuquei o nariz, o braço, o joelho, o supercílio... No cavalo só tive escoriações leves.
JC - Sua família não reclama?
Célio - Reclama. Meu pai acha que é loucura, minha mulher também não gosta muito. Ninguém me acompanha, às vezes minha mulher ou meu filho vão.
Às vezes estou indo para o rodeio e tenho vontade de ir embora, mas a hora que chego lá eu sinto um frio na barriga e quando eu sento no cavalo é como se eu estivesse no sofá de casa, daí o que eu quero mais é que a porteira abra logo para ver o que vai acontecer. Às vezes penso
'o que eu estou fazendo aqui', mas depois entro no clima e só quero saber de montar.
JC - O pessoal não estranha pelo fato de você ser dentista?
Célio - Estranha, embora não tenha nada a ver. Meus pacientes acham legal, eles gostam. É diferente porque as pessoas imaginam que um dentista vá praticar um esporte como tênis, ou vá pescar no final-de-semana.